casvine

Todos nós somos anjos. Sem asas, mas anjos. Sem nem saber que somos. Salvamos alguém todos os dias ao promover sorrisos. Livramos alguém da vida, quando estimulamos sonhos. Sem auréolas, mas anjos. Todos nós somos anjos. Todos nós nascemos para ser anjos! Quando carregamos alguém indefeso no colo e que depende de cuidados especiais. Somos anjos, sem vestes brancas, mas anjos. Quando acreditamos no amor, enquanto ao redor fazem o favor de denegrir sua imagem bem debaixo de nossos narizes. Somos anjos mesmo sem asas, mas somos. Anjos que lutam todos os dias para conseguir encontrar a paz, anjos que se unem todos os dias em prol de algo mais, algo além e de bem. Todos nós somos anjos, sem cintilar à noite. Mas somos.
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Laryssa Casvine, Todos nós somos anjos sem ao menos saber que somos.

Não se sabe muito o que dizer para alguém que se perdeu rumando para a escrita da própria estória. Alguém que não tem culpa alguma do que se tornou, do desejo de vingança, do desejo de retribuir, do desejo de se tornar uma grande e temida dona. Dona de feminidade, de esperança, de otimismo, de consolo, de apoio, de amor. Como dirigir-se a alguém que se sente uma estranha debaixo do próprio teto, que não consegue associar sua própria imagem em uma fotografia ao seu intimo interior?  Esse alguém que brinca com as palavras, mas que é covarde demais para assumi-las, alguém que é medroso, mas ambiciona ser medonho… Guria.

