cata vento

eu tentei gostar de praia só pra te acompanhar na areia, mas ainda prefiro o campo. não adianta nada eu deixar de ser eu pra ser sua. eu ainda vou amar cata-ventos e borboletas e ouvir músicas velhas nas tardes de domingo mesmo que você deteste. e vou comprar jornais só pra fazer as palavras-cruzadas e depois usar as folhas pra fazer esculturas com cola e água e colocar na minha estante. vou observar o céu de fim de tarde mudar de cor esperando que você também admire isso. e então talvez você aprenda a gostar de mim como eu sou.

O Pincel, a Tinta e a gravura

Era só maldade,
escrevi estas linhas com tintas de
diversas cores.
Uma promessa jamais cumprida.
Tudo era simples um cata vento singelo de criança
Vi a história encoberta e
agarrei-me a sua loucura.
E era sempre, sempre a mesma coisa.
Não há lógica no que sentimos,
e sentido na insensatez.
O pincel com que escrevi esta história
não entende que palavras podem ser mentirosas.
E o teu retrato perdeu a formosura
de tua  alma.
As cores embotaram-se.
É a riqueza que os faz sorrir em um mundo
doente.
Deslizei suavemente meu pincel em teu corpo
enquanto o mundo era nosso.
E o nosso se tornou eu e você.

Você é a água que mata a minha cede. Você é sol que me aquece. Você é alimento que sacia a minha fome. Você é a luz que me guia na escuridão. Você é aquele analgésico que alivia a minha dor. Você é os nutrientes que me deixa forte. Você é chuva no meu deserto. Você é a energia que me mantem acesa. Você é cobertor que me protege do frio. Você é vento que gira meu cata-vento. Você é o extintor que apaga minha chama. Você é a soluçao para os meus problemas. Você é a rima da minha poesia. Você é oxigênio que me mantem viva. Você é a minha base. Você alimenta minh’alma. Você afasta o mal da minha vida. Você é a razão do meu viver. Você é o motivo do meu sorriso. Você é meu refúgio. Enfim, você já percebeu que é tudo na minha vida, não é mesmo? Portanto, não me deixa não, eu preciso muito de você, a minha vida depende do seu sorriso, a minha existência depende de você ao meu lado. Meu amor, você é o meu par perfeito.
—  Lívia Soares e Luiz Augusto.

Vai viver, menina
Deixa o vento bater
E vai ver
O sol nascer
Vai viver, menina
Vai rir sem perceber
Vai desconcertar o tempo
E viver que nem cem cata ventos
Vai viver, menina
E vai fazer o dia nascer
Vai ser flor
Desconcerta.

Ela viu muitas ondas chegarem suavemente a beira da sua praia, entre raios de sol e luares infindos. Também, abraçada em si mesma suportou os grandes de repentes do mar, ventanias e nostalgias de naufragar a alma. Acariciada pela ideia de que amanhã tudo vai ser melhor, ela se assenta dentro da sua esperança, clareia as ideias quase obscurecidas pelo dia de ontem, procura sabor dentro de si, e outro lugar a espera. Um singelo cata-vento simboliza tal vida, necessita de ventos para viver, e ela nem imagina o quanto cada vento a faz viver. Ousei dizer a um mensageiro para deixar um recado a tão jovem moça, que sente-se tão distante da certeza de algum amanhã - “A paciência é um tesouro, nos sonhos haverá uma linha tênue entre abismo e monte, lamaçais e oceanos, mas valerá a pena aprender que cada vez que Deus for lapidar você poderá e bem certo irá doer.” O resto das palavras guardei comigo, ela mal sabe que tem um monte de ladrões de estrelas querendo roubar as constelações inteiras que abrangem o seu olhar até o sorriso. Cuida-te e deixa Deus cuidar-te.
—  Jhonatan Stuartt.
Sugestões para presente: Amor. Bolinhas de sabão. O som de copos com água. O som das gotas no chão. Um sorriso tímido. A música por trás dos ruídos. Um coração encostado no outro. Um ou dois para sempres. Um avião nas mãos de um menino. Um barquinho de papel. Uma pipa atravessando as nuvens. Uma sementeira de tulipas. Um par de meias listradas. Dois ou três cata-ventos. Uma palavra inventada.
—  Rita Apoena.
Alfonsina

       

A menina levantou o cata-vento acima da cabeça sem sucesso, pois era uma manhã débil de primavera. O relógio da torre marcava nesse momento três quartos de hora depois das oito da manhã, e um cortejo seguia em preto ao redor da Igreja, com as mulheres chorando lágrimas sem sal e tropeçando nos paralelepípedos do caminho. Não era uma estrada adequada para o salto alto, observou a menina.

