completamente carente

Capitulo 3 - FINK 2 (Feelings I Never Know 2)

(Por Vanessa)

Tudo que eu queria era ter uma câmera nas mãos para filmar a cara de Clara quando eu coloquei a chave dentro da blusa. Ela arregalou os olhos e afirmou com todas as letras que não iria pegar, depois começou a andar pela sala, como um cachorro encurralado.

– Por Deus, Clata! Você vai fazer um buraco no chão! - segurei seu braço, fazendo-a parar e ela me lançou um olhar quase mortal

– Vou fazer um buraco na sua cara, se não abrir essa porta! - ela se debateu com a força nula, tentando se soltar do meu braço

– É tão difícil assim assumir que ainda me ama?

– Eu não te amo, Vanessa! - ela cuspiu as palavras em meu rosto com desdém, porém sua voz trêmula me fez rir com escárnio

– Ah não?

– Não! Agora, por favor, me solte e vá fazer algo de útil.

Com uma força desnecessária, puxei seu braço fazendo com que seu corpo colidisse com o meu, envolvi sua cintura, pressionando nossos corpos e colei nossas testas, sentindo sua respiração descompassada em meu rosto.

– Tem certeza? -olhei em seus olhos e ela os fechou rapidamente

– S-sim.. - sua voz não saiu mais alta que um sussurro trêmulo, fazendo com que um sorriso surgisse em meu rosto

Uma de suas mãos envolveu minha nuca, e eu fechei meus olhos contendo um sorriso quando ela rossou nossos narizes, ansiando por meus lábios.

– Ainda bem que tenho a chave e.. meu Jesus! - a voz estridente de Angel cortou a sala e Clara tirou as mãos de mim na mesma hora, afastando-se bruscamente – E-eu, desculpem, essa não foi a minha intenção. - Angel tentava se explicar enquanto eu continha a vontade de estapeá-la por ter interrompido – Estou saindo, podem voltar ao que estavam fazendo, eu apoio.

– Não estava interrompendo nada, Angela. -Clara quase saltou de seu lugar e praticamente correu até a porta – Eu já estaria lá fora faz tempo, se a Vanessa não tivesse perdido a chave, obrigada - ela beijou o topo da cabeça da Angel e se jogou para fora da sala, deixando Angel com uma grande cara de interrogação

– Pode me explicar o que estava acontecendo? - ela sentou em uma das cadeiras da mesa de Clara e eu afundei em um puff qualquer, passando as mãos pelo rosto.

– Exatamente o que você viu - disse arrastadamente

– Vocês.. se beijaram? - ela apoiou um dos braços na barriga, como se prestasse mais atenção em sua pança do que em mim.

Pança não, Vanessa! Fetos!

– Iríamos, porem você chegou. - sorri sarcástica e ela projetou o lábio inferior para a frente, formando um gracioso biquinho, como um pedido mudo de desculpas.

– Eu não sabia..

– Eu sei, Angel, eu sei.

– E porque ela saiu daquela maneira?

– Sua amiga não admite que ainda nutre sentimentos por mim. - sorri e ela negou com a cabeça – Ela estava tendo uma recaída, porém você fez o favor de atrapalhar. Bem do seu feitio, isso! Nunca gostou de nós duas juntas.. - disse rindo, afinal, depois de algum tempo Angel tinha passado a ser a pessoa que mais nos dava suporte.

– Você sabe que eu superei essa fase, além disso, estou quase prometendo uma de minhas filhas ao senhor para que você a consiga de volta.

– Como você sa..

– Ah Vanessa, por favor! - ela me interrompeu e eu ri – Tenho cara de burra? As pessoas daqui podem não se dar conta, porém Miami inteira sabe que você só veio pro México por causa dela.

– E porquê você está torcendo para que eu consiga? - cruzei os braços – Clara está noiva.

– Noiva de um grande zero à esquerda! - ela rebateu zangada, e eu franzi o cenho não entendendo o porquê – Ninguém gosta dele, nem eu e Júnior, ou mesmo Sinu. Ele não parece ter boas intenções, entende?

Neguei com a cabeça, realmente não estava entendendo, até onde eu sabia, Fabio era muito bem querido pelas pessoas próximas de Clara, mas pelo o que Angel estava insinuando, tudo não passava de um teatro para as pessoas interessadas.

