clássico

Misfits

Capítulo Anterior: aqui

Capítulo 5 – Bando de Loucos.

Não houve nada de mais. O clube do livro foi engraçado, se é que podemos chamar assim. Um bando de loucos, sentados, olhando um para a cara do outro, tentando escolher títulos para futuramente virar assunto. NamJoon tinha bastante conhecimento sobre os títulos da biblioteca, que se resumiram em milhares, alguns quiseram trabalhar com romances clássicos, Jin disse até mesmo sobre livros infanto-juvenis, e o amigo de Yoongi quis os de terror – pessoa estranha.

No sábado eu entreguei a lista para a doutora, que achou engraçado tantas obras diferentes, mas apoiou nossas decisões. Tive que preencher um formulário sobre quem estava no clube, e ela me disse para espalhar a novidade, assim teríamos mais pessoas. Contudo, infelizmente, os jovens ou odiavam literatura, ou já tinham perdido tempo o bastante lendo. Digamos que, na Eugene, não havia coisas muito além dos clubes, então quem tinha tempo livre acabava lendo e com isso, a cota de leitura já era. Um novato como eu – que passaria somente o verão – aceitou fazer parte do clube quando a doutora lhe ofereceu, sei disso, pois o garoto tinha consulta aos sábados pela manhã, e a mulher acabou tocando no assunto e o mesmo aceitou.

Não que fosse extremamente fácil acostumar-se com rotinas, ainda mais tão diferente da sua, porém eu estava habituado. Taehyung não tocou no assunto da briga, apenas me dirigia olhares de puro divertimento, talvez eu tivesse lhe dado aquilo que tanto queria, e a doutora estava certa, ele não foi expulso e os pais não o quiseram de volta.

Era final de tarde, no dia seguinte eu teria o dia todo para mim, e nem sabia muito que fazer. Os garotos disseram-me que havia um pequeno lago na propriedade, mas que teríamos que dar um perdido nas enfermeiras e também em alguns olhares curiosos. Não que fosse proibido, porque basicamente ficava dentro da Eugene, entretanto, as enfermeiras tinham medo que tentássemos suicídio naquele lugar – coisa bizarra, mas tudo era bizarro ali, então tanto faz.

Eu estava cansado, era quase a hora do jantar, meus músculos estavam protestando, pois eu não era acostumado a fazer exercícios, e passei a semana toda praticando. Meu corpo estava jogado em um dos gramados da Eugene, estava abafado do lado de dentro e por isso decidi ficar ali, apenas sentindo o vento tocar minha pele e me libertar daquele calor.

- Vai ficar quanto tempo aí? – ouvi e abri os olhos. Min Yoongi.

- Pretendo ficar tempo o suficiente – voltei a fechar meus olhos.

Não sei se ele foi embora, e também não me importava muito. Estava pensando que seria divertido encontrar com Dawon no dia seguinte, apenas ouvir novidades e claro, seus surtos malucos. Minha saudade estava gritante e fazia somente uma semana. Eu e minha irmã éramos muito ligados, isso se devia ao fato de que, ela largou parte da sua vida somente para me apoiar, e eu não ignorava isso.

- No que está pensando? – sua voz estava próxima e levei um susto.

Min Yoongi estava deitado no gramado, encarando-me de lado, a cabeça apoiada na mão e parecia tentar arrancar algo de mim. Voltei a encarar o céu e pensei em minha irmã.

- Algumas pessoas me disseram que os familiares os deixaram aqui – franzi o cenho – Eu sei que minha família realmente não faria isso, eles me amam e me entendem, largaram tudo apenas para me apoiar.

- Alguns ficam por opção – sorriu pequeno – É o meu caso. Eu não quero sair daqui.

- Posso saber o motivo?

- Lá fora… As pessoas não nos entendem, apenas julgam. No começo era somente difícil, depois passou a ser insuportável. Os olhares julgando, as pessoas cochichando.

- Foi por isso que eu disse – bufei – No colégio faziam o mesmo comigo, me chamavam de retardado por eu ser diferente. Somente minha família entendia, e quando digo família, me refiro a minha mãe, pai e irmã mais velha. De resto, ninguém entendeu quando fui diagnosticado.