O cortejo parou em frente ao cemitério. Não haviam mais do que uma dúzia de integrantes, todos sem expressão e com o rosto raso de sentimentos. O defunto se chamava Afonso e tinha doado toda sua fortuna para os miseráveis das ruas. O censo havia contado duzentos beneficiados ao todo.

Compareceram doze pessoas ao enterro.

A menina observou a pequena multidão adentrar a muralha do cemitério, e dois rapazes levarem o caixão nos ombros até lá dentro. Não demorou muito e já estavam todos de volta, e a menina conseguiu ouvir os dois rapazes partilharem e rirem de uma piada pornográfica. Em um minuto não havia mais ninguém no lugar.

Ela caminhou de volta pra casa, e a imagem do defunto bondoso que ela não conhecia ocupou sua mente durante todo o tempo. As casas do caminho, as quais ela conhecia tão bem, viraram vultos, e ela podia jurar que as portas e janelas de todas elas possuíam a forma de caixões.

Abriu a porta do quarto, jogou-se no chão e começou a chorar compulsivamente, sem encontrar forças nos joelhos pra sequer subir na cama. Ficou ali, fitando as teias de aranha debaixo do colchão com cheiro de mofo, e então seus meses passaram sem mais demora. Sua gata parda vinha e lambia-lhe as bochechas, mas a menina permanecia sem reação, porque a face do morto que nunca tinha visto degradava seus pensamentos. Centenas de vezes a sombra dos objetos de sua penteadeira completou seu ciclo, e seus cabelos ficavam sujos e grudentos. Zodíacos se abateram sobre sua verdejância, mas a menina permanecia impassível a qualquer experiência da realidade.

Rapazes apareciam interessados em desposar-lhe, mas ela já estava casada, e casou na frente de um cemitério, com um cata-vento inerte na mão.

Então ela quis ajudar aquela alma tão boa e esquecida, e comprou um livro bonito com uma capa preta e o nome escrito em letras douradas, e lia para a consciência do esquecido aquelas palavras, no mínimo, confortantes. Podia jurar que o morto estava ouvindo, e chorando. E ela chorava junto. E ela passou as mãos no rosto pra secar as lágrimas, só que elas já estavam encarquilhadas e enrugadas, e ao olhar para cima, lhes fitavam os olhos moribundos de um padre através da tela do confessionário.

- Perdeu alguma coisa minha querida?

E depois disso viu sua visão se escurecer, pois a razão de sua vida até então já não era uma luz que a guiava através dos anos em direção a uma salvação de um desconhecido, e sim a seda negra da face de algo que a engolira e digerira por inteiro durante todos esses tais anos e ela não havia se dado conta.

Que viveu a vida por outro que já havia encontrado a salvação simplesmente por não mais viver.

a garota que ri alto na sacada do décimo andar, esperando ser notada, é a mesma que tem fobia de que segurem sua mão. a mesma que se sente invadida quando suas singularidades são descobertas. a garota pequena, não tão magra e estrondosamente frágil, é também a mulher que se manteve de pés descalços e sorriso firme, dançando no palco do teatro municipal, enquanto procurava os pedaços do seu coração partido. a garota que esbraveja aos quatro ventos que se ama, é a mesma que chora por medo de pertencer a alguém que não a ame inteira. tem receio que descubram sua mania de fotografar pássaros e desenhar cata-ventos. tem receio de que o mundo abra suas asas e a obrigue a voar antes da hora marcada. a menina que carrega compaixão nos olhos e que deseja se expandir em amor, a ponto de abraçar todo universo em busca da cura pra essa humanidade que dói, é a mesma que luta pra sobreviver ao próprio caos. 

a minha gargalhada é alta pra esconder as trovoadas, pra esconder os raios que cintilam no céu de mim mas me rasgam dos pés à cabeça. 

(tudo isso é só medo de não saber onde estou colocando esse meu coração metido a valente)