-Pensa comigo, Vanessa, - Angel prosseguiu - ele é um mero contador, não ganha muito bem, se formos comparar com o que Clara ganha ou outros funcionários bem quistos do hotel, mal preencheu sua vaga e já se dizia apaixonado por ela, ninguém mais, ninguém menos que a dona do hotel em que ele trabalha. Ele ficou em cima, insistiu, até conseguir uma pequena brecha, porque cá entre nós Vanessa, Clara ficou completamente frágil e carente depois que você foi embora, e eu nunca entendi o porque dessa decisão, se você ficou da mesma forma..

– Prossiga, não perca o foco!

– Ok, onde eu estava mesmo? Ah sim, ele ficou em cima, mandava flores, cartões, estava sempre disponível para ela e procurava estar presente em todas as horas, e ela, numa posição carente, acabou sedendo. Não faz nem seis meses que estão juntos e ele já a pediu em noivado, aposto que está doido para que ela aceite um casamento com comunhão de bens.

– Está dizendo que ele só está com Clara por causa do dinheiro?

– E pelo que mais seria? Fomos jantar uma vez, e ele não sabe absolutamente nada sobre os gostos dela, e ela, vive como um vegetal quando o assunto é relacionamento amoroso, por ela tanto faz, não exige um pingo de satisfação ou carinho, as vezes eles até parecem dois pombinhos apaixonados, sei que são realmente um casal, já tiveram lá suas intimidades - soltei um rosnado mudo – Mas eu sinto que por ele, não passa de interesse.

– E vocês não.. sei lá, já tentaram alertá-la?

– Mil vezes! Sinu sempre diz as mesmas coisas, porém ela se nega em terminar, diz que ele é um homem muito bom para ela, que ele a faz feliz e todo aquele teatro feijão com farinha.

– Sinu nunca me disse nada sobre isso..

– É óbvio que não, você acha mesmo que ela falaria algo contigo? Você terminou com a filha dela, e você sabe o quanto ela era contra vocês duas no começo, ela não iria te dizer isso, mas tenho certeza que ela te encheu de sinais, conheço Sinu!

– Uma vez ela me disse que ninguém seria capaz de fazer Clara feliz como eu fiz.

-Quando ela te disse isso?

– No começo do ano, perto do seu aniversário de casamento, eu acho.

– Clara já estava com ele! Porque ela te diria isso se Clara estivesse em uma relação saudável?

– Não sei, vai ver que foi apenas um comentário.

– Não se faça de ingênua, Vanessa.

– O que quer que eu faça?

– Qualquer coisa. - ela socou a mesa de leve, mas voltou a acariciar sua barriga – Ela te trata com indiferença? Então provoque-a! Você conhece Clara melhor do que ninguém, sabe muito bem como mexer em seu ponto fraco.

– Eu não sei mais, de verdade, acho que não sei mais como tê-la de volta.

– Não se faz de coitada, você sabe sim, apenas se esforce, Clara sempre foi doida de ciúmes de você, use isso! Faça com que ela te queira de volta, qualquer coisa! Seu casamento com Drew é fachada, eu sei disso, mas ela não.

– Quando você começou a ser calculista?

– Clara precisa de você, Vanessa! É sério.

********************

(Pov Drew)

O choro de Andrew ao longe me fez despertar do meu cochilo produtivo. Espreguicei-me e estalei o pescoço antes de correr até o quarto, tirando meu pequeno inquieto do berço.

– O que houve, grandão? - ele se debatia e suava como se estivesse morto de calor, mesmo com o ar condicionado ligado – Será que você está com febre? - tateei seu pequeno corpo em busca de encontrar qualquer anormalidade em sua temperatura, porém ele estava normal, mas inquieto e irritado – Quer dar uma volta? - ele se calou de repente arregalando os grandes olhos castanhos – Ah então é isso que você quer? Passear! - ele balbuciou o final da palavra batendo palminhas e eu ri, beijando o topo de sua cabeça.