- Na Eugene não é tão fácil – deu risada – As pessoas ainda julgam. Veja o exemplo do Taehyung.

- Por favor…

- Sério, apenas escute – encarou-me sério – Ele é um sociopata nível um. Ninguém acredita nele, nem eu acredito nele, porém ele não é uma má pessoa. Ele só tem problemas pra lidar com esse transtorno, ainda mais com os pais tendo medo dele. Qual é… Taehyung é inofensivo, é só uma criança grande que curte pregar peças nas pessoas e mentir. Embora que, a parte de mentir não seja realmente culpa dele, porque o transtorno o faz mentir compulsivamente.

- Está defendendo – arqueei uma sobrancelha.

- Quando ele entrou aqui, tinha quinze anos e nunca mais saiu. Ele nem deve saber o que tem do lado de fora, os pais preferem esquecê-lo aqui até no Natal.

- Como assim?

- Podemos sair no Natal e essas datas comemorativas e capitalistas – revirou os olhos – E ele não saiu nenhuma vez desde que entrou. Quando eu cheguei aqui, ficamos amigos e ele me contou. Taehyung não quer mentir, e ele mente porque assim pode criar um mundo maravilhoso, onde ele é um ser humano normal, com amigos normais. Por isso digo que ele é uma criança.

Fazia sentido. Ainda que isso não me fizesse amá-lo. Alguns transtornos eram mais difíceis que outros, e eu tinha sorte por pelo menos ter minha família. Yoongi não parecia ser uma má pessoa e eu estava curioso sobre o motivo dele estar ali.

- Por que está aqui? – perguntei calmo.

- Eu conheci um cara – sorriu afiado – E fiquei perseguindo-o e brincando com ele. Aquele filho da mãe me beijou, depois eu fiquei interessado e torcendo para que ele me fodesse gostoso, mas ele não entendia nunca. Então eu o matei.

Pisquei umas vinte vezes pra ver se isso clareava minha mente. QUAL O PROBLEMA DAS PESSOAS EM FALAR DA VIDA SEXUAL? Caramba, tudo bem que a parte de matar era mentira, porque vejamos, a doutora me explicou que ali ninguém tinha cometido delitos graves ou tinha um problema que necessitasse de camisa de força, entretanto, o resto podia ser verdade.

- Está mentindo, não está? – deixei meus olhos em fendas.

- O final é mentira – mordeu o lábio e aproximou seu rosto do meu – O resto é verdade, principalmente a parte de que ele não entende.

- O quê?

- Você é muito lerdo – bufou. Impulsionou suas pernas e sentou-se, ajeitando o cabelo com as mãos e suspirando alto – Quando vai começar a dar em cima de mim?

- O quê? – soltei de novo.

- Provavelmente está na hora do jantar – levantou-se e indicou a construção – Vamos, hoje deve ter algo gostoso, espero que tenha comida italiana.

Não é que eu fosse lerdo, o problema é que eu estava perplexo. Minha reação me deixou na mão, literalmente – qual é, se eles podiam fazer piada de cunho sexual, eu também podia. Caminhei até o refeitório em sua companhia e o bizarro foi que, depois de pegar a comida, que para a sorte de Yoongi era italiana, vi seu corpo caminhar e sentar-se na mesa de Taehyung, conversando amigavelmente com o garoto.

O.K.

Fui para a mesa de sempre, sentando-me com os garotos e ouvindo a conversa, sentindo-me alheio. Se Taehyung “maltratava” Yoongi, usando-o para sexo, e praticamente chamando-o de gigolô, por que ele continuava lá? Não fazia sentido pra mim. Na verdade, eu entendi que o garoto tinha um transtorno fodido, mesmo assim não dava pra engolir o sapo de alguém te chamando de fácil ou objeto sexual, e seguir a vida e a amizade como se nada tivesse acontecido. Uma verdade que as pessoas tinham dito: Yoongi e Taehyung tinham um relacionamento bizarro.

