contractos

Como são todos todos os livros escritos por gajos com +40 anos

Título Alternativo: se uma mulher escrevesse sobre homens como a geração pós-75 escreve sobre mulheres

Um ensaio:

Ouvem-se grilos lá fora, onde se senta, fumando e bebendo, por segundos, minutos ou mesmo horas, o tempo lá se perde quando não há luz natural que lhe indique a sua passagem, como um relógio de sol. Na mesa-de-cabeceira, está uma fotografia que há muito baixou sobre o tampo. Não a quer olhar, certo, mas não se acomete a escondê-la, como lhe convinha. De resto, só pensa na possibilidade de aquela fotografia se materializar e encontrar ali a pessoa a que refere. Pelo menos, é esta sempre a imagem de abertura de uma idade adulta insegura com problemas de classe média que se desenrolaram por aí abaixo.

Segura um copo onde existe whiskey, talvez. Como compete a estas narrativas. Preferiria talvez um Malibu ou daquelas bebidas multicoloridas, talvez Blue Curaçau, mas para efeitos narrativos e de empatia provocada num leitor (estética, diga-se), que assumiremos ser masculino, calha bem ser whiskey. Com «e», para se saber que é irlandês.

Que raio faz aquela fotografia sobre a mesa, não sabemos, mas é importante que esteja aqui indicado. Talvez se referira a um amante passado, distante, perdido, um amor falhado como aparentemente compete sempre a estas personagens contemplativas femininas, que pouco falam, se não excepto para soltar tiradas de sapiência que existem meramente para complementar o exímio raciocínio do predominante macho. Nem ela sabe porque há ali uma moldura na mesa de cabeceira, provavelmente olharia para ela e diria «mas quem é este gajo», se calhar acabou de comprar casa e o último inquilino era um homem casado que quando não contratava putas (a julgar pelas meias rasgadas e o maço de slims que encontrou no caixote do lixo), encontrava rapazes que o satisfizessem, esse cowboy moderno da bissexualidade. Mas não. Estamos numa narrativa mediana, o average do conto moderno. É certamente uma flecha que lhe escapou ao coração, talvez o tenha atravessado e saído pelo outro lado.

Também fuma, não nos esqueçamos, que quem não fuma com whiskey não o sabe beber (não é?). Ou se calhar mudaremos o whiskey, bebe antes um copo de vinho. Tinto. Para que o vermelho seja mais adequado ao sexo (porque há sexo correspondente nas bebidas apenas neste tipo de narrativas e no Trumps). Um código. Como quem diz, sou mulher, bebo vinho e fumo, apostaremos que também veste uma saia porque quem a está a descrever tal cena dever ter acabado de ver um filme do Goddard e apanhou tesões à ‘60s com a Anna Karina, e em narrativa de bom macho da geração pós-'75, há que encontrar fantasias sexuais, amiúde perversas, com moças do tempo da revolução sexual e a estética dos anos '60. Mas só as dos filmes franceses. Particularmente, Goddard, embora também esteja capaz de abrir as portas ao Antonioni se entrar na década seguinte. Roma Città Aperta, diz ele.

Faz falta aqui uma ilação qualquer sobre o sexo. Um meio-termo entre o badalhoco e o extremamente erudito, que é a fórmula tradicional de sexualidade modernista, ainda que o sexismo esteja aqui espalhado como manteiga por tudo o que é letra e palavra e página, e realmente só se lhe sente quando começa a escorregar. Uma conclusão qualquer retirada a partir de um cruzar de pernas. Para isso, esta personagem que bebe vinho e fuma um cigarro e pensa numa porcaria de um adereço que em nada se torna construtivo à narrativa, tem de estar acompanhada de um homem. Porque esta validação necessita o espécime macho, o único que pensa em sexo com a poesia necessária para o des-badalhocar (há que introduzir neologismos).

Qualquer coisa sobre sexo. Como lhe vê as pernas e pensa que quer logo ter uma qualquer aventura com ela, e de caminho ela sorri. Dir-se-ia que está firmado aqui um contracto secreto qualquer, provavelmente a seguir surgirá um sorriso, que comprovará o que o leitor pensa: ambos querem, e página e meia depois, acontece, um misto de descrições carnais e poética, de sensações de suores e corpos em ondulação e umas palavrinhas assim de cariz romântico, e antes que dêem por isso, pimbas, pila, caralho, pénis, cona, coisas assim bem javardas sem qualquer nexo, mas estão lá para garantir que este escritor só teve educação sexual quando a vizinha de 35 anos lhe perguntou se algum dia tinha visto mamas quando tinha apenas 13 anos e regressou da catequese, estava a mãe a fazer café na cozinha.

Provavelmente, hão-de se tocar, qualquer coisa assim bem subtil, talvez os dedos dele a roçar-lhe a pele dos joelhos, assim mesmo, dedos a roçar a pele do joelho, porque todo o médio homem acima dos 35 parece ter uma febre particular por joelhos quando nem sequer sabe por onde urinam as mulheres, mas joelhos é que é bonito, é tipo pescoço de freira, que aquilo quando alargam o colarinho, debaixo daqueles hábitos todos desfraldados, uma nesguinha de pele até se lhes dá calores, porque imaginam, estou mesmo a ver o que tens aí debaixo. Nada, se calhar, mas o mistério engrossa sempre o enredo. Há-de ser assim que ele afasta a mãozinha dela que a magia se dá, que se acende a centelha e faísca o desejo que seguirá para a descrição já acima mencionada.

De repente, chegam ao quarto e o leitor dá por si a pensar: então e o vinho?, e o cigarro? Percebe que é uma lacuna, que ficou um assunto pendente, ela apagou o cigarro?, bebeu o vinho todo?

Não se apercebe isto, então: e ela?, porque não falou mais do que um gestinho miserável que para o olhar macho desta estúpida narrativa significou um consentimento universal, enquanto ele matuta sobre tiradas sartrianas existencialistas? Onde terminou isto, afinal?