Com pouco esforço, troquei a fralda de Andy e coloquei nele uma blusa qualquer com uma estampa de super herói. Ele agora, parecia mais irritado do antes, provavelmente ansiando pelo momento em que sairíamos daquele quarto. Peguei uma camiseta qualquer pra mim e sentei Andrew em meu ombro, ele prontamente agarrou minha cabeça para sentir segurança e eu ri feito bobo.

– Noah? - chamei pelo pirralho atentado que agora dormia em um sono profundo diante da televisão. Melhor deixá-lo assim, não irei demorar de qualquer forma.

Andrew se esbaldava no playground da praia artificial do hotel, sentava perto das outras crianças e esquecia do todos a sua volta enquanto fazia estripolias com a areia, todo espertinho e simpático, ganhou a atenção de todas as mães que acompanhavam seus bebês, e eu também, já que era o único homem ali.

– Nossa, olha aquela mulher.. Aposto que não tem filhos, com aquele corpo.. - disse uma das mães

– E nem marido, olha aquele jeito saidinho.

– Que corpão!

Virei meu rosto na mesma direção em que as mulheres estavam olhando e meu queixo caiu ao ter o vislumbre perfeito. Era ela. A mulher do décimo sexto. Ela torcia os longos cabelos negros molhados, e jogou uma toalha em volta dos ombros. Afundando em seguida em uma das cadeiras beira de piscina que havia ali, tomando o celular nas mãos e perdendo toda a atenção das mães que antes falavam dela.

Aproveitei a atenção redobrada das mulheres no meu filho, já que ele era o centro das atenções por conseguir fazer blocos de areia. Saí de fininho, em direção à cadeira dela, sentando-me ali sem ao menos pedir permissão.

– Décimo quarto. - ela disse em seu espanhol carregado de um sotaque que eu não consegui reconhecer.

– Perdão, o que disse? - respondi na mesma língua e ela abaixou rapidamente os óculos escuros para me fitar.

– Americano? - apenas assenti – Ótimo. - ela respondeu em inglês.

– Décimo quarto o quê?

– Você é o décimo quarto homem que tenta puxar assunto comigo hoje.

– Mas eu não sou igual aos outros.

– E o que te faz diferente?

– Eu tenho a sua atenção.

Dessa vez ela nem se deu o trabalho de tirar os olhos do celular para me fitar, apenas ignorou e se manteve concentrada no aparelho em suas mãos. Então eu comecei a encará-la, seu corpo escultural molhado, a pele branca num tom bronzeado perfeito, os olhos negros amendoados e a boca bruta e carnuda que sobressaía em seu rosto delicado.

– O que ainda está fazendo aqui? - ela perguntou ainda sem me olhar.

– Te olhando.

– Achei que já tinha visto o suficiente da sacada do seu quarto. - ela me fitou com as sobrancelhas arqueadas e por alguns segundos eu não sabia o que responder. Como ela sabia?

– Como você sabe disso?

– Você não é a única pessoa que tem binóculos no quarto.

– Então você também me olha?

– Não exatamente.

– Vou fingir que acredito

– Tem filhos?

– Um, de um ano e meio.

– E quem é aquela peste dos binóculos?

– Meu sobrinho.

-Suas fãs estão me comendo com os olhos, acho melhor eu ir embora.

– Do que você está falando?

– Olha pra trás, fofinho.

Virei o rosto e pude ver praticamente todas as mães do playground encarando e cutucando umas às outras, apontando discretamente em nossa direção.

– Elas só estão..

Quando olhei novamente para a cadeira, ela não estava mais ali. Corri os olhos pelo espaço e a vi rindo, a apenas cinco passos de mim, enrolada na toalha.

– Ei, qual o seu nome? - gritei e ela se virou em minha direção com um sorriso de lado.

– Nayara.

Fiquei um tempo encarando seus passos, com um sorriso bobo, sem me dar conta do tempo passando.

– Se depender de você, nosso filho morre - Vanessa se prostrou ao meu lado com Andrew no colo, e eu a fitei confuso.

– Eu estava olhando ele.

– Não, você não estava, só tinha mais uma mulher lá, ele estava abandonado, você tem um motivo plausível pra isso?

– Eu me distraí.

– Com aquela menina? - Vanessa balançou Andrew no colo, e qualquer pessoa que olhasse de longe, diria que somos uma família perfeita.

