centro do rio de janeiro

fico buscando respostas para coisas que eu já sei, pois o meu sentir teima em anuviar as minhas certezas.
tudo vira incerto.
tudo vira confusão.
e você não imagina o caos que se instala aqui dentro.

por que você não ficou?

esse tipo de questionamento me é incômodo, pois já sei que as pessoas simplesmente podem não ficar e deveria estar tudo bem.
mas eu continuo tocando a ferida.
sinto a falsa culpa entalada na garganta e sendo engolida a seco, quando permaneço reafirmando piamente que vai ficar tudo bem. eu estou bem.
pressiono minha cara no travesseiro para sufocar essas perguntas que teimam em aparecer.

por que você não ficou?

eu tinha opções e
fiz o mais difícil.
mas fiz a escolha certa.
eu me afastei fisicamente de você e chorei enquanto caminhava na volta para casa depois daquele dia de trabalho.
a principal avenida do centro do rio de janeiro permanecia viva e eu já conhecia o caminho até o metrô, mas eu me perdi.
eu estava perdendo você.
eu gritei em silêncio quando o choro se tornou descompassado e eu parecia não ter mais controle sobre o que eu sentia.
eu só senti. e como eu senti.

por que você não ficou?

eu sabia que em algum momento tudo ficaria bem, e meu deus, como eu pedi pela calmaria de estar bem com esse espaço entre a gente.

eu fui. eu caminhei. eu me refiz.
e aos poucos eu senti que deveria voltar.
e voltei.

é nítido o quanto a sua presença ainda me invade.
hoje não dói como antes. mas dói.
eu continuo com esse aperto no peito.
eu continuo te trazendo de volta e lembrando o quanto eu senti por você.
eu te dou outro significado na minha vida.
eu consigo lidar com você aqui.
eu consigo estar confortável com você aqui, mas ainda não aprendi a lidar com essas dúvidas fudidas que permanecem:

por que você não ficou?
por que você não fica?

No dia 23 de julho de 1993, dezenas de pessoas foram vítimas da violência estatal nas proximidades da Igreja da Candelária no Centro do Rio de Janeiro, aonde policiais militares atiraram contra pessoas que dormiam embaixo das marquises, deixando inúmeros feridos e assassinando oito pessoas, sendo seis crianças e dois jovens. Transcorridos 22 anos da tragédia, nossas crianças e adolescentes negras e pobres permanecem sendo vítimas. Nas últimas duas décadas, o Índice de Homicídios de Adolescentes (IHA) no Brasil aumentou 346%, chegando ao 4º maior índice do mundo com cerca de 24 jovens mortos por dia segundo o Mapa da Violência.

Lembrar da Chacina da Candelária, da Chacina de Acari, da Chacina do Vigário Geral, da Chacina do Sumaré, entre outros inúmeros episódios nos quais a juventude negra e pobre foi violentada, é lembrar que, apesar de completos 25 anos do ECA, ainda não efetivamos a garantia dos seus direitos e que a punição, como apregoado pelos defensores da PEC 171/93, não é a solução e que devemos resistir!