- Terra para Hoseok – ouvi meu nome e voltei meu olhar para Jimin – Você está bem? Aconteceu alguma coisa?

- Hã… Nada – dei de ombros – Tudo certo pra amanhã?

- Sua irmã vem? – Jin perguntou feliz – Ela deve ser tão legal quanto você.

- Obrigado – sorri – Ela está ansiosa para conhecê-los também.

Depois disso, a conversa continuou normalmente. Eu terminei de comer e disse que voltaria para o jardim, apenas para passar o tempo e curtir um vento abafado. E assim o fiz, voltei para o mesmo lugar que estava, encarando o céu completamente estrelado.

- Apaixonado? – ouvi a voz grave e tive que gemer – Estou em missão de paz, garoto.

Taehyung estava ali, dizendo algo sobre “missão de paz”. Claro, porque eu acreditava em todas as palavras que saíam de sua boca. Fiz sinal para que continuasse, pois bem, mesmo se dissesse para ele sair, o garoto não faria tal coisa.

- Talvez isso te deixe feliz – sorriu divertido – Yoongi colocou limites na nossa situação.

- E o que isso tem a ver comigo? – perguntei desinteressado.

- Porque ele não quer mais dormir comigo, provavelmente já tem outro alvo em mente, e estou olhando para ele agora – encarou-me e arqueei uma sobrancelha – Não me diga que… – começou a rir alto – Cara, achei que você já tinha transado com ele, sei lá, no primeiro dia.

- Não fale dele assim…

- Mas eu não estou falando de jeito nenhum – revirou os olhos – Você é virgem, não é? Deve ser isso. Está inseguro?

- Qual o problema das pessoas desse lugar e sexo? – disse irritado.

- É um dos poucos meios de passar o tempo – riu baixo – Podemos conversar na boa?

Podíamos mesmo? Dei de ombros como quem dizia não se importar. E Taehyung sentou-se ali, abraçando as pernas e encarando um ponto qualquer. Talvez ele estivesse controlado, tomando medicações, e sim, eu estava sendo esperançoso. Além de maluco e dramático, eu também era trouxa.

- Sinceramente? Eu não me importo de você ter algo com ele – começou calmo e sorrindo – Yoongi não é meu namorado, nós só nos entendemos. Só… Acostume-se com ele. Yoongi não é dono de ninguém e muito menos tem dono, ele curte sacanagem e nada fora disso, e se surgir um novo brinquedo, você será deixado de lado.

- Por que está me dizendo essas coisas? – mordi o lado de dentro da bochecha. Ele estava brincando comigo?

- Só estou avisando – cutucou minha barriga – Não se iluda, nível um.

- Não vou – gemi frustrado – Eu nem tinha pensado em ter algo com ele.

- Acredite – Taehyung levantou-se sorrindo – Você vai ceder. Yoongi vai testar os seus limites até que você finalmente caia na dele. Boa sorte.

E simples assim ele saiu andando. Claro, porque eu tinha me esquecido de onde estava. Um lugar onde só tinha gente com problemas psicológicos. Eu queria só… Deitar na cama e dormir, e pensei mesmo nisso. Talvez fosse bom dormir umas seis horas sem interrupções.

(…)

Estava confortável, porém insuportavelmente quente. Eu estava de bruços, apenas um lençol em meu corpo, assim como uma samba canção cobria minhas partes. Eu podia sentir o suor em minha pele e um vento abafado entrando pela janela. Queria dormir mais, só isso. Que horas eram? Gemi frustrado e estiquei a mão para o criado mudo, querendo pegar o pequeno relógio de plástico e verificar as horas. Nove horas, ótimo, perdi o café da manhã.

Rolei na cama e sentei. Encarando o teto e passando as mãos no rosto. Puxei o lençol de qualquer jeito e levantei, dando de cara com Yoongi, sentado na cama de Jimin. Seus olhos me avaliaram dos pés a cabeça e meu rosto denunciou minha vergonha e também minha confusão.

- O que está fazendo aqui? – perguntei com a voz rouca.

