casa da barbie

Então é Natal e o ano novo também. Parece que foi outro dia, mas as festas de final de ano já estão prestes a começar mais uma vez. Não vou mentir, mesmo que eu já não ganhe presentes incríveis como a casa da Barbie ou aquela pasta cheia de canetinhas coloridas, essa ainda é uma das minhas épocas preferidas. Motivos? Mesa cheia de comida gostosa, luzes piscando por toda a parte, shopping decorado e claro, família reunida por algumas horinhas: a vó que já não me reconhece direito, aquela tia que sempre fala alto demais quando bebe, os primos que não são mais tão íntimos e todas as outras pessoas que assinam o mesmo sobrenome que eu, mas nunca ouvi falar.

Parece trágico, mas depois de um certo tempo a gente percebe que são esses antigos costumes familiares que calibram nosso coração e nos ajudam a manter o pé no chão durante os outros dias do ano. Quero dizer, tudo muda ao nosso redor o tempo todo, mas eles continuam lá pra cortar outro pedaço de pernil, passar o refrigerante, te fazer esquecer do projeto verão 2014 e por último, no finalzinho da noite, fazer a pergunta clássica: “E os namoradinhos, como andam?”. 

Esse será o meu primeiro Natal solteira desde que dei o primeiro beijo. Isso deveria estar me assustando, mas acho que me sinto até um pouco aliviada. Olhando de uma outra perspectiva, veja bem, agora pelo menos não terei que me preocupar com a aprovação alheia ou o papo do cara com o meu pai na churrasqueira. Não tenho que apresentar ninguém ou contar sobre o dia que nos conhecemos. Também não preciso passar horas no shopping em busca do presente ideal ou ligar pra sogra fingindo não perceber que ela me odeia por ter feito o filho passar a ceia de Natal longe de casa. Se identificou?

Às vezes é bom dar um tempinho pro nosso coração e cultivar os amores platônicos tipo o protagonista daquela série ou o ator gato da novela. Eles nunca vão nos decepcionar e se você tiver uma televisão por perto, também se tornam uma ótima companhia. Fica a dica. 

Ah, Feliz Natal pra vocês, pra mim e também para os possíveis e impossíveis namoradinhos. Nunca se sabe, né?

Cap 16

- Oi, Andy. – falei, assim que cheguei ao balcão da recepção do prédio às três da tarde.

- Oi, Vanessa. – ele respondeu vagamente, concentrando-se em suas palavras cruzadas. – Sua tia pediu pra você subir logo, parece que ela tá com um pouco de pressa hoje.

- Ahn… OK. – gaguejei, segurando a vontade de rir enquanto dava as costas a Andy e caminhava rumo às escadas. Eu nunca me acostumaria ao falso status de sobrinha de Pepa, talvez nem se ela realmente fosse minha tia. Comecei a subir os degraus rapidamente, ouvindo alguns barulhos de chaves e trancas, e nem bem cheguei ao primeiro andar, Pepa já estava ao meu lado, ajeitando apressadamente uma mochila nas costas.

- Bem na hora. – ela ofegou, me dando um selinho rápido e logo depois me puxando de volta para o térreo. Mesmo estando totalmente confusa com a pressa dela, me deixei levar por sua mão, cujos dedos estavam entrelaçados nos meus antes que eu me desse conta.

- Pra que essa correria toda? – falei, franzindo a testa, e Pepa revirou os olhos, como se a resposta fosse óbvia.

- Todo o tempo que eu tenho com você nesse fim de semana tá cronometrado. – ela explicou baixinho, enquanto chegávamos ao térreo. – Pra aproveitar ao máximo cada minuto.

Pepa sorriu pra mim, empolgada, e eu logo vi seu sorriso radiante refletido em meu rosto involuntariamente. Aquele sorriso tinha poderes sobrenaturais, eu sempre soube disso.

Passamos rapidamente por Andy, que nos cumprimentou com um aceno distraído de cabeça, e logo chegamos ao carro. Deixamos nossas mochilas no banco traseiro e na mesma pressa de antes, entramos no veículo, que não demorou a arrancar. Pepa ainda ostentava um sorriso, ainda mais largo que o anterior, e eu estava começando a ficar ansiosa de verdade. O que ela estava aprontando afinal?

- Essa é a sua última chance de me deixar menos ansiosa e me contar pra onde estamos indo. – suspirei educadamente, após alguns metros percorridos em silêncio. Ela ergueu uma sobrancelha, sem me olhar, e um sorrisinho começou a brincar em seus lábios. Parecia que meu poder de persuasão não adiantaria nada. - Tudo bem. – voltei a falar, quando vi que ela não responderia. – Essa viagem poderia ser muito mais… Divertida, mas já que é assim… Você que sabe.

Pepa alargou seu sorriso de canto, balançando negativamente a cabeça num falso tom de desaprovação.