– Hã.. não.. é, não.

– Qual o nome dela? - Vanessa insistiu de sobrancelhas arqueadas, com um sorriso sugestivo no rosto.

– Nayara..

– Gostei dela, ela é bonita.

– Você já tem a sua.

– E você a sua, se é que me entende. - ela me roubou um selinho e eu ri – Toma cuidado, aqui você tem que pagar de meu marido.

******************

(Pov Vanessa)

A semana seguinte foi um verdadeiro inferno, os dias se arrastavam e as horas pareciam ter dobrado. Minha convivência com Clara estava sendo realmente insuportável, eu estava vivendo a terceira guerra mundial.

Aquela mulher me evitava de todas as formas imagináveis, me tratava com indiferença e nunca ficava no mesmo ambiente que eu, sempre reforçando sobre o quanto minha presença era desnecessária. E o que era uma relação harmônica, tornou-se caótica, nos tratávamos na base do sarcasmo.

– Você tem que ir nessa festa! - Angel cruzou as pernas, se acomodando no sofá da sala.

– Eu não vou.. - afundei meu rosto no abdômen de Drew, que acariciava meus cabelos – Nem sei porque ainda estou aqui, quero ir para a minha casa.

– Pelo amor de Deus, Mesquita! - ela me deu tapa nas pernas – Vai desistir na primeira semana?

– Estou de saco cheio dela, não vou agradar mais. Essa festa é importante pra ela? Maneiro! Então não vou.

– Você vai sim! Você sabe que ela quer que você vá.

– Exatamente por isso que eu não vou.

– Então se você não vai por ela, vá por mim. - Ela cruzou os braços sobre sua barriga saliente – É importante para mim.

– Você pode chamar a atenção da Clara, se quiser, sabe disso. -Drew disse

-Minha vida não gira em torno dela, agora pouco me importo, realmente não quero mais saber.

Angel e Drew trocaram olhares compreensivos, como se estivessem se decidindo sobre o que fazer comigo, como se eu fosse uma criança mimada, e eu estava odiando tudo isso.

– Aham, tudo bem, faça o que você quiser, mas hoje você vai tentar, nem que seja pela última vez. - Angel disse séria e eu revirei os olhos.

O vestido preto que cobria dois palmos e meio de minha coxa, exaltava cada curva de meu corpo, fazendo com que eu me sentisse uma verdadeira deusa sob a seda negra e brilhosa. Meu cabelo jogado para apenas um lado, escorria por sobre meu ombro. A maquiagem sombreada e as jóias de prata destacavam minha pele excessivamente clara e o batom vermelho acentuava o meu rosto, dando um tom um pouco mais sexy.

– Você está maravilhosa! - Drew se escorou na porta e eu sorri tímida.

Ele estava impecável em seu smoking tradicional e uma gravata vermelha com um belo nó inglês. Não pude deixar de rir ao ver Noah correndo pela sala com o mesmo modelo de smoking e gravata, com os cabelos espetados, um mini clone de Drew.

– Você está lindo, aposto que se a tal da Nayara te visse assim, cairia aos teus pés.

– Não é pra tanto. - Ele sorriu de lado e eu dei um leve soco em seu ombro.

– Não me sinto segura em sair e deixar Andrew aqui.

– Paula parece ser uma ótima menina. - Ele disse baixo para que a mulata com Andrew no colo não ouvisse – Tem ótimas recomendações e é contratada do próprio hotel, além disso nada pode acontecer, apenas relaxe.

– Eu não quero ir.. - disse manhosa e ele sorriu

– Para de graça, está doida para ver Clara.

****************

(Pov Clara)

Eu estava completamente orgulhosa do meu coquetel. Tudo estava devidamente decorado e milimetricamente planejado. O salão de festas do hotel estava decorado com os aspectos mexicanos e cortinas vermelhas, e a música lenta e clássica preenchia o local com um ar culto, como um daqueles coquetéis de filmes americanos. As pessoas trajavam belas roupas e era impossível tirar o sorriso prepotente que havia se fixado em meu rosto, mesmo com Fábio pendurado em mim como um macaco aranha.

