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ENTREVISTA: SADY BABY

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No dia 25 de fevereiro de 2013, o cineasta Sady Baby e sua namorada Patrícia (que ele conheceu quando ela tinha 13 anos) foram presos em uma barreira da Polícia Federal em Caxias do Sul, cidade onde resido. Acusado de estelionato, Sady portava documentos falsos de um morador do Paraná. Ele estava desaparecido desde 2008, quando era procurado pela Polícia Federal sob a acusação de ter contratado uma atriz menor de idade que supostamente seria sua filha para seu último filme, A Filha do Diretor. Ele também finalizava o longa Tesão dos Crentes. Na época correu a notícia de que Sady teria se suicidado saltando da ponte do Rio Uruguai.

Sady Baby, nome artístico de Sady Plauth, não foi apenas um ator e cineasta maldito que despontou na época de decadência da Boca do Lixo, quando pipocavam produções de baixo orçamento cujo único tema era o sexo explícito. Sady é um polêmico visionário da putaria e, de alguma forma torta, uma expressão do Brasil profundo. Explico citando a Lei do Cascão, uma fala de seu personagem no filme Ônibus da Suruba: “Trabalhar é pra otário e, se esse país é uma foda, então vamos foder”. O Ônibus, inclusive, teve uma sequência e deu nome ao espetáculo de sexo explícito com o qual Sady e um grupo de atores percorreu o estado do Rio Grande do Sul.

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Resenha - O Jornal

Dirigido por Ron Howard, cineastra conhecido por sucessos de bilheteria como O Grinch e O Código Da Vinci, a comédia dramática O Jornal (1994) retrata o cotidiano agitado da redação do New York Sun, periódico nova iorquino de caráter sensacionalista onde Henry Hackett, interpretado por Michael Keaton, trabalha como editor e investe a maior parte de seu tempo, mesmo com sua esposa, Martha, protagonizada pela charmosa Marisa Tomei, estar prestes a dar à luz. Para quem quer conhecer mais sobre o funcionamento de um jornal e o dia a dia de um profissional na área, a obra cinematográfica é, sem dúvidas, um prato cheio. Expondo reuniões de pauta, conceitos de noticiabilidade e valor-notícia, impacto da notícia sobre o público e princípios de moral e ética, a obra mostra desde a pressão do deadline à pressão sofrida por aquilo que é publicado.

Nos primeiros dos 112 minutos de filme, dois jovens negros, atraídos por uma música alta, se deparam com corpos de magnatas brancos dentro de um carro pichado com diversos insultos raciais; alguém que passava pelo local avistou um dos jovens curiosos com a arma do crime em mãos que, logo em seguida, seriam capturados como suspeitos do assassinato. No dia seguinte, todos os jornais, com exceção do New York Sun, estampavam a prisão dos rapazes. De agora em diante, o pequeno tablóide de Nova Iorque adotara como incumbência compensar o descuido na futura edição.

Enquanto isso, Henry Hackett se encontrara em uma sinuca de bico: de um lado, uma proposta para o conceituado jornal New York Sentinel, onde receberia um bom salário e contaria com mais tempo para sua família; do outro, as longas jornadas de trabalho mal remunerado e o descontentamento de sua esposa, mas um amor quase incondicional. Neste instante, o filme retrata bem os maiores murmúrios mencionados por profissionais de comunicação: salário baixo, exaustivas horas de serviço e a juntura entre família e trabalho. Há quem diga que o diretor adotara uma posição ultrapassada e radical dos conceitos de jornalista, mas se faz necessário observar que, provavelmente, a reivindicação passaria despercebida se o cineastra não tivesse exaltado tal estereótipo. O fascínio pela correria e movimento falou mais alto e, contrariando Martha, Henry vestiu a camisa do New York Sun, aproveitando para espiar a manchete do concorrente durante a entrevista de emprego.

O filme exibe outra situação cotidiana na rotina jornalística, a concorrência, existente não só de um jornal para o outro, mas presentes até entre pessoas de um mesmo veículo. Agora Hackett possuía o furo perfeito para o periódico se redimir, mas isso não simplificaria a situação, pois Alícia Clark, diretora vivida por Glenn Close, propusera uma manchete do acidente de metrô, enquanto ele atiçara seu desejo por uma nova informação sobre o caso dos jovens negros após um de seus colegas de trabalho comentar sobre uma “prisão de fachada” que ouvira sem querer de um dos policiais pelo rádio.

