cometia

Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente.
—  Clarice Lispector.
Estive pensando sobre tudo que me fez chegar até aqui. Tudo que já me rasgou por dentro, tudo que já me fez pensar que eu seria a garota mais feliz do mundo. Achei que nessa altura da minha vida as coisas seriam bem diferentes. Me imaginava realizando sonhos, que hoje nem ao menos sei se existem. Existiam pessoas que nunca imaginei ficar longe, e que hoje não passam de passado. Eu tive medo, medo de encarar meus sonhos, medo de mudar, medo de quem eu estava me tornando, mas principalmente eu tive medo de decepcionar. Por muito tempo a única palavra do meu dicionário era “desculpa”. Eu não queria errar com ninguém, mas na maioria do tempo eu cometia erros. Sempre tentava me justificar por tudo, que fazia ou até aquilo que deixava de fazer. Aos poucos isso foi se tornando algo incontrolável, e foi então que eu fugi de mim. Não foi fácil deixar quem eu era, deixar todo um passado para trás. Mas eu precisei. Fui em busca de algo novo, novas pessoas, novos lugares, mas principalmente, novas atitudes. E hoje estou aqui, procurando sonhar, mas ao mesmo tempo lutando para permanecer no chão.
Você

Pensei em jogar algumas lembranças fora, encontrei uma fotografia sua. Você está sentando no meu velho balanço, que não está mais lá, aquele que ficava na árvore enorme que tem no quintal, assim como o balanço, você também se foi. Um cigarro pendia entre seus dedos, sua boca soprava pequenos círculos de fumaça, você dizia que isso o acalmava, preenchia sua alma, eu não entendia como poderia consumir algo que te destruía aos poucos. Eu o criticava, sem saber que na verdade, eu cometia o mesmo erro. Você consumia o cigarro, eu consumia você.

kgs

Dos relacionamentos que prometeram ser e não foram, sempre resolvo analisar depois de muito tempo, o que a pessoa poderia estar fazendo. Se teria arranjado um outro alguém e se esse mesmo estaria fazendo sua felicidade transbordar.
Um erro que sempre cometia, era me perguntar o por que não havia me doado mais.
Porque sempre paira em nossas mentes o que teria acontecido se nós tivessemos dado o primeiro passo. O grande problema é que sempre há uma ilusão de que não fizemos o suficiente pela pessoa que queriamos em nossa vida.
É errado criar uma culpa e toma-lá pra si. Enxergar o problema como se fosse sempre seu.
Junte as histórias e veja que na verdade você disse. Demonstrou. Acendeu um letreiro luminoso na sua testa apontado pro seu coração.
E fez mais do que podia ter feito.
Junto tudo que tenho de verdadeiro para dizer: Pare de ser trouxa.
Trouxa não é quem sente demais, é aquele que inventa um sentimento que não existe.
Você nunca chega a um barco se ele se manter em movimento. Você nunca faz lar no coração de alguém, se firmar dois tijolos e o outro quebrar duas paredes.
Não dá pra fazer casa no topo do morro. Os pássaros não fazem ninho em árvores secas. Quebradiças.
Literalmente, não se semeia amor em solo improdutivo.
Aprenda de uma vez por todas.
Você precisa parar de se culpar pelas pessoas que tem coração fraco demais para suportar sentimentos sinceros, isso não é sua culpa.
Às vezes, o que mais dói são as memórias que nunca aconteceram.
É que feridas abertas doem mesmo. Até cicatrizarem.
Não dá pra fazer um coração voltar a bater se ele nunca teve vida.
Esse falso amor precisa ser enterrado para descansar em paz.
Aprenda de uma vez por todas.
Nascemos com o coração grande o suficiente para não precisar mendigar espaço no de mais ninguém.

Daniel Duarte 

#sigaosbaloes #danielduarte

Sobre depressão

As pessoas vêm me dizer que fulano não tem razão pra estar deprimido. Mas esse é o quê da depressão: não é uma tristeza com motivo. É uma doença, uma condição atípica e involuntária.
É como não ter a capacidade de coagular o sangue. Não se precisa de um grande corte pra morrer de hemorragia. Pra quem não coagula, qualquer feridinha é ameaça de vida.
Pro depressivo, a realidade, por mais aprazível que seja, é pesada, cinza, sem a menor graça. Se houvesse um motivo palpável a cura era fácil e ninguém cometia suicídio.

Faz hoje 121 anos que nasceu Florbela Espanca

A 8 de Dezembro de 1894 nascia, em Évora, Florbela Espanca, um dos nomes mais célebres da Poesia em Portugal. Trinta e seis anos mais tarde, precisamente a 8 de Dezembro de 1930, a poetisa cometia o suicídio. Embora a sua vida tenha sido tão breve, Florbela soube, como ninguém, transformar as suas inquietações e os seus sofrimentos numa Poesia sublime e singular, que nos leva ao lugar mais profundo do nosso ser, onde os versos da poetisa nos fazem encarar no espelho a dor, o receio, a ânsia, o sofrimento, e nos deixam assim, despidos, mas plenos.