- Gostando do que eu vejo – arqueou uma sobrancelha – Podia ficar ainda melhor, talvez sem a peça de roupa, e eu sem as minhas.

- Eu te fiz uma pergunta…

- E eu respondi – sorriu pequeno – Quando Jimin me disse que você estava dormindo e era com pouca roupa, não consegui me impedir de vir conferir. Uma pena que não somos do mesmo nível, seria ótimo acordar com essa visão.

MAS QUE MERDA… Eu queria socá-lo, gritar com ele, só pra ver se sua cabeça voltava para o lugar. Taehyung não mentiu em uma coisa, Yoongi queria brinquedos, queria se divertir à custa das pessoas, por isso deixava-as usá-lo como bem entendesse, pois no fim, ele fazia o mesmo com elas.

Com uma graciosidade, ele descruzou as pernas, levantando-se e caminhando em minha direção. Sua estatura pouca coisa mais baixa do que a minha, porém o corpo menor, mais magro. Cruzei os braços impaciente e revirei meus olhos. Seu dedo indicador passou por minha clavícula e desceu por meu ombro, passando por meu braço e continuei na mesma posição, com um olhar duro que dizia claramente que não estava brincando, e nem gostando da brincadeira.

- Você me lembra uma bala de caramelo que eu adoraria chupar – seu olhar continha divertimento. – O que me diz?

- Eu te diria – sorri debochado – Vá tomar um banho frio e me deixe em paz.

Dei-lhe as costas e busquei uma camiseta, vestindo-a de qualquer jeito e tentando arrumar meus cabelos. Tinha que arrumar um jeito de comer algo, ou morreria de fome antes do almoço. Peguei uma bermuda e a vesti por cima da samba canção e virei para encontrar Yoongi parado. Ele ainda estava ali?

- O que você quer? – joguei as mãos pra cima.

- Vamos fazer um acordo – ergueu o dedo e ri sem humor – É sério Hoseok.

- Se eu disser que não quero ouvir, você provavelmente vai me infernizar. Apenas cuspa e saia daqui.

- Eu tenho um pacote de cookies – sorriu e fiquei perplexo – O que foi? Eu tenho que jogar com as armas que possuo. Enfim, eu te dou o pacote se me der uma chance.

- Uma chance? – perguntei calmo – O que seria uma chance pra você?

- Que tal um beijo?

- Nem a pau – revirei meus olhos – Isso é quase prostituição por um pacote de cookies. Prefiro passar fome, obrigado.

- Dramático – riu – Vai dizer que não gostou de me beijar…?

- Na verdade foi indiferente – cocei a nuca – Já pedi desculpas por aquilo.

Seu humor divertido – mesmo que fosse provocativo – desapareceu feito fumaça. O semblante mudou drasticamente, dando-me um olhar duro e forte, do qual fiz careta, preparando-me para o pior. Eu tinha mesmo pisado no seu orgulho, no dia seguinte a camisa com meu nome estaria presente novamente.

- Tudo bem – a voz ficou grave e brava. Ele pegou da cama de Jimin e jogou na minha – Pode ficar não dou a mínima.

- Yoongi…

- Foda-se ok? – continuou – Divirta-se com seus amigos. Tenho que achar o Tae.

Se eu não lhe desse o que ele queria, Taehyung o daria. Era bem simples. Por que isso me afetava? Simples novamente, Yoongi era um ser humano, uma pessoa até que legal, e eu não queria vê-lo fazer isso consigo mesmo. Mas eu também não podia apenas beijá-lo pra que ficasse feliz e se gabando de ter me feito ceder por pena. Acho que isso sim faria seu ódio por mim, crescer em proporções estrondosas. Ele saiu do quarto batendo a porta com força, e suspirei querendo voltar pra cama.

(…)

Depois de um banho e de comer o pacote com Cookies, encontrei Jimin e os outros em uma das salas de lazer. Eles jogavam cartas, dando risada que somente NamJoon conseguia vencer, o garoto era um poço de inteligência.

- E aí? – falei calmo.

