clássico

Eu não sou legal, não mesmo. Acho que sempre tenho razão e quando minhas previsões dão certo olho com a cara mais abominável do mundo, dou um sorriso irônico e falo o clássico eu-te-avisei. É que, em geral, eu tenho razão. Essa é a primeira –e mais importante – coisa que você precisa aprender a meu respeito. (…) Não sei receber elogios, fico sem saber o que fazer, me atrapalho e acabo trocando de assunto – quando não troco as pernas e tropeço em algum canto de mim. Sorrio para disfarçar desconfortos. Se eu não gosto de você é bem provável que você tenha medo do meu olhar. E eu posso simplesmente não gostar de você de graça. Se eu gostar de você aviso de antemão que você é uma pessoa de sorte. Eu me entrego. Quem vive comigo sabe. Quem convive comigo sente. Eu amo poucos. Mas esses poucos, pode apostar, amo muito.
—  Clarissa Corrêa.
Dear J, hoje senti uma falta incalculável de você. Talvez ela se estenda por toda a América, ainda não decidi. J, pergunto-me como posso sentir falta de alguém que sempre mostrou o meu pior lado, que nunca sequer tentou compreender a dimensão em que minha mente vive, sempre deixei claro, sou completamente louca e problemática. Meus problemas sempre demonstraram o quão conturbada minha mente pode ser. Não se vanglorie querido, senti sua falta não falta da sua presença em minha vida. Ter você em minha vida era um alívio, eu poderia saber que a qualquer momento poderia desistir e tudo ficaria bem. Você sempre me atormentava: “desistir é o melhor remédio para seus problemas darling, vamos, tome mais um comprimido, tudo ficará bem. Estarei aqui quando acontecer.” E assim se foram incontáveis anos submersa em minha mente. J, porque todos temos que ser sempre tão fortes? Ou porque temos que fingir que somos? Ou sorrir para Deus e o mundo? Porque o mundo tem que ser tão maléfico assim? Porque? Você nunca se propôs a responder uma pergunta minha, sempre frio demais. Incompreensível como diriam. Eu te amei enquanto não era mais eu. E depois que você se foi, mesmo assim não pude me recuperar. J, eu era uma garota doce, não via a maldade do mundo. Você se lembra? Eu adorava olhar o pôr-do-sol todos os dias, filmes eram o melhor hobbie que eu tinha, e então você chegou, eu adorava dormir com comprimidos de baixo do travesseiro e escutar os pássaros cantando ao amanhecer quando ia dormir, haviam mais garrafas de vodca escondidas atrás do guarda-roupa do que eu imaginária. Você chegou, e a confusão se alastrou em minha vida. Me tornei o clichê clássico. Effie de Skins ou qualquer algo parecido com isso. E mesmo depois da sua partida, eu ainda estou quebrada. Com certeza você estava certo: “você nunca mais será a mesma, mesmo que eu vá embora”. Maldito, prepotente, desgraçado, você falará a verdade e eu como uma tola desacreditei. Eu tentei parar de entender o porquê você chegou e marcou minha vida. Eu só quero tentar entender quem sou e como vou viver do jeito que sou. Porque assim que eu sou. Desconfiada, com medo de todos os cantos do planeta, ansiosa e com fobia de entregar meu coração ao maluco que me aceite assim. Logo após sua partida, eu tive uma falsa esperança, eu fiquei bem por alguns meses e logo desmoronei, eu perdi minha vida, meus amigos e a mim mesma enquanto te tinha agarrado em mim. Mas que merda, porque eu tive que te convidar para entrar? A verdade, é que ninguém entende e muito menos eu. Só desejo me remontar novamente, colocar cada peça do quebra-cabeças no lugar certo e tentar viver. É o que desejo respirar e ser feliz mesmo depois de toda essa merda que você fez na minha vida J. Eu não desejo ninguém como você na vida de ninguém, porque eu sei como desgastante e dilacerante você pode ser. Eu te aguentei por cinco anos, e você às vezes ainda habita em mim. Nos momentos de solidão e tristeza. Uma faísca por mínima que seja, te convida para entrar mesmo que eu não tenha dado autorização. Uma palavra maldita que seja, te acolhe e você mora em mim por mais algum tempo e logo fico bem e sorridente de novo. Compreenda é um ciclo vicioso, eu já entendi você estava certo J, jamais serei feliz por mais que tenha essa esperança dentro de mim. Eu te amei como irmã, melhor amiga, fiel companheira e você só me destruiu. É o conceito de masoquismo nas relações que falam por aí, você estava certo não existirá uma pessoa que me aguente nessa Terra e sempre seremos nós J, você habitou completamente minha alma então faça bom proveito.
—  Anna Paula Varella.
Eu não sou legal, não mesmo. Acho que sempre tenho razão e quando minhas previsões dão certo olho com a cara mais abominável do mundo, dou um sorriso irônico e falo o clássico “eu te avisei.” É que, em geral, eu tenho razão. Essa é a primeira –e mais importante – coisa que você precisa aprender a meu respeito.
—  Clarissa Corrêa
Viver não dói

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana, que gerou
em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. 

O sofrimento é opcional.


Carlos Drummond de Andrade.