– Quantos anos ele tem? - Amber, uma acionista do hotel perguntou sobre Fábio, que pendia seus braços em torno do meu corpo sem dizer uma só palavra por não entender inglês.

– Vinte e seis.

– Vocês formam um belo casal.

– Obrigada. - murmurei alegre porém não recebi uma resposta, pois ela se calou, assim como metade da festa e voltou o seu olhar em direção a escada.

A festa inteira tinha parado para encará-los, a beleza que exalavam era estonteante e fora do comum, daquelas que te tiravam o ar e fazia você se sentir completamente inferiorizado. Vanessa e Drew desciam as escadas de mãos dadas, exibindo belos sorrisos e entretidos com o pequeno Noah que dizia algo. Eles pareciam o Sr. e Sra. Smith, com uma miniatura sobressalente.

– Eu nunca a vi tão linda. - Harold, um dos convidados para o coquetel murmurou sobre Vanessa, e Amber assentiu.

– Ela é maravilhosa. Eles são maravilhosos. - Ela respondeu sorrindo e mesmo sem estar na conversa, eu assenti diante suas palavras.

******************

(Pov Vanessa)

– Isso aqui tá um saco. - cochichei no ouvido de Drew que conteve uma risada baixa

– Noah está se dando muito bem sorrindo e acenando, faça o mesmo. - Ele respondeu no mesmo tom.

O coquetel transcorria bem, porém completamente entediante. A música clássica me fazia ficar sonolenta, e eu estava odiando todas aquelas pessoas vestidas com roupa de gala interessadas no hotel, porque diabos tinham de falar justo comigo? Eu estava tão inerte que era Drew quem me guiava pelo local, com sua mão possessiva em minha cintura, e era ele quem respondia a maior parte das perguntas enquanto eu observava Noah ao longe, correndo com outras crianças. A conversa só passou a ser interessante quando Clara e seu noivo mudo se juntaram à rodinha.

Fábio, magro e cabeçudo, a quem eu apelidei secretamente de alfinete, não sabia falar uma frase sequer em inglês, então apenas marcava presença, com os braços ao redor do corpo de Clara.

– Aquele pequeno príncipe é filho de vocês? - Uma das mulheres da qual eu não sabia o nome perguntou.

– Não - eu respondi e senti os braços de Drew se apertarem ao meu redor, não entendi o porque porém não protestei – Aquele é meu sobrinho, Noah.

– Achei que vocês tinham um filho. - O homem rechonchudo perguntou

– E temos - Drew respondeu com um sorriso – O nome dele é Andrew, tem apenas um ano e meio de idade, então achamos melhor deixá-lo com uma babá, não seria muito ético trazê-lo.

– Ele deve ser lindo. - pude ver Clara revirando os olhos com o comentário de uma das mulheres, comprimi uma risada fraca.

– Ele é um príncipe, sou suspeita para falar, mas eu acho. - sorri e alguns me acompanharam com risadas fracas – Amor, mostre uma foto dele!

– Ah sim - Drew pegou o celular e estendeu na mão dos ouvintes, que soltaram diversas onomatopeias meigas ao verem minha foto com Andrew na tela de bloqueio de Drew.

– Eles não são lindos, Aguilar?

– Uns amores. - Clara abriu a boca pela primeira vez, com um sorriso forçado.

Após alguns minutos a conversa morreu e eu fui obrigada a dar atenção a um novo núcleo de pessoas, aturando a cara de cadáver de Clara em todas as minhas conversas, era incrível como dessa forma ela e seu noivo combinavam perfeitamente.

Perdi a linha do pensamento quando ouvi Drew bufar ao meu lado na mesa, finalmente vazia.

– O que foi? -acariciei sua mão sobre a mesa

-Clara está sendo patética, como você está aturando? -e le disse sem tirar os olhos do meio do salão, porém não me dei o trabalho de olhar naquela direção – Você não está notando? - ele voltou o olhar pra mim e eu o encarei confusa – Olha como ela está dançando com o noivo, não tira os olhos de você. Praticamente te perseguiu o coquetel inteiro, agarrada com ele.

– Não é o que eu estou pensando, certo?

– É sim, e acho que poderíamos fazer o mesmo. - ele sorriu sugestivo estendendo o braço, para que fôssemos dançar.

