chiye

|| Caso Shoin ||

O dia havia começado de maneira completamente comum: um banho rápido e uma xícara de café para espantar o sono, dentes escovados sem comer nada - nunca tinha fome de manhã.

Era terça feira e, às terças, Shiori trabalhava em casa. Colocou as roupas mais confortáveis que encontrou - um moletom meio surrado e uma camiseta azul - e ligou o seu computador para checar seu e-mail. Apagou ofertas de sapatos e mensagens que provavelmente causariam danos irreparáveis ao pobre computador. Escreveu uma resposta rápida à mensagem quilométrica de sua irmã [ Não, eu não vi sua filha, ela não veio me procurar. Não escuto nada de vocês duas há um ano. Espero que a encontre logo, adeus. ]. Não era  como se ela não se importasse, só não tinha disposição alguma para lidar com aquilo.

E então, algo vindo do trabalho. Soltou um suspiro antes de abrir e-mail.

Sra. Matsunaga

O departamento de investigação da polícia de Tóquio requere que a senhora compareça ao escritório do Sr. XX hoje, terça feira. O assunto é urgente.

Não havia sequer assinatura, então ela soube que aquilo havia sido escrito pela estagiária nova - pobre garotinha, não tinha ideia do que estava fazendo.

Soltou um suspiro outra vez. Arrumou-se dentro de dez minutos e em outros quinze já estava em frente à porta da sala de Sr. X. Bateu três vezes antes de ouvir um “entre” dito com firmeza. Contou até três e entrou.

偶然だなあ!

Akashi tinha que admitir. O seu rosto desfigurado (um olho roxo somado aos arranhões nas bochechas - e isso tirando os machucados que tinha por debaixo das roupas, espalhados por todo o seu tronco e costas) lhe causava um incômodo descomunal. Desde o dia seguinte ao “acidente”, começou a andar cabisbaixo, escondendo-se, de uma falha maneira, entre os próprios ombros, e tivera que “explicar” - uma melhor palavra seria mentir - o acidente ocorrido para os grupos de teatro que estava participando (sorte que nenhum deles era o seu principal; se este fosse o caso, estaria fora da peça da próxima temporada e dessa maneira seria difícil voltar a viajar para as cidades ao redor de Tóquio e não conseguiria mais informações tão tranquilamente como faz agora… Ah, como ele queria aquele maldito loiro morto ou com uma dor equivalente à sua - o informante havia jurado vingança, e iria tê-la a qualquer custo.

Pensou em usar alguma máscara, lenço, qualquer coisa que cobrisse apenas a metade do seu rosto acertada pelo punho pesado do animal mais alto. Rejeitou procurar por um médico, por enquanto (Akashi não gostava de hospitais, e, visto que perdera a carteira há algum tempo atrás, não tinha documentos para entregar ao médico responsável) e decidiu permanecer longe de seu chefe, somente naquele dia. No anterior, ficara com um saco de gelo na área machucada enquanto o moreno estava fora e ainda tivera que explicar todo o ocorrido quando o mesmo chegara e, ao ver o estado em que se encontrava, pergunta por respostas. Sua cabeça doía - mais do que deveria - quando se lembrava daquela longa conversa, e principalmente do terror que subitamente se instalara e aumentava a cada palavra que dizia. Pelo menos, a promessa de Kagami que iria “dar um jeito” no responsável que fizera aquilo lhe dava segurança.

Eram seis e meia de uma manhã de domingo quando o loiro decidiu sair para passear um pouco, por aquela mesma rua onde havia comprado a caixinha azul a qual havia colocado o rastreador e despistado o rapaz que o desfigurara. Suas roupas não eram condizentes com o tempo frio, porém; trajava um simples jeans azul-marinho, que chegavam a beirar o preto, sapatos pretos mais simples ainda, uma camisa branca de mangas curtas totalmente lisa e, por fim, uma jaqueta de couro preta, que estava aberta. Sem luvas, sem cachecol e nada que cobrisse o rosto - o frio que sentia acalmava-o um pouco (o preferia do que o calor, diga-se de passagem). Como era cedo, o informante ainda não estava totalmente desperto - mas continuava atento, como sempre esteve desde que passara para o lado criminoso. Não sabia o porquê de ter decidido sair do aconchegante apartamento do moreno tão cedo daquele jeito (sair cedo, tudo bem, mas daquela maneira já chegava ao extremo); talvez para evitar o chefe de olhar para o seu inútil informante? Talvez para querer pegar um pouco de ar puro sem que ninguém estivesse olhando para seu rosto temporariamente desfigurado? Talvez para conferir se seu “presentinho” ainda estivesse no local, esperando por seu dono (motivo que julgava ser o principal)? Talvez por estar com muita raiva acumulada, e sequer poder descontar?

É… Talvez.

O seu olho roxo latejava, e doía apenas ao fazer o simples movimento de piscar. Os pequenos cortes na outra metade do rosto ardiam conforme a brisa fria acariciava-os (aumentando ainda mais a sua raiva pelo responsável pelos seus machucados). Distraído em seus próprios pensamentos - os quais envolvem tanto sangue derramado e violência (sim, Akashi é uma pessoa extremamente vingativa) que é praticamente impossível de descrever com clareza -, brincava com a fumaça branca que saía por entre os seus lábios entreabertos, enquanto seus olhos castanhos claros percorriam a rua estreita, quase toda deserta. O silêncio, quebrado apenas pelo som do vento e pelos poucos carros que transitavam àquele horário, era espetacular, um tanto harmônico. Realmente, aquela parte da cidade onde permanecia temporariamente (apenas enquanto não estava efetivamente trabalhando), era perfeita.