- Então é assim que você acha que vai me convencer? – ela perguntou, finalmente me olhando de um jeito esperto. – Acha que eu não vim preparada pra resistir às suas chantagens?

Confesso que aquele olhar dela me deixou um pouco fora dos eixos. Ela já tinha olhado pra mim várias vezes daquele jeito convencido. Mas em nenhuma das outras vezes, os olhos que eu vi nela pareciam pertencer a outra pessoa como naquele momento. Senti meu corpo se arrepiar por inteiro, apesar de minha relutância.

- Te odeio. – revirei os olhos o mais naturalmente que pude, me encolhendo no banco do carona e fazendo Pepa rir. Ela sempre ria de tudo que eu fazia, fator que eu sempre usava como vantagem em momentos nos quais eu precisava disfarçar alguma coisa.

Continuamos nossa viagem, conversando de vez em quando, cantarolando as músicas que tocavam na rádio e fazendo coisas agradáveis que se podem fazer num carro (nada das coisas que você deve estar pensando). Eu sabia que estávamos saindo de Miami, mas como eu desconhecia os caminhos para outras cidades, até mesmo as mais próximas, nem tentei me localizar. Pelo contrário, após uma hora rindo feito louca das besteiras que Pepa falava, acabei ficando meio grogue e caí no sono. Só acordei por volta de uma hora depois, quando o sol já começava a baixar ao leste.

Me ajeitei no banco do carona, piscando algumas vezes pra por minha visão em foco. Olhei em volta, tentando descobrir onde estávamos, mas nada me parecia familiar. Definitivamente, eu nunca tinha pisado naquele lugar antes.

- Bom dia, bela adormecida. – Pepa brincou, colocando uma mão sobre a minha coxa e fazendo carinho de leve. – Eu e você sozinhas dentro de um carro e tudo que você faz é dormir? Que decepção.

- Você escolheu assim, não se esqueça disso. – lembrei, me virando pra ela sem conseguir conter um risinho, e ela retribuiu rapidamente meu olhar com um sorriso danado.

- Já estamos quase lá, só mais alguns minutos. – ela disse, passando as costas dos dedos em minha bochecha e voltando a se concentrar no trânsito.

Aproveitei o vento favorável que vinha da janela e o retrovisor do carro pra arrumar meu cabelo e dar um jeito na minha cara amassada, sem conseguir não sorrir quando ela insistia que eu era linda de qualquer jeito. Eu nunca me acostumaria ao “cavalheirismo” de Pepa.

Minha ansiedade aumentava a cada curva, até que ela virou numa rua deserta e estacionou seu carro na frente de uma bela casa de praia. Pepa desligou o carro, suspirando satisfeita e virando-se pra mim com a expressão ansiosa. Eu mal conseguia ter controle sobre meus músculos faciais, de tão impressionada com toda aquela beleza arquitetônica bem diante dos meus olhos.

- Então… – ouvi Pepa perguntar, estudando minha reação. - O que acha?

- C-chegamos? – perguntei, atônita, e ela apenas sorriu significativamente. Olhei pra ela, boquiaberta, e logo um sorriso de orelha a orelha se abriu em meu rosto.

Aquele lugar era lindo, e agora que o motor do carro não fazia barulho, era possível ouvir as ondas do mar quebrando em algum lugar perto dali. Simplesmente perfeito.

- Pepa, eu… Eu não sei o que dizer. – balbuciei, olhando pra casa e pra ela, sem conseguir me decidir em qual das duas repousar meu olhar. – É linda!

- Eu sei. – ela assentiu uma vez, carinhosa. – E é nossa por esse fim de semana.

Encarei seus olhinhos felizes e comecei a rir sozinha, maravilhada com aquilo tudo. Fernanda Ferreira só podia ser fruto da minha imaginação, era perfeição demais pra um simples e único ser humano. Onde eu estava com a cabeça ao pensar que alguém poderia estremecer todo o amor que eu sentia por ela, tão sólido, tão concreto que parecia uma diamante dentro do meu peito?

- Você não existe. – falei, mordendo o lábio inferior, e ela soltou um risinho divertido.

- Hm, eu existo sim. – ela discordou, fingindo pensar no assunto antes de voltar a sorrir pra mim com segundas intenções. – Posso até provar que sou bem real.

- Ah, é? – murmurei, aproximando minha boca de seu ouvido e escorregando a mão perigosamente pelo lado interno de sua coxa, próxima à virilha. – Então prove.

Pepa fechou os olhos lentamente, deixando-se arrepiar com meus carinhos, e acariciou meu rosto com sua mão, agarrando meus cabelos atrás da orelha.

- Comporte-se, mocinha. – ela sussurrou, enquanto distribuía beijos demorados e macios em meu pescoço. – Guarde um pouco disso pro resto do fim de semana.

Sorri, arrepiada com os beijos dela, e mordi o lóbulo de sua orelha, fazendo-o escorregar por entre meus dentes enquanto me afastava e voltava à minha postura inicial. Pepa me olhava, meio ausente devido à provocação descarada, e logo depois soltou um suspiro contido.