Esse alguém acha ridículo quando outro alguém se indica crescido, se indica maduro, se indica alguém que pensa que é. Nunca somos quem achamos que somos. Esse alguém pensa assim, mas possui uma ideia formada de si mesmo. Alguém tolo. E um tanto certo, com uma dose de incerto e de errado. Ela. Ela tão ingênua a ponto de acreditar em duas verdades, mas tão crescida a ponto de andar sempre com um pé atrás. Ela. Sim, dona de si e do seu nariz. Achavam que não, mas ela deu um jeito, seu próprio jeito de crescer e se criar. A vida a obrigou. Ela órfã tão cedo de uma autoridade e sua mandante substituta era omissa e vestia um uniforme de guerra. Mas, ignorava e por inteligência temia, apenas para se guardar. Por isso, hoje tem medo de besteira, de porcaria, o que temia era inofensivo a ponto de não fazer mal a uma formiga. Ela era esperta, mas desconsiderava isso e em hipótese alguma assumia. Apenas quando escrevia e quando auto se lia. Boba, garota. Que coisa torta essa… Ela não tem apoio de onde costuma vir para todo mundo. Ela era por si e si por Ela. Precisou aprender a caminhar cedo com as próprias pernas. A vida lhe tirou ou lhe presenteou? Estranho. Mas, ela desconhece suas raízes… Nunca foram apresentadas ou pelo menos não tiveram oportunidade. O dia foi tomado ou depende do ponto de vista. O dela era embaçado. O cérebro se confunde, não sabe que imagem usar. Físico e emocional. Toda controversa. Menina, é sério o que te digo: se por acaso pudesse te levar algo, levaria tua força para mim, usaria como escudo para nunca quebrar, desmoronar ou chorar. Porque era isso. Forte, lutadora e inabalável. Raramente algo a surpreendia e quem sabe por isso sempre morria na monotonia. Amiga do escuro, não da escuridão, do escuro, seu foco era a luz e tudo o que era reflexo se atraia desprezo. Sempre a luz, apenas a fonte, nada de representações. Frágil moça. Tão jovem e tão intensa. Sem modéstia, tinha crença. Cria. Crê. Continuará crendo. Porque ela é assim, cheia de fé. Já ouviu ser pessimista, ser inútil, ser doente, ser moleque, ser menino. Mas, ela apenas se dava o luxo de querer aproveitar o que quase não lhe sobrou. Roubaram-lhe a infância. Agora, sua idade não condizia com a compra e o ganho de suas bonecas. Ela adorava ser tratada como uma pequenina. E se perdia nas lojas infantis. A jovem sempre caia de amores por diferentes sorrisos, e na mesma velocidade desapaixonava ao conhecer a higiene pessoal, sim, aquela que deveria cuidar de filtrar os maus pensamentos, as más pretensões, o mal humor. Ela era assim, cheia de alegria a começar de seu nome. Não havia sol, não havia chuva, não havia outono ou inverno, ela era sempre viva. Cheia de vida. Porém, nunca completa. Perguntava-se quase sempre se todo mundo se sentia como ela. Corria contra o tempo para salvar seus objetivos, sim, perspectiva era sua palavra. Sua espada. Agarra-se a ela como quem segura um propósito, uma oportunidade única. E ela acredita que seja.  É tudo tão fantástico, digo, tão fantasia. Ela vive colorindo os postes, acendendo as lâmpadas, deixando rastros por onde passa. Alguns se encantam, alguns querem pular em seu pescoço e quebrar como quem vive de golpes baixos. Mas, era cínica, é cínica. Vive de passado e futuro. Ignora as críticas. O presente, bem, às vezes ela dá valor, mas pensa o quão este é passageiro e sorrateiro. Nem se dá o prazer… Apesar disso, o trata bem, como uma benção. Tão errada, tão erronia. Ela sempre procura uma razão para voltar atrás dos tropeços propositais. Assim, na cara dura. Vive de vestidos curtos, de batom vermelho, de sapatos baixos e deixa o vento levá-la aos acordes, ao samba, ao que estiver tocando, ao rock n’ roll. Ela acredita que é bizarra e fala em terceira pessoa sem aversão de se sentir doente. Não carrega um diário, mas escreve. Escreve em outra língua para só deixar passar o que devem saber e nada além. Ela é experiente, pois estudou com as falhas dos distintos. Fala de si mesma, se critica, se detesta, se humilha, se agride, mas se ama secretamente. Como quem é fã de uma banda ridícula e abstrusa sua veneração. Ela sentia falta, mas não corria atrás, ela ouvia histórias, porém hoje não mais. Ela vive misturando os tempos, as épocas e se considera de outro planeta. É louca. Doidinha de pedra. Mas, vive como normal, come como gente, sorri como quem é feliz e grita como quem tem alguma coisa para dizer. Ela as vezes só precisa de atenção, de colo, de consolo, de um ombro amigo, de um abraço sufocante, de uma mãe, de um pai, de alguém em quem confiar. Só confiava a si mesma, obedecia a si mesma, dava suas próprias broncas, se auto pune, é o próprio consolo, o próprio sermão, o próprio abraço. E era sufocante. Sufocante ser sozinha. Não por escolha, por reforço. Dançava, balançava o próprio corpo, condizia seu próprio ritmo, seu próprio batimento, seu caimento, sua finalização. Era ela, si, mesma, própria, apenas, sozinha, desprovida coitada. Ah, mas era dona! Dona da interpretação, dona do drama, do elenco, dona do roteiro, dona do próprio querer. Dona da própria vida, da própria estrada, dona da sua profissão, da sua entrada, da sua saída. Dona da sensualidade, da espontaneidade, dona da graça, do riso, da brisa, da esquisitice, da própria felicidade. Dona da própria estória. Tão dona que contratou alguém para escrever. Contratou mãos de ouro, mãos melhores e incomparáveis, mãos que sempre cuidam dela. Mãos Divinas. Mãos de Deus. Ela era basicamente para Deus, para ela e pela fé. Ela era eu. Ela sou eu. Ela será melhor que eu. Ela será melhor do que é. Ela pretende. Ela consegue. Tudo que quer vence. Não coleciona. Não se gaba. Ela é exatamente ela e mais ninguém. Não mais ninguém, alguém, ela é ela, apenas ela. Meu eu.

