crime e castigo

Sônia falou isso como se estivesse desesperada, inquieta e sofrendo, e torcia os braços. Suas pobres faces tornaram a ruborizar-se, o tormento estampou-se nos olhos. Via-se que a haviam ferido terrivelmente no íntimo, que ela sentia uma terrível vontade de extravasar alguma coisa, dizer, interceder. Uma compaixão insaciável, se é que se pode falar assim, manifestou-se subitamente em todos os traços de seu rosto.
—  Fiódor Dostoiévski, in ‘Crime e Castigo’
É sempre assim que acontece a essas almas românticas: vestem as pessoas, até o último instante, com penas de pavão; até o último momento esperam o bem, e jamais o mal; e ainda que pressintam o reverso da medalha, por nada deste mundo dizem antes a palavra justa; só o fato de pensarem isso as chocam; tapam os olhos com as mãos diante da verdade, até que a própria pessoa a qual vestiram com penas de pavão surge e lhes abre os olhos.
—  Crime e Castigo

Livro da semana: Crime e Castigo, de Dostoiévski

O livro narra a história de Rodion Românovitch Raskólnikov, um estudante que comete um assassinato com o pretexto de estar na miséria e desejar iniciar a vida com o auxílio de algum dinheiro, que conseguiria na casa da vítima.

Após o feito, Raskólnikov vive num misto de isolamento social e alucinação. Em seus delírios, ele sofre perseguições e confunde as ações reais com as imaginárias. 

A história é bem detalhada, envolvente e mostra a busca da salvação através do sofrimento. Além de ser bem agoniante, agoniante pela descrição que sempre parece ser um lugar sombrio; agoniante pela ‘brincadeira’ dos personagens saberem ou não quem é o assassino; agoniante para saber o que vai acontecer com Raskólnikov.

Ela esteve também comovida todo aquele dia e, à noite, voltou a ficar doente. Mas era feliz a tal ponto que quase a assustava a sua felicidade. Sete anos, só sete anos! No princípio da sua felicidade, houve alguns momentos em que tinham estado dispostos a considerar aqueles sete anos como sete dias. Ele nem sequer sabia que a vida nova não lhe seria dada gratuitamente, mas que ainda teria de comprá-la caro, pagar por ela uma grande façanha futura… Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa… mas a nossa presente narrativa termina aqui.
—  Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski