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A eternidade se faz no instante, a ausência se declara no momento, o desamor rompe o apego e a morte se dá pela vida.
Tudo que existe parte do pressuposto contrário, pelo seu mais tênue desígnio paradoxal. A luz só preenche algo anteriormente escuro, assim como o vazio te corrói após algo destruir teu conteúdo. E é assim que a vida caminha: a saudade abraça a amargura, a tristeza beija o desapego, o desamor conquista a mentira, o adeus desata o carinho e com isso eu deixo você. Te deixo porque na eternidade eu senti a saudade, na tua ausência senti a tristeza, no desamor senti a angústia e em minha vida te digo adeus, pois você é o meu desígnio paradoxal, meu mais doce objetivo inalcançado, uma vez que tudo que entra na minha vida tem a possibilidade de deixá-la também.
—  Gabriel Malaquias
Três furacões me sacudiram, mas só um conseguiu me levar.
 
       Onze horas da noite, a última ponta do cigarro caía ao chão enquanto eu tentava levantar de mim mesmo. Nada estava claro, escuridão absoluta. Tormenta, desassossego, mas quietude. Tudo parecia calmo de maneira desastrosa. Era como o ar isóbare: pressão constante, sem absolutamente nada que o fizesse mudar. Os carros passavam na rua, os cachorros latiam, os gatos dormiam e as pessoas seguiam suas rotinas enquanto minha vida era o cigarro e parecia queimar até o fim. E em meio à carnificina social, meu canibalismo de emoções contaminava e remoía todo o meu vago interior, que por ser cheio de ausência, pressionava e corroía meu peito, o qual ora contraía, ora relaxava. E com isso, eis que veio me devastar o primeiro furacão: ansiedade social, vazio e putrefação emocional. Uma catástrofe que me derrubava sempre. Tudo era pesado demais para aguentar.
        Acordei. Bebi meu café mal-feito, tomei meu banho de cinco minutos e voltei à robótica rotina de todo ser socialmente inserido. A cada passo largo, um curto pensamento. Milhões de coisas a cada segundo amassavam meu cérebro que, cansado de coordenar o coração já maltratado pelo meticuloso primeiro tornado, ainda tinha de aguentar cada vil absurdo que o rodeava. Falo em terceira pessoa pois não já não o controlo mais. “Quem sou eu, afinal?”;  eis o fim de todas as perguntas avassaladoras, o grand finale que me apunhalava e me jogava ao desconforto da cama todas as noites. Nove horas da manhã e eu não sabia o que fazer, como sempre. Seguia o roteiro dado pelos outros, faltava-me empatia por tudo, prazer por todos e necessidade por mim. Eu não existia, porque eu não queria existir. Todas as perguntas que sempre se caminhavam à desgraça da dúvida eterna que afaga o existencialismo desdenhavam meu questionamento eterno. Meu propósito inexistente. E eis que o estrondoso segundo furacão vinha… destrutivo, colossal, mas nada contemplável: a dúvida. Não saber quem é e para que serve com certeza é uma catástrofe temível. E me sacudia, jogava-me, desmontava-me por completo. Eu estava exausto, seria – graças ao destino ou ao plano espiritual – meu fim?
       Sete horas da noite do próximo dia, tudo mudara no instante perfeito em que eu contemplara o sol metafórico. Eis um paradoxo: a noite me trazia a luz. Natural, bela, inconcebível. Cegava-me, mas o vício em olhar para tanta luz e boa energia fazia com que meus sentidos já não fossem tão necessários. Ela era arte: a verdadeira expressão da natureza. Sublime, audaciosa. De dia era névoa, como quem não queria nada, mas à medida que a luz do mundo caía, sua luz interior se manifestava, até exaurir. Ela me sacudiu, jogou-me às profundezas. Fez-me analisar, portanto, que o vazio existencial habitante de meu seio era somente uma casa vaga, esperando um hóspede. "Ai! Pobre coração! […] É que nem mesmo o oceano inteiro, poderia te encher.“ dizia Castro Alves. E foi aí que eu me enganei: era diferente. Eu era ansioso para me encaixar em algo, para conseguir nadar até as profundezas do meu eu e cessar todas as minhas dúvidas. Porém eu não era oceano, eu era ar. E não há nada que se possa fazer quando se é apenas ar e um furacão se ergue. O ar logo se transforma em vento, à medida que o furacão se aproxima. E te sopra, para bem longe, caso seja meticuloso. Ou te puxa para o centro, bem para o olho do tornado, para o meio de toda a barbárie emocional, como foi dessa vez com o terceiro furacão: seu sorriso. Seu maldito sorriso.
—  Gabriel Malaquias
Em vida, nada ao homem é certo. Não há certeza única na caminhada percorrida às suas respostas inconscientes, pois sua alma é pobre em essência. Nada a ele pertence realmente, uma vez que até a morte – sua fiel companheira – o trai no fim, roubando-lhe vida.
