cavaleiro andante

Em suma, ele engolfou-se tanto em sua leitura, que lendo passava as noites em claro, e os dias em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que veio a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo aquilo que lia nos livros, tanto de encantamentos como pelejas, batalhas, duelos, ferimentos, galanteios, amores, desgraças e disparates impossíveis; e assegurou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda aquela máquina daquelas sonhadas invenções que lia, que para ele não havia outra história mais certa no mundo. […] Então, consumido já seu juízo, veio a dar no mais estranho pensamento em que jamais deu louco algum no mundo, e foi que lhe pareceu conveniente e necessário, tanto para o aumentos de sua honra como para serviço de sua república, fazer-se cavaleiro andante, e ir pelo mundo afora com suas armas e cavalo a buscar aventuras e a exercitar-se em tudo aquilo em que ele lera.
—  Dom Quixote.

Engraçado que, mesmo estando a um dia e dezessete horas de Damasco, sinto-me parte do contingente de refugiados. Eu simplesmente não consigo pertencer. Não sou uma substância solúvel, compreende? Até hoje não encontrei solução na qual pude me ser homogeneamente. Quero dizer, até hoje não encontrei um amigo pra chamar de amigo, ou um amor pra chamar de amor. Sinteticamente (e sintaticamente) falando, todos os meus laços são hiatos: embora em sequência, nunca na mesma sílaba. É uma boa metáfora, aliás. É como se tudo em mim fosse pela metade. Sou noite meia, sou vida meia, sou poesia meia. Sinto-me poço de incompletude, uma espécie de meia lua cheia, se puder assim dizer. Desfecho do fim, anúncio do princípio. Eu não tenho uma canção pra chamar de minha: sou qualquer coisa entre silêncio e reverberação. Isso, exatamente isso. Sou uma onda eletromagnética. Me propago pelo vácuo e tenho natureza dual. Dual nesse caso é dicotomia: metade poesia e metade criptografia. Esta última prevalece, já que não posso claramente me codificar. Alguém como eu não poderia facilmente fazer parte de nada. As forças de repulsão prevalecem. Minha polaridade é desconhecida e dinâmica: inerte aos caprichos da mente, prisioneira dos fetiches da alma. Tenho eu também um quê interessantíssimo de Cerrado e Amazônia: galhos retorcidos na introspecção e intensidade tão úmida que precipita. O que seria de mim se não fosse eu retirante? Não pertencer é retrovisor da efemeridade. A vida é efêmera, logo não pertencer é retrovisor da vida.

Essa vida de cavaleiro andante está me deixando louca.

v.a