Alícia aceita ilustrar o atentado na primeira página, desde que a notícia seja publicada com o título de “Agarrados!”, apontando os jovens como culpados. A diretora, ao ser questionada sobre a veracidade da nota, comenta: “Hoje os acusamos, amanhã os elogiamos”; e acaba colocando em dúvida sua ética, pois diz não se importar se os acusados irão passar o resto de suas vidas sendo vítimas de uma postagem sem qualquer precisão, caso esteja faturando. O script claramente faz uma crítica ao sistema capitalista aderido pela indústria da comunicação. Gravado na década de 90, O Jornal mostra que grande parte da mídia busca mostrar apenas um lado da história, o que menos lhes ocupa tempo e mais gera lucro, sem buscar desfazer preceitos e preconceitos arraigados na sociedade, deixando uma lição válida até os dias de hoje. Somente se Henry encontrasse provas da inocência dos garotos a capa “Não foram eles” seria publicada. O jornalista agora iniciara uma corrida contra o tempo. Ao final do dia, o jornal seria impresso com a manchete que estivesse concluída no menor prazo.

Apesar do enfoque da trama se encontrar no personagem de Henry Hackett, paralelamente as buscas do editor, sua mulher e seu chefe, Bernie White  - interpretado pelo premiado ator Robert Duvall -, também passam por conturbações na vida pessoal. Martha teme arruinar seu futuro profissional por conta da maternidade, e o chefe, já com problemas de saúde, percebe a distância existente entre ele e a filha, e novamente, dita decorrente da profissão. Já Michael McDougal, colunista que adora retratar críticas e denúncias, enfrenta o temor de porventura tentarem assassiná-lo por expor suas opiniões. A situação é apresentada com bastante bom humor, mesmo se tratando de uma trágica posição enfrentada por milhares de jornalistas.

Henry conta com o auxilio dos repórteres do jornal e de sua mulher, também jornalista, para solucionar o caso. Com a junção dos vestígios, descobre que o assassinato dos dois empresários fora causado pelo dono de uma frota de veículos contrabandeados; porém, de nada adiantaria as informações sem um álibi. O jornalista consegue o testemunho de um contato policial de McDougal que, apesar de não autorizar a entrada do seu nome na noticia e demandar uma grande pressão, admitiu que os jovens foram acusados injustamente.

O enredo estaria terminado, se a capa “Agarrados” de Alícia já não estivesse sendo impressa. Os dois brigam, pois a editora-chefe, mesmo sabendo do erro, insiste na impressão que geraria um imenso prejuízo se parada naquele momento, afirmando que a notícia seria corrigida na edição sucessora. Ambos partem para agressões físicas, gerando a ficção exagerada clássica do mundo cinematográfico. Henry aborta a missão.

Alícia e Michael foram para um bar, onde também se encontrava um gestor que o colunista arruinara a vida; este saca uma arma e atira em direção ao crítico, mas acaba atingindo Alícia, que neste momento, após repensar sobre sua moral, estava ligando para a editora alterar a capa para: “Não foram eles”. Ela é encaminhada para o mesmo hospital em que Martha estava a caminho para entrar em trabalho de parto. Alícia consegue telefonar para a gráfica do hospital, e no dia seguinte, Henry nota que a manchete que noticia a inocência dos suspeitos é divulgada.  

O filme apresenta certa equiparidade bonita e saudável entre sexos. É interessante observar o papel de Glenn Close, pois inicialmente fora planejado como um personagem masculino, porém, após vivenciar uma experiência dentro de grandes redações americanas, Ron Howard observou que as histórias apresentadas pelas mulheres eram mais fascinantes, optando pela mudança de gênero. Nota-se certa maturidade e sintonia por parte de ambos. O diretor preocupado em representar de forma mais semelhante possível, apesar do humor exagerado, a rotina dentro de um jornal. E a atriz, que insistiu para utilizar o roteiro original, mantendo inclusive as cenas de briga física, demonstrando uma enorme flexibilidade e senso de igualdade.

Para quem se entrega fácil a comédias dramáticas, se dá garantia que logo ficará a mercê da trama. The Paper, título original, conceitua perfeitamente como um bom profissional deve ou não ser, passando uma mensagem direcionada não somente ao jornalismo, mas repensando os valores morais de nossa sociedade.