—  Gabriel Malaquias
Sempre fui um bom leitor, aquele tipo de pessoa que gosta de ler tudo, desde Crime e Castigo do grandíssimo Dostoiévski a lábios de pessoas estranhas conversando entre si no meio da rua. Não por curiosidade extrema ou falta do que fazer, é que sempre fui detalhista demais, entende? Por motivos complexos eu sempre gostei de analisar as coisas e imaginar que o mundo seja a literatura em si, o berço de todas as ideias que fazem do homem criativo e magnífico. Mas eu não estou aqui para fazer uma comparação do que entendemos por mundo com  nossa magnífica literatura, muito menos falar sobre meu aspecto detalhista em analisar pessoas, é que sempre tive o péssimo hábito de enrolar, de fazer círculos em torno de um assunto para, no final, dizê-lo, e isso sempre me causou problemas. O que eu quero dizer desde o começo é que eu gosto de ler pessoas. Gosto de tentar entendê-las, imaginar o que elas imaginam, pensar o que elas pensam, sentir o gosto do que elas gostam ou estão a saborear, – mesmo que seja fruto da minha imaginação – e isso me vem acontecendo com uma pessoa em especial, e por mais clichê que seja, é com a pessoa que amo. E como tudo no mundo é literário, podendo ser decodificado, pois todas as coisas servem de inspiração e talvez virem histórias, sejam elas de ninar ou contos de guerra que atravessam gerações, minha relação com ela também foi, também é e também será. Talvez um livro mal contado, mal escrito, sem inspiração e tão gélido quanto o Polo Norte, mas não deixa de ser literatura, não deixa de cativar aquele que busca extravasar o limiar da vida cotidiana pra viver histórias diferentes. A garota, que não é a protagonista da história, muito menos a coadjuvante, foi o meu romance de outono, mas que pareceu durar as quatro estações por causar as quatro estações em meu interior, e ultimamente eu vivo o inverno. Vivo a decepção amorosa, por saborear o desespero da curiosidade ao ler aquela garota, ao contemplá-la e buscar inseri-la em minha vida. Vivo o inverno por ter sido ingênuo demais em acreditar que a arte é sempre bela, que o amor, por ser tão magnífico na literatura, seria capaz de me revigorar e me dar forças para aguentar o resto. Me enganei. Não haviam restos para se aguentar, pois os mesmos haviam sido destroçados por tudo aquilo que a nova história que eu havia começado me causou. Minha vida havia se tornado uma anáfora decepcionante, uma repetição de tristezas que me derrubavam e pareciam não ter fim. Era o fim da minha peculiaridade em transformar pequenas coisas em arte, dentro de minha mente. Ela havia me enganado, e eu estava no chão da vida. Estava arruinado como um bêbado que foi despachado por sua esposa. O mundo já não parecia mais belo como antes, estava cheio de prédios cinzentos, de fumaça de carros e pessoas frias andando pelas ruas. Eu  havia caído na realidade, tudo por conta de uma mulher que eu havia conhecido no outono e me causara um inverno interior. Mas foi aí que eu acordei: a vida é sim, literatura. A questão é que não somos nós os escritores de verdade, apenas guiamos o rumo de sua história, e quando esta chega ao fim, a vida nos dá a capacidade de criar novas histórias após o término de outras, assim como o inverno congela o nosso interior para que nos preparemos para a chegada da primavera, pro resplandecer de um novo ano, de uma nova estação, de uma nova história, de uma nova vida.
—  Gabriel Malaquias
apago e escrevo,
escrevo e apago.
vida de poeta é assim,
porque poeta também é humano.
dos que mais sofrem,
mas é.
escreve e apaga,
vive e não vive,
escolhe ou mantém,
duvida ou aponta
e navega sem receios
sabendo que a vida,
apesar de um belo oceano
azul feito o céu com gaivotas
tem lá suas tempestades e marés altas,
e que mesmo assim,
é o infinito do mar que encanta
nossos pobres olhos.
—  Gabriel Malaquias
Vou construir um edifício no meio do seu deserto
Pra ver se chego perto de ter sua atenção
Vou enfeitar seu jardim com rosas vermelhas
Vou regar com lágrimas de sangue sem tua atenção
Eu tô pintando a sua cara
Em cada rosto por esse universo
Pra te fazer estar perto em qualquer situação
Eu tô te vendo em todo mundo
Acho mesmo que eu tô ficando cega
Pode me chamar de louca
Mas isso me faz bem
Ouvi tua voz,
Te vi chegar
Eu te abracei sem te tocar
Eu tô ficando louca
Mas isso me faz bem!
—  Deserto.