******************

(Pov Clara)

– Você está tão carinhosa hoje. - Fábio beijou o topo de minha cabeça enquanto dançávamos a música lenta

– Estou? - colei nossas testas e vi um sorriso bobo brotar em seus lábios, e senti seus braços me envolverem com ternura.

– Está, e eu gosto disso.

Rolei os olhos em direção à mesa do casal perfeição “mimimi nhonhonho” mas eles não estavam ali, só depois de alguns segundos que fui capaz de visualizá-los bem próximos de mim e Fábio. Sem nenhum motivo aparente, meu rosto aqueceu, e não foi apenas rubor.

Vanessa envolvia os ombros de Drew, com o rosto parcialmente fundo em seu pescoço, mas era possível vê-la sorrindo contra sua pele. E ele, envolvia seus quadris delicadamente, porém de forma possessiva, eles se balançavam conforme a música e algumas pessoas pareciam hipnotizadas com a química que eles exalavam. Bufei. Isso não vai ficar assim, não vou deixar isso estragar meu coquetel.

– Está tudo bem, amor?

– Tudo maravilhoso, meu amor!

Aproximei mais nossos corpos e abri o melhor sorriso que consegui.

*********************

(Pov Angel)

– Vamos dançar também, meu amor. - Júnior parou atrás de minha cadeira e envolveu meus ombros

– Acredite, assistir está sendo muito mais divertido. - ele me fitou confuso e eu voltei o meu olhar para o meu stand up mudo.

Nada na minha vida estava sendo mais divertido do que ver a guerra de ciúmes muda entre Vanessa e Clara. Minhas filhas já deviam estar se debatendo dentro de mim, de tanto que eu ria, era uma cena melhor do que a outra.

Os casais dançavam lado a lado, Vanessa e Drew, Clara e Fábio, e as provocações eram explícitas, apenas Fábio era inocente nessa história. A cada passo que Vanessa se aproximava de Drew, Clara colava seu corpo ao de Fábio, então a americana beijava seu marido de fachada, e era completamente mimada por ele, respondendo tudo com gargalhadas que preenchiam o local. Com isso, Clara se pendurava em Fábio, exigindo sua atenção, o enchendo de beijos, e o melhor de tudo era que elas faziam isso tudo olhando uma nos olhos da outra. Era simplesmente hilariante.

– Aquilo é o que eu estou pensando? - Junior se sentou ao meu lado

– O que você acha? - disse tentando conter outra risada ao ver Clara enchendo o noivo de beijos enquanto Drew dizia coisas no ouvido da Vanessa a fazendo rir.

– Eu não aguento mais! - Drew se jogou na cadeira ao meu lado e eu contive uma gargalhada – Porra, não sei pra quê dei essa ideia idiota.

– Eu avisei que provocação explícita não daria certo. - ele bufou – O que elas estão fazendo agora? Não dá para ver direito aqui, sentada.

– Até o pobre do Fábio saiu de perto, elas estão conversando com algumas administradoras sobre quem tem o melhor noivo.

– Sério? - joguei a cabeça para trás, rindo – Eu precisava ver isso.

– Estão quase gritando uma na cara da outra, as mulheres devem estar assustadas.

– Precisamos agir como se fôssemos adolescentes agora. - disse sugestiva e ele franziu o cenho com uma expressão interrogativa – Tive uma ideia. - ele abriu um sorriso malicioso que me fez prosseguir – Sabe a adega do salão?

Drew ouviu atentamente todo o meu plano com um sorriso gigante nos lábios, enquanto ainda palpitava em alguns detalhes. Era perfeito, apenas precisava ser bem executado. Deus irá me perdoar, mas é por uma boa causa.

– Vai você primeiro.

– Grande cavalheiro que você é! -disse debochada – Vá você.

– Vanessa é mais fácil de convencer, ela me seguiria sem pestanejar, a Aguilar que é o problema.

– Tudo bem. - me dei por vencida, afinal, ele tinha razão – Isso tem que dar certo.

– Espero que atue bem.

– Vai se surpreender com o meu potencial.

