chega

Chegamos mesmo ao fim não é? tudo aquilo que temíamos está acontecendo. Todos os sonhos que construímos e as promessas que fizemos, terminarão ao fim desse telefonema. Eu falhei com você, prometi nunca te abandonar, prometi estar sempre ao seu lado quando precisasse e cuidar de você, para que nunca te fizessem mal. E eu fiz isso, mas não foi o suficiente. Você estava no fundo do poço quando eu te conheci, então curei todas as suas feridas, ouvi todos os seus problemas e te deixei novo em folha. Mas quem diria que a única pessoa de quem eu devia ter te protegido, era de mim? A única pessoa que poderia trazer de volta todas as feridas que lutamos para curar, era eu. Talvez se apaixonar seja isso não é? Confiar tanto em uma pessoa, a ponto de esquecer que com um simples “adeus”, ela pode destruir tudo o que você lutou para conseguir, é talvez seja… E é por isso que estou indo embora, de novo. Mas essa vez não é como as outras, não tem mais volta. Você sorria, eu voltava. Você pedia, eu ficava. Um simples “oi” seu, me fazia esquecer o quão difícil era ficar ao seu lado. Quantas vezes tentei sair do buraco negro que era o nosso relacionamento, mas simplesmente voltava pois era mais fácil sofrer ao seu lado, do que sofrer sozinha? Mas chega, essa alto destruição já foi longe de mais. E é por isso que chegamos ao fim, mas por favor, não sorria, não diga meu nome, não chegue perto de mim, nem mesmo me deixe lembrar que você existe, por que eu não posso perder o controle de novo, não dessa vez. Me desculpe se estou trazendo de volta todas as feridas que lutamos tanto para esconder, me desculpe se estou te magoando do jeito que jurei nunca fazer, mas é demais pra mim. Você sabe que a nossa relação não foi feita para durar, muito menos para ter um “final feliz”, então vamos nos contentar com o fim. O que realmente aconteceu entre nós dois, ninguém nunca irá saber. Então ficamos assim, você sofre ai, e eu sofro aqui, sempre foi assim não é? Afinal, quando de dor cabe em um coração…? E quem diria que no fim de tudo, quem acabaria no fundo do poço era eu? Mas não se preocupe, uma hora vai chegar a minha vez, alguém também vai curar minhas feridas e ouvir meus problemas. Pode ser que essa pessoa até fique pra sempre na minha vida, e me ame do mesmo jeito que eu te amei um dia. E talvez, só talvez, consiga me fazer feliz do mesmo jeito que eu te fiz. É claro que quando eu tiver meus 80 anos, e lembrar do grande amor da minha vida, é o seu nome que vai vir na minha mente, e eu vou lembrar de tudo o que vivemos, apenas com saudade. Saudade da época em que jurávamos que seria pra sempre, da época que você prometeu me buscar quando eu completasse vinte. Foram tantas promessas não é mesmo? É impossível acreditar que estou abrindo mão delas por uma pontinha de felicidade na minha vida. Talvez ela não dure, e daqui a três dias eu me arrependa de tudo o que estou te dizendo agora, mas pelo menos vou saber que tentei. E isso é tudo o que eu posso fazer, tentar ser feliz sem você. Adeus.
tu tu tu…
—  Fui tão você, que acabei esquecendo de mim. (c-aligrafias)
Saudade de quando você falava comigo sem motivos. Saudade de quando nos ligávamos pontualmente todas as segundas. Saudade de quando saímos da rotina e nos ligávamos outros dias. Saudade de dizer as pessoas que estávamos em um relacionamento enrolado. Saudade de quando você me mandava fotos bobas depois de um dia cansativo pra mim, o que me fazia rir. Saudade de quando mandar “boa noite” e “bom dia” era regra para nós. Saudade de quando você me chamava de qualquer adjetivo fofo. Saudade de quando estávamos contando os dias pra você voltar. Saudade das noites que passamos em claro, conversando besteira. Saudade de dizer “eu te amo”, “avisa quando chegar”, “saudade de você”, “volta logo”. Saudade de um tempo que foi perfeito, enquanto existia.
—  My longing, their longing, our longing.
Eu não vou pedir licença à vida, por medo de existir. Eu não vou defender o meu passado, porque eu não vivo mais nele. Eu não vou me justificar já que as pessoas só ouvem mesmo o que querem ouvir. Não admitirei que me culpem por conseguir aceitar o fim, pra que possam dormir em paz no apagar das luzes. (Boa noite, dorme bem. Recebam o beijo da tua própria ignorância.) Eu não vou mais me explicar. Eu odeio me explicar. Explicar envelhece. Eu não darei mais conselhos sobre o que sobrou depois do fim de amores. Sobrou tu, achas pouco? Estou farto de me fitarem sempre como uma página que precisa ser virada. Eu não irei lamentar mais do que uma vez, porque eu não suporto a mendicância. Eu não deixarei que me azedem a saliva ou que me engasguem num soluço. Eu não irei rir se não estiver achando graça. Não atenderei o telefone se eu não estiver com vontade de conversar. Não voltarei em casa pra ver se tranquei a porta. Sou educado até certo ponto. Não vou mais mentir porque o outro não suporta a realidade escancarada. Não me movimentarei entre as pontas como quem busca escorar-se pelas paredes. Não permitirei que me acertem suas flechas aos poucos, como quem não quer acertar. Ou como quem quer acertar mas não anuncia isso aos gritos. Esse será o meu jeito suicida de abraçar o mundo. Porque se é fácil morrer aqui, mais fácil ainda é apenas desmoronar. De uma vez por todas, eu não vou mais gritar para que me ouçam - que se ensurdeçam todos de uma só vez! Tantos palavras de apoio que dei quando eu mal sabia de mim. Tantos textos que me senti na obrigação de escrever quando ninguém queria saber se do outro lado eu estava chorando. Tantos poemas que perdi por aí, tantos outros que fui obrigado a ouvir de graça pelo telefone… Recuso-me a esses trajes de mendiga, não tenho mais essas pretensões burras. Só não tente dar meu nome ao gosto que foge entre os teus dentes, não atreva-se a me restringir por não suportar o peso da infinitude dos teus próprios dias sôfregos. E quem ousar palpites sobre quem sou, ou no que me tornei, finja que a dor que sentes é minha, pra entreter essa tua dor fingida. Não me restrinjo as tuas limitadas perspectivas, não me permito a sua vasta enxurrada de desacontecimentos. A mim sempre me fora essencial a busca por desaprender todos os meus limites. O que fui, já nem me lembro. O que serei, ainda não sei. E o que eu sou, nem eu mesmo ousei escrever aqui, nesse meu orvalhar de possibilidades.
—  Michael Letto