- Você irritou o Yoongi – foi JungKook que começou – Ele estava distribuindo patadas em todos pelos corredores.

- E alguns minutos atrás – Jimin continuou – Deu pra ouvir os gemidos dele e do Taehyung saindo do banheiro. Parabéns, o casal psicopata continua firme e forte.

- Qual é o nível do Yoongi? – perguntei.

- Você sabe o nível do Yoongi – Jin riu.

- Não – franzi o cenho – Qual o problema dele?

- Ninguém sabe – NamJoon respondeu e fez careta para minha camiseta amarrotada, fechando os olhos e respirando fundo – Só a doutora, e provavelmente Taehyung.

Agora minha curiosidade estava aguçada. Por que ninguém sabia qual o diagnostico dele?

(…)

Depois do almoço, fiquei sentado na escadaria da frente, esperando por Dawon. Depois de uma hora sentado ali, mofando na sombra e esperando que o sol não mudasse de posição me torrando vivo, Jimin apareceu, cutucando-me no ombro.

- Nós vamos até o lago – disse-me feliz e então brincou com uma mecha do meu cabelo – A doutora disse que ligaram da sua casa e me pediu para avisar.

- Ela não vem não é? – ri baixo – Tudo bem.

- Não sei o que houve – sorriu triste – Talvez ela venha no próximo domingo.

- Ainda podemos ir até o lago.

Voltamos para o quarto e peguei uma roupa mais confortável. Jimin pegou suas coisas e descemos conversando. Os outros estavam do lado de fora, e nos esgueiramos pelo jardim, passando por alguns arbustos e andando pelo pequeno bosque atrás da Eugene. O lugar era legal, cheio de arvores, o lago cercado de algumas pedras lisas e grandes. Tirei a camiseta e tive que ouvir uma missa de Jimin, falando sobre protetor solar e fiquei parado enquanto ele besuntava minhas costas. JungKook não se importou, apenas ria das minhas caras e bocas por sentir o negocio pegajoso sendo passado em minhas costas. NADA AGRADÁVEL.

Estava calor, muito mais que calor, podia jurar que se jogasse um ovo em uma das pedras iria fritar, e com isso, joguei-me na água fria, sentindo meus pelos eriçados. Nadei alguns metros e esperei o resto, Jin empurrou NamJoon sem cerimônia, e jogou-se em seguida. Jimin deu uma de sereia, dando um mergulho estilo “estou te seduzindo”, surgindo da água com uma pose sexy e quase pedindo por uma câmera lenta. Comecei a rir alto, sendo acompanhado. O mais engraçado foi que, JungKook estava sem moletom, vestindo uma malha escura e entrou na água respirando fundo. Pobre garoto.

Ficamos boas horas jogando água um no outro, brincando e conversando. Eles decidiram sair e comer algo, e fiquei boiando, de olhos fechados. O sol aquecia minha pele molhada e o silencio era confortável. Eu tinha problemas de mais para lidar, não precisava me envolver com Yoongi  ou Taehyung, se eles queriam brincar e fazer coisas em banheiros, por mim…

Algumas ondas foram feitas na água e eu sabia que alguém tinha entrado de novo. Voltei a nadar novamente, encarando um garoto extremamente pálido e com os cabelos molhados. Porra… P-O-R-R-A. Eu sabia falar esse palavrão em outras línguas? Yoongi usava uma camiseta listrada de mangas longas, o cabelo jogado pra trás e a pele translúcida. Ele podia ser modelo se quisesse.

- Está babando – disse-me sem humor.

- Não estou – rebati.

- Ficou com vontade depois de me dar um fora?

- Olha – suspirei – Eu sinto muito que você tenha se sentido mal, mas sabe… As pessoas podem dizer não. E o que está fazendo aqui?

- Quem será que descobriu o lago? – arqueou uma sobrancelha.

- Qual a graça de se oferecer para um e terminar com outro? – soltei e fechei os olhos – Desculpe perguntar assim, só estou tentando entender, e não ser babaca.