Dei um sorriso convencido e me levantei indo em direção à minha melhor amiga de infância. Deus há de me perdoar por isso, é por uma boa causa, você está fazendo o bem. Respirei fundo, pendi a cabeça para a frente, cerrei um pouco os olhos como se estivessem pesados e comecei a caminhar com passos pesados, com a mão sob a barriga, fingindo hiperventilar.

– Clara, Clarinha. - coloquei uma das mãos sobre seu ombro, chamando sua atenção e ela virou o rosto, arregalando os olhos ao me ver – Eu estou passando mal.. - disse ofegando

– Angel , o que você tem? - ela me puxou para um canto, preocupada e eu ergui o rosto, vendo que Drew já tinha ido fazer o mesmo com Vanessa.

– E-eu.. - ótimo, o que você tem, Angela? – Eu.. não estou me sentindo be.. bem, acho que quero vomitar.

– Vem, eu te levo para o banheiro, quer que eu chame um médico? Ou o Junior? Eu chamo qualquer pessoa! - ela disse atrapalhada, visivelmente preocupada e por um segundo fiquei com dó por fazer isso.

– Eu preciso achar a minha bolsa! - disse rápido, fingindo desfalecer em seus braços e ela assentiu desnorteada, rolando os olhos pela sala em busca de alguém que pudesse ajudar, tadinha – Acho que deixei por ali, vem..

– Angel, onde você enfiou essa bolsa? - Clara me acompanhava preocupada pelos corredores do hotel

– Eu não sei.. - eu andava escorando nas paredes, fingindo quase desmaiar, enquanto ela seguia quase desesperada atrás de mim, com a mão sob minha barriga – Aqui! Eu vim aqui! - apontei para a discreta portinhola azul na parede

– Angela, você tem certeza? Aí dentro é a adega.. - ela me olhou, estranhando aquilo

– Maria me pediu para certificar os vinhos brancos e.. Ai! - apoiei a mão sobre a barriga e Clara arfou preocupada – Por favor, vê se está aí dentro, se não achar, vamos direto para um hospital..

– Esquece essa bolsa, vamos agora.

– NÃO! - gritei firme e ela me encarou interrogativa, ótimo – E-eu.. preciso da minha bolsa, você sabe.. coisas insanas de grávidas - disse manhosa com um sorriso fraco e ela assentiu concordando.

– Tudo bem, mas se eu não achar vamos para um hospital!

********************

(Pov Clara)

– Você é um anjo.. - ela disse fraca e eu destranquei a pequena porta azul, receosa de adentrar aquele buraco escuro.

– Quer mesmo a sua bolsa? - disse com medo de entrar.

Por Deus, ela estava passando mal, precisávamos comunicar a alguém, e ela se preocupa com uma bolsa de mão. Meu Jesus!

– Clara.. - Tudo bem. Entrei no ambiente escuro, não enxergando um palmo na frente de meu nariz e do nada um barulho alto de estouro fez com que eu desse um pulo de susto. Uma voz familiar soou alta ali dentro e meu corpo tremeu, virei de costas em busca da saída mas a porta já havia sido fechada. Que porra era essa?

– ANGEL? - gritei batendo na porta, mas não obtive resposta – ANGELA? QUE BRINCADEIRA É ESSA?

Continuei batendo, e nada, nenhuma resposta, a única coisa que escutava eram outras batidas, vindas da outra extremidade da adega. Será que tinha alguém ali? Quem gritou?

Com as mãos meio trêmulas, peguei meu celular no bolso oculto no vestido, e liguei a lanterna, começando a caminhar pelo sombrio local.

A adega era um lugar quase inativo, apenas alguns funcionários tinham acesso, e agora eu sabia o porquê! Aquilo me lembrava um cemitério, os vinhos jaziam sob teias de aranha de muitos anos. Era assustador, porém fascinante. Os alicerces eram de arcos de pedra, que formavam grossas colunas como dez árvores juntas e o chão, era formado de pedras irregulares, e por toda a parte haviam estantes com garrafas e barris, e eu caminhava arrastadamente tentando enxergar com o auxílio precário da lanterna do celular.

– Clara? - a voz de Vanessa soou espantada e eu ergui a lanterna para vê-la encostada na outra porta – O que você está fazendo aqui?