— LaryssaCasvine, Sentin-ela

No vento, na cor e em tudo no mundo.
Canto teu choro ao gozo do amanhecer.
Na brisa, na valsa e em lágrimas.
Sonho teus planos ao tilintar dos cristais ao chão.
No suor, na neblina e em gentilezas.
Enxugo teus desalentos ao surgir das estrelas.
Na crise, na alma e em substancial querer.
Na tua pele me deito em entrelaço como quem respira lar.
—  Casa, Laryssa Casvine.

   E olha essa mudança de clima. Torturante. Mas, percebe que a cama fica mais aconchegante, mais acolhedora. Os pingos de chuva acompanham meus batimentos e bom, cai bem essa música agora. Eu sinto saudades, assumo. Por meados dessa época, assim mesmo, com o vento gelado, que a gente ia viver das luzes noturnas, fugindo dos olhares, nos escondendo para viver do que nos fazia feliz. Eu sou uma louca de tá falando essas coisas. Lembrei-me da garoa e teu corpo encontrou-se ao meu, ali, debaixo daquela chuva que engrossara a pouco, era tão boa a sensação proibida. Pelo amor! O que eu estou dizendo? Esqueço-me de meu orgulho com tanta facilidade… Mas, é irrelevante. Eu achava que era meu porto seguro, mas na verdade era uma parte de meus problemas. Não, eles não se esvaíram contigo, acho até que triplicaram, tenho que lidar com essa nostalgia vez e outra. No fim, é isso… Monotonia, falta do que pensar, rotina, mesmice, tédio. Vai ver que nem é saudade… Não sei, a lembrança ainda machuca um bocadinho. Quem sou eu para afirmar então?! Com um expirar tudo se vai da mesma forma que chegou, ou voltou, assumo.

LaryssaCasvine, Sentin-ela

Carta a Sorte

Sorte. Palavra confusa e que não me indica nenhuma pista. Não rima, faz pirraça, apenas me atrapalha. Distorce meu jogo de cintura para ter fé, viver de fé, viver de crença e então, aqui estou eu, vingada na decepção. Morte. Esta rima. Rima com a Sorte. Elas se merecem e consigo até prever uma oração com sentido em uni-las. Morte da Sorte. Apresento-te tu Sorte à Morte. Juntas podem fazer um belo par e beneficiará a mim, a ti, a ela, a todos. Deixa-me viver livre de tua existência, de tua essência, da qual nem levo em consideração como algo agradável. Atrapalha-me toda. Todo o esforço, toda a força, todo o esquema, todo o combate. Vives a inventar, iludir, distorcer, entreter, mentir. Tu fantasias, tu enganas. Isso machuca meu frágil e irrequieto coração. Sabe, Sorte… Mereces uma dose de teu próprio veneno, que te leve ao leito de torturas e desapontamentos. Contudo, não se acanhe, o que menos falta nesse mundo a tua volta, é alguém que queira se apegar a ti. Porque és assim, uma trivial prostituta, tu estás com quem pode te pagar melhor e te deitas, sem se dar o valor. Sorte, espero que exista esperança para ti, mas esta não te indico, pois merece algo melhor que tua mísera perdição. A Esperança é digna, honesta, realista, não ilude, compreende, é padecente, é sorridente. Contrário de ti, que pinta tua face, risca-se com batons baratos e veste-se vulgarmente. Sabe Sorte, não tenho realmente nada contra ti, aqui fica apenas minha humilde opinião. Porque é o que penso de ti, não me tratas com respeito e não te devo nenhuma mentira nem que seja para cativar teu ego. Porque é isto que mereces, a simples verdade. Espero que não seja assim tão tarde, caias em si e te tornes melhor do que és. Todavia, enquanto isso, conversa com a Morte, ela é uma donzela sábia e com certeza terá um jeito ou um fadário esperto para te aconselhar.

— LaryssaCasvine, Sentin-ela