confundi da

Dias desses encontrei uma foto que você havia me mandando, aquilo me escapou um riso bobo, naquela época a gente se via sempre. Pegamos o mesmo ônibus, você tentava lembrar sua música favorita, e eu gostava de te vê confundi os nomes das suas bandas favoritas e lembrar da primeira vez que me viu. Todas as sextas você me chamava pra sair, eu não podia, então marcávamos de tomar milk-shake no sábado e no domingo, você era responsável por me salvar do pessoal da igreja. As vezes eu desligava o telefone por dias a fio, e como nunca te contei que a minha casa não era na quadra que você tinha absoluta certeza que era, nós só nos encontrávamos quando eu dava pra aparecer na sua rua ou quando a gente se topava pela cidade. Quando acontecia da gente se encontrar por acaso, eu passava três dias rindo pelos cantos. Eu nunca te chamei em nenhuma rede social, ou te contei dos textos seus que li escondida. Nunca contei a ninguém porquê adoro o Batman e detesto o Bob’s. Nunca, apesar de tudo, mencionei o real significado do teu nome para mim. Daquela época de fugas, reencontros, telefones batidos na cara, ligações não atendidas ou mudas, sobrou uma foto boba, de um personagem que você nem gosta, e que você nem deve lembrar, e minha saudade, que faço questão de deixar em cada canto da cidade e que anulo toda vez que passo ao lado da tua rua ou no seu bar favorito. Depois de meses, mesmo após tudo, qualquer coisa vinda de você ainda me deixa feliz.
—  October, 1994.