Quinze minutos de uma lenta caminhada foram o suficiente para o japonês conseguir localizar a casa onde havia jogado a caixa com o rastreador - sua memória fotográfica não lhe era falha. Observou cuidadosamente o mesmo local onde tinha certeza que o objeto de madeira havia aterrissado; e notou, com não tanta surpresa assim, que a caixinha não estava mais lá. Soltou um suspiro, arrumando, com uma das mãos, a franja que lhe caía sobre os olhos para que a fizesse cair ainda mais sobre eles, ao mesmo tempo em que imaginava se tinha sido o seu agressor ou os donos da casa que a tinham encontrado - e alguma coisa lhe dizia que havia sido, realmente, o brutamontes que havia também lhe deixado um “presente” (de grego).

Ao cumprir o objetivo principal - ou assim achava que era - da cedia caminhada, estagnou-se, por não saber onde ir. Como uma estátua, permanecera no mesmo lugar por alguns segundos antes de chacoalhar a cabeça (ainda latejante) e voltar a andar, para, dessa vez, nenhum lugar em específico - desde que esse lugar não fosse o apartamento de Kagami, estava ótimo.

Saber que o rastreador não estava mais em seu devido lugar (que seria perto dele mesmo) o acalmava um pouco - e isso deixou os seus pensamentos mais leves do que os anteriores. Poderia se ver livre do mais alto por mais alguns dias, afinal. Concentrava-se agora em como contara para seu chefe sobre como havia sido o estúpido de ter deixado uma pessoa aleatória ter usado-o como saco de pancadas; mas, ao mesmo tempo, em como dissera (e enfatizara) que havia sido fiel e não revelara qualquer coisa sobre a identidade do moreno. Tentou não omitir qualquer detalhe extremamente importante, e, ao mesmo tempo, tentou não mentir (apesar de não sabia como o faria sem que parecesse um completo idiota - mais do que já era. Afinal, seu rosto denunciaria qualquer gesto em falso, e Kagami era a pessoa que o melhor conhecia).

Viu-se parando em frente à mesma papelaria - cujo letreiro escrito à mão pendurado na porta dizia “FECHADO” - que comprara a caixa a qual colocara o rastreador (e que tinha uma linda e jovial atendente). Revirou os olhos - já bastava de pensamentos sobre o que acontecera antes; tinha que se concentrar no depois e na sua explicação do ocorrido - e continuou andando. O recinto ao lado da papelaria era uma loja de antiquarias, também fechada; nada interessava-o ali no momento. Continuou andando: uma doceria de médio porte entrou em seu campo de visão, já aberta mesmo àquele horário (no momento, exatamente sete e dezoito da manhã) e àquele dia, apesar de abrigar apenas uma mulher morena, um casal e um atendente de meia idade um tanto sonolento. Novamente, nada interessante - continuou a andar. O próximo imóvel - deu-se conta de que ali era uma rua predominantemente comercial, e não residencial, como sempre pensou que fosse - era uma loja de espelhos. Estava fechada como as duas primeiras, mas, nessa, Akashi deteve-se. Aproximou-se da vitrine, e, com uma das mãos, puxou a franja para trás, revelando por completo o seu rosto sério e impassível (sinceramente, quem o conhecesse e o visse agora, diria que não parecia ele mesmo - não pelos machucados, mas pela postura adquirida).

Como suspeitava, estava horrível.

Ficou ali por um tempo, quieto, “admirando-se”. Os lábios se contraíram - agora, se era por horror ou repugnância à carne roxa que cobria o seu olho e a parte superior das bochechas, junto com os pequenos cortes, que pareciam ter sido feitos aleatoriamente, como se o agressor tivesse arranhado-o (apesar de ter apenas socado-o, cotovelado-o, empurrado-o, erguido-o no ar… Mas definitivamente não usara as unhas no processo), ele não sabia dizer. O ator sentia seu ego escapando-lhe pelos pulmões junto com o suspiro que dera após observar mais detalhadamente os machucados. Arqueou as costas levemente, deixou a cabeça cair, cerrou o punho livre que pendia ao lado do corpo, e, com a outra mão, agarrou ainda mais forte o cabelo, com uma raiva súbita praticamente incontrolável - chegava até a tremer. A sensação de vingança que voltava a subir pela garganta era tão ácida e grandiosa que Akashi cometeu o deslize de não olhar para os lados e perceber que alguém - mais especificadamente uma mulher - aproximava-se dele; uma mulher que já tinha visto antes, e que cruzara o seu caminho para trazer-lhe mais desespero do que já sentia naquele momento.

Jaketto

[ 14:57:22 | xxx – cobertura, shibuya ]

Shiori tivera o cuidado de ser extremamente pontual. Se a mensagem dizia “às 15 horas”, ela fez o possível para cumprir com o horário à risca e, assim, evitar a ira da terrível detetive cujo nome sequer sabia - já era difícil aturá-la em seu estado normal; com ela irritada, a mais nova certamente não conteria seu ímpeto homicida.

A jaqueta fora embalada e cuidadosamente colocada numa sacola. Ela passara os últimos dias, desde que estiveram na casa do professor [que posteriormente fora incendiada] ligeiramente (apenas para não dizer ‘completamente’) obcecada com o que tudo aquilo poderia significar. Os homens, sua conversa, o incêndio em si. Hipóteses e mais hipóteses surgiam em sua cabeça, mas nenhuma delas parecia fazer sentido algum.

Quando a mensagem da outra Detetive chegara, um certo (e contido) alívio atingiu Shiori. Afinal, não seria necessário tentar desvendar tudo sozinha.

A moça tocou a campainha da casa da … afinal, o que aquela estranha era? Uma colega de um trabalho não oficial, talvez? De qualquer modo, Shiori tocou a campainha poucos segundos antes do que havia sido combinado e esperou que a porta fosse aberta.