- Já está sendo – continuou no mesmo tom de voz – E qual a graça de beijar alguém e depois se fazer de puritano? Desculpe perguntar assim, só estou tentando entender, e não ser babaca.

Ótimo. Agora ele ia ficar jogando as coisas na minha cara. Desisti de ficar ali, não daria em nada, quero dizer, nós provavelmente brigaríamos.

- Você é um babaca – sussurrei.

- E você além de babaca é prepotente – cuspiu pra mim.

- Olha quem fala – respondi sarcástico – Me tratando como seu brinquedo, querendo que eu faça algo que não quero.

- Se quisesse não teria feito.

- Desisto – encarei-o – Eu desisto mesmo de tentar te entender.

- Vai chorar por isso? – sorriu debochado – Deixe-me adivinhar, não vai se envolver porque eu não quero ser seu namoradinho.

- Na verdade – parei e fiz uma cara bem óbvia – Eu nunca cogitei isso, deve ser porque é impossível de você amar alguém. E isso envolve a si mesmo.

Peguei pesado. Arregalei meus olhos e comecei a me desculpar, dizendo-lhe que eu era um idiota e tinha dito aquilo na louca, apenas por raiva. Yoongi continuava com a mesma expressão, os olhos não denunciavam nada, e aquilo me assustou. E se, sei lá, se ele tentasse algo? Ou eu piorasse seu quadro clinico.

- Tem razão. – foi tudo que disse e nadou até a borda.

Eu nadei atrás e vi quando ele juntou suas coisas perto de onde os garotos comiam. Continuou andando por entre as arvores e dei um olhar para Jimin que questionava o que havia acontecido. Segui o garoto e o alcancei, mesmo o terreno sendo irregular, não havia pedras e agradeci mentalmente. Segurei seu pulso e ele xingou alto.

- Eu sinto muito – falei convicto.

- Pelo quê? – voltou-se pra mim e seu rosto estava molhado, no entanto, desta vez por lágrimas – Por eu ser um fodido? Por ter lhe oferecido sexo? Ou por eu ter tido interesse? Ou talvez… Por eu ser eu – riu sem humor – Tem razão, não serei seu namorado, não vou te idolatrar como uma garotinha idiota. Não vou mandar cartinhas de amor e nem serei engraçado, não contarei piadas e nem direi coisas legais. Porque eu não vou te amar, então sim, você tem razão. Agora me solta, vou fazer o que me pediu.

- Que seria? – sussurrei.

- Te deixar em paz – sorriu – Parabéns, você conseguiu.

(…)

Ele não usou a camiseta na segunda. Nem na terça. Ele fingiu que eu não existia. Conversei com Jimin sobre isso, inclusive conversei até mesmo com a doutora. Claro que a mulher não me contou sobre Yoongi. Fiquei irritado por isso, mesmo assim não me deixei abalar. Fiz minha rotina normalmente, até liguei para Dawon e conversamos sobre ela não ter vindo. Digamos que ela estava interessada em alguém, e esse alguém pela primeira vez a chamou pra sair e disse que só podia no domingo. Minha mãe a infernizou por isso, dizendo-lhe para ir que eu entenderia. E eu entendia muito bem, fiquei feliz pela minha irmã, por ela estar vivendo e não vivendo em minha função.

Na quarta ele continuou agindo daquela forma, até quando bati em seu corpo com o meu sem querer e virei para me desculpar, Yoongi somente ignorou. Quinta foi estranha, eu acordei de madrugada e disse para a enfermeira que precisava ir até o banheiro lavar o rosto. A mulher permitiu e quando estava indo, ouvi barulhos dentro da sala de lazer, a porta estava entreaberta e espiei por ali. Yoongi estava aos beijos com Taehyung entre suas pernas, e aquilo fez meu estômago dar uma revirada. Seus olhos pararam em mim e arregalei os meus, sendo ignorado algum tempo depois.

Na sexta eu estava irritado. Acordei de um pesadelo e não dormi mais. Nem a comida me deixava feliz, e quando alguém dizia algo fazendo piada, eu logo perdia a paciência. Estava sendo babaca e sabia disso. Preferi ficar sozinho o dia todo, e seria melhor, pois tinha que me preparar para encontrar Yoongi no clube do livro.