A 8 de Dezembro de 1894 nascia em Vila Viçosa, no Alentejo, Flor Bela Lobo, que mais tarde viria a adotar o nome do seu pai, João Maria Espanca e autonomear-se-ia Florbela Espanca. Florbela, e o seu irmão, Apeles, eram fruto de uma relação extra conjugal de João Maria Espanca com Antónia da Conceição Lobo. João Maria Espanca nunca reconheceu Florbela como sua filha, sendo que apenas fez o reconhecimento de paternidade em cartório cerca de dezoito anos após a morte de Florbela.

Florbela frequenta o ensino primário em Vila Viçosa, onde começa a escrever textos, contos e composições poéticas, sendo que por esta mesma altura começa a assinar como Florbela D’Alma Conceição Espanca. No ano de 1908, a sua mãe Antónia Conceição Lobo falece com apenas 29 anos.

«“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!
Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer …
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver …
Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!»

De Joelhos
Livro de Mágoas, 1919

Florbela ingressou, mais tarde, no Liceu Masculino André de Gouveia, na cidade de Évora, sendo uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o ensino secundário. Foi durante os seus anos de Liceu que Florbela conheceu obras de autores como Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro e Almeida Garrett, que requisitava na Biblioteca Pública de Évora.

Em 1913, Florbela casar-se-ia em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho. No ano de 1918, na sequência de um aborto involuntário que lhe provocara outras complicações a nível de saúde, Florbela mostra pela primeira vez alguns sinais de depressão. Em 1921, Florbela casaria com António Guimarães e o casal viria a mudar-se para a cidade do Porto, contudo o casamento terminaria quatro anos mais tarde, deixando Florbela mergulhada ainda mais profundamente na sua depressão. Florbela viria a casar pela terceira vez, na cidade de Matosinhos, com Mário Pereira Lage. A poetisa mudar-se-ia para a cidade de Matosinhos definitivamente no ano de 1926.

«A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim… »

A Nossa Casa
Charneca em Flor, 1931

Em 1927, o irmão de Florbela, Apeles viria a falecer num trágico acidente de avião. A morte do irmão deixou a poetisa ainda mais abalada em um ano mais tarde, Florbela tentaria o suicídio pela primeira vez.

«Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! …

Sou aquela que passa e ninguém vê …
Sou a que chamam triste sem o ser …
Sou a que chora sem saber porquê …

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!»

Eu
Livro de Mágoas, 1919

Florbela Espanca viria a suicidar-se, em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.

No espólio de Fernando Pessoa viria a ser encontrado um poema em memória de Florbela Espanca.

«Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gêmea da minha!
Tua alma, assim como a minha,
Rasgando as nuvens pairava
Por cima dos outros,
À procura de mundos novos,
Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.

Criatura estranha, espírito irriquieto,
Cheio de ansiedade,
Assim como eu criavas mundos novos,
Lindos como os teus sonhos,
E vivias neles, vivias sonhando como eu.
Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gêmea da minha!
Já que em vida não tinhas descanso,
Se existe a paz na sepultura:
A paz seja contigo!»

Enfim, Florbela Espanca deu muito de si ao material e ao suporte de escrita: para além de pensamentos e de perspetivas, deu sentimento, deu alma e deu um mundo a um mero conjunto de palavras que, encadeadas, descrevem um íntimo delicado mas fascinante. Deu de si aos contos, à poesia, ao romance e até às epístolas. No entanto, Florbela floresceu na poesia. Atingiu o auge da sua natureza ao compor versos, muitas vezes através do belíssimo e clássico soneto. O amor foi o que mais lhe apoquentou. Ao amor deu primos e irmãos. Solidão, melancolia, sedução, tentação, desejo, morte, saudade. Mas amor, sobretudo muito amor. Por si, pelos seus e pelos recantos que habitaram no seu coração. Atribuiu especial destaque ao seu Alentejo. Na prosa, narrava com intimismo e uma familiaridade tal que parecia relatar os seus dias. Foi das pioneiras do lirismo feminismo, com uma identidade própria e indelével do figurino da cultura portuguesa. Nunca descurando a primeira pessoa do singular, sente-se a essência de Florbela nos seus vocábulos e nas suas frases. Sente-se a devoção com a qual fala sobre o amor, a alma, a saudade, o beijo. Sente-se porque todos nós o sentimos, de maior ou menor forma. Uma flor bela que aprendemos a cultivar no jardim do nosso íntimo e da nossa estima. Florbela compreende-nos, Florbela conhece-nos, Florbela sabe o que amamos e o que nos apoquenta. Se não creem em Deus, em Buda ou em nenhuma entidade metafísica, pelo menos acreditem em Florbela Espanca.

Artigo de: Luke de Sousa e Joana Sousa