– Ah! Só podia ser.. - joguei os braços com raiva, isso só podia ter sido um plano daquela piranha, para acabar com o meu coquetel, ela não podia ter feito isso.

– Só podia ser o quê, garota? Está maluca?

– Foi você que armou isso, não foi, Mesquita?

– Eu o quê? Você bebeu vinho hoje também? - ela se aproximou e com a luz precária pude ver seu rosto em vermelho vivo, como se estivesse fervendo de ódio

– O que você está fazendo aqui então, estrupício?

– Drew disse Noah tinha se perdido, e mandou eu procurar aqui, só que quando entrei, a porta bateu - ela cuspiu as palavras em minha cara, e eu por incrível que pareça, não via um pingo de calúnia ali. Ela realmente estava preocupada.

– Angel disse que estava passando mal, mas precisava da bolsa antes de irmos para o hospital.. - abaixei o tom de voz e ela riu com desdém

– E você acreditou nisso? Sério, Clara?

– Não adianta ficar estressada agora.. - disse baixo, me aproximando, mas ela recuou

– Vou fazer o quê? - ela começou a andar em círculos em uma distância considerável de mim – Você pelo menos sabe como abrir essa merda? - ela chutou o chão, e eu estava realmente me sentindo culpada pelo jeito que a abordei.

– Só abre por fora.. - disse quase num sussurro e ela chutou uma das estantes de pedra como resposta.

– Merda, merda, merda, merda.. - ela repetia a palavra “merda” sucessivas vezes, sem parar enquanto eu me acomodei sentada no chão, uma hora alguém iria abrir a porta.

– Dá pra você parar, por favor? - disse sem aguentar mais aquela ladainha, levantando e colocando a lanterna em seu rosto. Acabei não contendo uma risada quando ela cerrou os olhos por causa da luz forte, fazendo uma cara engraçada.

– Isso não tem graça! - ela abaixou a minha mão rindo fraquinho e eu sorri

– É tão ruim ficar aqui comigo? - perguntei depois do silêncio que se instalou, fazendo-a franzir o cenho – Digo isso porque você ficou uns cinco minutos dizendo merda sem parar. - ela deu ombros e riu

– Responda isso você, que me tratou mal a semana inteira, só estava fazendo o que você faria. - ela sorriu triste, sem mostrar os dentes, e uma pontada atingiu o peito. Porque eu estava fazendo isso?

– Eu.. e-eu..

– Não precisa se justificar, só achei que… Não sei! - ela deu ombros, rindo novamente – Achei que o que tinha dito era verdade, e não efeito do álcool.

– Não foi efeito do álcool. - disse mecanizadamente, mais para mim mesma do que para ela.

– Então, porquê..? - ela fez gestos com a mão e eu ri com desdém.

– Não bagunce mais a minha vida, Vanessa - olhei-a nos olhos e senti meu coração derreter, como se ela me embriagasse, fazendo com que eu perdesse o controle, e inevitavelmente, sentisse a dor de sua ausência não suprida, que se transformaram em lágrimas discretas em meus olhos – Eu não sou mais uma adolescente, não tenho mais dezessete anos, não tenho tempo para os seus devaneios, não me bagunce pois depois terei de me arrumar sozinha.

– Eu nunca consegui limpar a minha própria bagunça, acho que é por isso que estou no México.

Nossos olhos se encontraram novamente, e eu deixei um soluço escapar, em meio a toda saudade que eu sentia de tê-la perto de mim. Suas mãos envolveram-me com carinho, e eu afundei o rosto em seu pescoço, buscando inalar seu cheiro, enquanto ela acariciava meus cabelos, e murmurava coisas que eu não entendia, porém sabia que se tratava do mesmo que eu sentia.

– Não bagunça a minha vida, Vanessa -sussurei erguendo o rosto, sentindo nossos narizes se rossarem em uma troca de carinhos, que me arrancou um pequeno sorriso.

Ela não me respondeu.

Eu apenas senti seus lábios se fechando sobre os meus, fazendo-me perder os sentidos e esquecer tudo o que nos rodeava. Me entreguei por completo à doçura de seu beijo, estremecendo com o contado dos seus lábios macios junto aos meus.