Às vezes nos deparamos com buracos enormes no meio da nossa caminhada. Buracos tão grandes que nos obrigam a seguir na contra-mão. Esses abismos nos fazem pensar o quão insignificantes nós somos perante às catástrofes que a vida nos impõe. Só que além de insignificante – tão insignificante que nem controlar meus próprios pensamentos consigo –, também consigo ser extremamente covarde e desamparado. Não que isso seja um drama excessivo (eu acho), é que é complicado ter que seguir em frente, como dizem as pessoas, quando as suas pernas são pequenas demais para saltar grandes obstáculos. Às vezes penso que eu sou o meu próprio abismo. Que eu sou a causa do meu próprio naufrágio, e creio que, paulatinamente, isso aconteça com a maioria das pessoas. É, eu não sou um caso à parte. Aliás, ninguém é. Estar vazio não é ser diferente de ninguém, até porque eu não tenho nada em que eu possa me diferenciar dos demais, muito menos ser igual a eles. E esse vazio me faz pensar qual o propósito da vida, qual o objetivo em acordar todos os dias de uma noite mal-dormida esperando que a próxima chegue, por saber que o dia será novamente chato, monótono e desagradável – ao ponto de me tornar escrúpulo. E sei que logo mais estarei novamente deitado. Estarei novamente pensando excessivamente sem objetivo algum, tornando – de novo – este texto a minha realidade (ou ilusão) de que eu sou o meu próprio buraco. E passo a pensar que comecei a vida com o pé esquerdo, pois a mesma me obrigou quando o direito já estava afundando. E com isso, venho a duvidar de que tudo não passa de uma ilusão, e que esse abismo que a vida colocou é fruto da minha imaginação fértil. Pois é, posso até concordar que esse tal abismo é ilusão da minha cabeça. Mas o que fazer quando a própria vida também é?
—  Gabriel Malaquias
Disse o poeta que não aprendeu a viver. Ora, o que é viver senão aprender a cada dia? A vida é uma leitura constante a qual virar a página é uma questão de obrigação, todavia, entender o que está escrito nela, isso se chama sabedoria.
—  Gabriel Malaquias
É morte rápida ou
Fartura de sofrimento.

Amar é não ter mais a sanidade
Por viver só de ternura.
É a falsa-liberdade
Que sempre nos procura,
Para que morramos de saudade
Ou agonizemos na loucura.
—  Gabriel Malaquias
se estou bem?
esta é a pergunta que me fazem
todo santo dia.
estou vivo — os respondo.
vivinho da silva, pra ser mais direto.
e isso basta, e me revigora
porque viver já é muita coisa.
o que querem de mim?
e vivo de novo, mas não como antes
pois eu vivo a rima contida
noutra rima encarcerada;
e sempre acordo em vida nova!
é que eu vivo porque sei.
tem questionário para isso?
—  Gabriel Malaquias
Acordei sem nenhuma rima ou combinação. Hoje levantei da cama com a mesma monotonia de antes. O excesso de poética que antes habitara em mim, sumiu de minha alma. É por isso que hoje não faço poesia. Não as escrevo hoje, por faltarem versos em meu cotidiano. É preferível a prosa, pois nessa madrugada árdua e insípida, a continuação das frases nas linhas de texto é a mesma que a da minha ausência. Não que seja um incômodo, essa indisposição já é fiel em minha vida. Acredito que volta e meia, todos as pessoas sentem isso. Essa falta de poesia. Essa falta de vivência.
—  Gabriel Malaquias
A estupidez humana está na hipocrisia. O ato de ser pseudomoralista é a maior prova de ignorância no mundo, pois além de mentir aos outros, também engana a si próprio.
—  Gabriel Malaquias
vá se foder!
mas de um jeito bem poético;
com uma maldade rimada
e uma desgraça bem bonita.
então se foda, por favor
e suma de minha vida!
por poesia ou prosa
que acabe em ponto final;
pois todo livro tem sua história
e por mais romântica
que seja,
um dia chega ao fim.
—  Gabriel Malaquias
novo ano
de uma vida velha.
cheia de graça
seja tua vida:
de cachaça
desgraça
como toda medida
de contentar-se com um ano
e desvalorizar toda a vida.
—  Gabriel Malaquias
não peço esmolas.
amor é coisa grande
que cabe em minúscula matéria.
não sou mendigo de amor,
tampouco chego a ser degenerado;
sou poema amargurado
num tal panfleto de dor.
só cuido do que é meu,
sem que se torne cousa
tão pequena
ao ponto de virar teu.
e da vida faço lousa
ou pequeno pedaço de papel!
saio escrevendo tudo feito arte,
até que a mesma me faça réu
e me condene em maior parte
por amar tão pouco o mel,
da vida doce-amarga-doce
que ora é abismo, ora vira céu.
—  Gabriel Malaquias
Venha me ver, visite-me qualquer dia. Faça-me pensar que a bagunça em minha cama foi você que fez pela noite. Faça-me acreditar que a sujeira esbranquiçada na calça é de você sabe o quê, e não de mofo. Por favor, faça isso. Conte-me histórias de como nós éramos felizes juntos em meus pensamentos. Invada a minha vida, faça-me crer que recordar o que nunca existiu é viver uma história a ser partilhada. Ame-me de maneira que eu possa acreditar que o futuro nunca morre, sendo que o meu passado, quem sabe, ainda esteja sendo cons(des)truído. E bagunce novamente os lençóis, e faça valer a pena. É que eu já cansei de ver o meu interior bagunçado. Eu cansei de sonhar, de viver, de pensar em você. Agora eu quero viver você. Quero viver com você, quero que você bagunce a minha vida, sabendo que na próxima manhã, sou eu quem bagunça a sua.
—  Gabriel Malaquias