E lá estava ele, me ignorando, ou respondendo de modo monossilábico. Usei o restante da minha paciência e tentei não focar que surtaria em algum momento. Fiquei quieto, sem falar quase nada, enquanto ele conduzia a discussão sobre o primeiro livro – do qual todos ali foram obrigados a ler no primeiro ano do Ensino Médio.

Quando terminou eu dei graças a Deus, não agüentava mais ficar preso. Saí de lá quase correndo e abri as portas duplas, sentindo o vento e respirando fundo. Parei em uma pilastra e deixei minha testa no concreto gelado, era gostoso. Ouvi um pigarrear e virei. Min Yoongi.

- Agora não – disse sem emoção.

- Só quero saber se está bem – revirou os olhos – Não seria legal você surtar e ter que ser sedado.

- Estou ótimo – sorri afiado – Tudo ótimo. Infinitamente ótimo.

- Dá pra ver…

- Apenas saia. – engoli em seco. – Sério.

- Faça alguma coisa… Vá correr, ou nadar, sei lá. Precisa liberar isso de algum modo, talvez ouvir punk rock, ou pintar algum quadro escroto com raiva.

- EU FALEI AGORA NÃO – avisei.

- Estou falando sério, idiota! – rebateu irritado – Faça algo ou vai surtar.

- Foi divertido? – ri debochado – Foi engraçado me ver do outro lado da porta enquanto fazia aquilo?

- Está com ciúmes?

- Não – parei em sua frente encarando seus olhos – Só quero entender os motivos. Por que eu? Por que fazer isso comigo? Eu não fiz nada pra você.

- Porque você é você – respondeu simplista –Eu sou uma criança mimada, e eu quero você, por isso.

- Já pensou que isso pode me magoar?

- Não – suspirou – Embora parando pra pensar nisso agora, realmente é possível. Você ainda é virgem, vai acabar apaixonado ou achando que sou seu ideal.

- Eu tenho pena de você, Yoongi – comecei triste e calmo – Pode me odiar por isso, mas você é tão quebrado por dentro que eu sei que na verdade, você só quer fingir que alguém te ama ou se interessa por você. Não sou eu que vou me magoar, eu poderia até acabar apaixonado se você só falasse algo fora as provocações, o problema é que você tem medo de se apaixonar, de acabar magoado. Então responda a minha pergunta. Acertei ou não?

Seus olhos estavam marejados, ele estava estático no mesmo lugar, encarando-me com certa raiva. Se Yoongi deixasse as barreiras de lado, eu tinha certeza que teria milhares de amigos ao seu redor, amando-o e cuidando para que fosse feliz. Contudo, ele tinha feito de propósito, afastado todas as pessoas, porque tinha medo de se magoar. Seu problema era pior do que eu imaginava – pelo menos ele não era sociopata.

- E o que vai fazer sobre isso? – sussurrou levemente irritado.

- Eu não vou ser o Taehyung e te usar – sorri triste – Eu também me sentiria usado, e me faria mal. Não vou entrar nessa, porque não seria eu mesmo. Mas… Vou tornar sua vida divertida aqui.

- Sério? – sorriu em meio às lágrimas.

- Prepare-se para as provocações – dei risada – Vamos ver até onde você agüenta, Min Yoongi.

Viver não dói

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana, que gerou
em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. 

O sofrimento é opcional.


Carlos Drummond de Andrade.

Ai! Que vale a vingança, pobre amigo,
Se na vingança a honra não se lava?…
O sangue é rubro, a virgindade é branca —
O sangue aumenta da vergonha a bava.

“ Se nós fomos somente desgraçados,
Para que miseráveis nos fazermos?
Deportados da terra assim perdemos
De além da campa as regiões sem termos…


“Ai! Não manches no crime a tua vida,
Meu irmão, meu amigo, meu esposo!…
Seria negro o amor de uma perdida
Nos braços a sorrir de um criminoso!…

—  Castro Alves, anjo.