cidade-cinza

O amor que move o sol e todas as outras estrelas.
—  Cidade das Almas Perdidas - Cassandra Clare
As coisas bonitas são tão facilmente quebradas pelo mundo.
—  Cidade Dos Anjos Caídos - Cassandra Clare
tua cidade

eu subi na torre mais alta da tua cidade, e lá existia uma chaminé que expelia flores brancas. olhei os prédios e pensei sobre quanto sangue derramado foram edificados com tua pele machucada. sangue esse que corre em tuas veias ácidas. a minha missão histórica, quase messiânica, é interromper essas veias que carregam lixo transgênico que te causou tanta doença sentimental. esperei dois segundos de eternidade e cruzei um destino sacana em forma de passarela de viaduto que passava por ali, voltei os meus olhos e o antes já não existia mais. eu queria te dizer que o presente e a modernidade se eternizam em forma de arte, como eu e você: obras futuristas que descrevem o frenesi de uma cidade cinza e sem graça, que eu gosto.

De novo e o mesmo fim, de novo a mesma promessa e pedido de recomeço. Ele saiu batendo forte a porta, eu olhei para trás e vi pela janela que chovia, me parecia o fim do mundo, a cidade estava cinza. Onde ele ia? Bem, até agora nunca descobri. A gente acabou num fim de tarde chuvoso numa quarta-feira, dia de futebol na tv, deixei de assistir futebol por não ter com quem comentar. Arrumei uma nova pilha de livros e prometi começar o mais rápido possível, depois preciso de todos os grandes autores da literatura russa. Eu to fugindo do que disse no início do texto. A gente briga segunda, termina quarta e volta, jurando amor, na sexta. Somos opostos que se dão muito bem? Juro que nunca vou saber. A gente enxerga o mundo diferente. Quase sempre meu céu é azul claro, adoro brincar achando que a nuvem tá pouco acima do prédio e que se eu me esforçar bastante, eu consigo pegar, ele não gosta disso. Pequenas ilusões causaram a ele grandes dores, dono de si e pai do seu destino, ele nunca gostou muito do que não é simples e objetivo, penso que qualquer dia morro engasgada, eu gosto de palavras, e falo, sempre falo. Falo demais. O tempo todo. Quando não estou falando, estou sentindo. Ele quando não está falando, está pensando em nada, como ele quase nunca fala, então é simples saber no que ele tá pensando. A gente merece ser feliz. Merece morar aqui com três gatos, um peixe e duas tartarugas. Só que ele odeia apartamentos, eu gosto. Odeio verde, verde é a cor favorita dele. Não queremos ter filhos e somos do mesmo signo. De novo, tivemos o mesmo fim, a gente brigou, ele bateu a porta com força e disse que voltaria quando estivesse mais calmo, refiz a promessa que vamos tentar só mais uma vez.  Prometemos pela terceira vez recomeçar novamente, nos amar eternamente como da primeira vez depois da segunda briga.
—  Além de saudade.

eu trago o cigarro na esperança de aspirar teu fogo junto
hoje algumas nuvens escondem a beleza do azul
mas nem o cinza dessa cidade pálida 
nem as curvas sinuosas das esquinas vazias 
me fazem te amar menos.

(Anotação Pessoal)

Perceberias o medo: se tivesse visto os poemas amassados escondidos na minha carteira? As manchas de lágrima escorrida sobre o papel? Se tivesse compartilhado das minhas insônias — e eu das tuas, e eu das tuas? Tínhamos, hoje, enxergado o que se deve enxergar?

As consequências batem urgentes como granizo em uma janela.

Meu corpo, nu e frio, de bruços sobre a tua cama. Enquanto dormes. Enquanto sinto o peso de todas as escolhas idas, e de todo o choro engolido. Todo o choro preso, apodrecido, perdido. Jamais vi um céu tão cinza nessa cidade, honey pie.