- Pensando bem, eu acho que devia ter te contado antes. – ela refletiu, assentindo de leve com as sobrancelhas erguidas. – Tenho certeza de que nossa viagem seria bem mais divertida.

- Sua tarada. – censurei-a, fingindo reprovação em minha expressão e voz, e ela me olhou de canto, sorrindo timidamente.

- Que tal entrarmos? – ela sugeriu, suspirando profundamente de um jeito dramático e me fazendo rir.

- Boa ideia – concordei, radiante. – Preciso ver se a casa é tão linda por dentro quanto é por fora.

- É ainda melhor. – Pepa sorriu, saindo do carro logo depois. Fiz o mesmo, me oferecendo em vão pra carregar alguma de nossas mochilas, e a acompanhei de mãos dadas até a entrada da casa. Ela tirou a chave do bolso e abriu a porta, lançando um breve olhar animado pra mim, que o retribuí com a mesma empolgação. Me senti uma garotinha diante de uma casa da Barbie em tamanho real.

Pepa me deu passagem para entrar primeiro, e eu a obedeci. Dei alguns passos dentro da casa, deslumbrada com a beleza luxuosa e ao mesmo tempo simples dos móveis e decoração. Era uma das casas mais lindas que eu já tinha visto, e se pudesse sonhar com alguma, definitivamente seria como essa.

- Linda, não é? – Pepa murmurou, colocando as mochilas sobre o sofá e se aproximando por trás de mim. Olhei pra ela, que logo parou de observar a casa para retribuir meu olhar, e assenti, maravilhada.

- É perfeita. – sorri, com o coração acelerado. Pepa me abraçou devagar pela cintura e colocou o rosto na curva de meu pescoço, me arrepiando com sua respiração calma e quente.

- Como você. – ela sussurrou, roçando carinhosamente a ponta de seu nariz em minha pele. Fechei os olhos, sentindo meu coração acelerar ainda mais, e me virei lentamente, até ficar de frente pra ela. Abracei seu pescoço sem pressa, observando enquanto minhas mãos subiam por seus seios, e finalmente devolvi seu olhar, muito mais feliz do que eu me lembrava que podia ser.

- Como você. – corrigi baixinho, aproximando nossos rostos e dando um beijinho de esquimó nela, que sorriu com o agrado e fechou os olhos. Aproximei ainda mais meu rosto do dela e toquei seus lábios com os meus, começando com alguns selinhos demorados e logo aprofundando mais o beijo.

Pepa espalmou suas mãos em minhas costas, alisando cada centímetro cuidadosamente. Foi descendo até meus quadris e me apertou contra seu corpo, automaticamente intensificando nossos movimentos. Nossas línguas se moviam em sintonia, num beijo cheio de saudade e desejo. Não havia nada tão cheio de sentimento quanto nossos momentos juntas.

Quando estávamos começando sufocar uma a outra sem a menor intenção de parar, uma coisa começou a tremer entre nós, e eu pulei de susto. Pepa não costumava tremer por lá quando me beijava, se é que você me entende.

- Mas que caralho. – ela xingou baixo, suspirando e revirando os olhos enquanto enfiava tremulamente a mão dentro do bolso do short e tirava de lá seu celular. 
Ah, tá, o celular. Ufa, minha namorada continua tendo excitações normais. E continua falando palavrões quando interrompem nossos amassos. É, ela continua a mesma Pepa de sempre. - Que é, sua puta? – ela grunhiu, fazendo um biquinho espontâneo com seus lábios vermelhos (o que só tornou meu riso ainda mais incontrolável e a fez rir junto comigo, mesmo que contra sua própria vontade). – A gente já chegou sim. Tá, valeu.

- Quem era? – perguntei, ainda rindo, quando ela desligou o celular com a expressão entediada e voltou a enterrá-lo no bolso.

- A proprietária da casa. – ela respondeu, hesitando um pouco antes de falar, e eu franzi levemente a testa, estranhando aquela pequena pausa.

- Algum problema? – insisti, enquanto ela voltava a me puxar pra si pela cintura – Talvez você não devesse tê-la chamado de puta.

- Não, não tem problema nenhum. – Pepa riu, voltando ao normal. – Ela é uma puta mesmo, não consegue viver sem mim.

- E quem é essa minha concorrente? – gargalhei, quase chorando de rir do jeito dela ao passar aquela boa impressão da pessoa. Estava tão entretida rindo que não consegui frear minha gargalhada a tempo de ouvir o que ela respondeu, nem mesmo depois de sua mudança brusca de expressão, de alegre para séria.

- Erm… É a Clarinha.

Uma sensação de ar sumindo de meus pulmões veio com força total, como se eu tivesse sido esmagada por um lutador de sumô. Pepa tinha me levado para passar o fim de semana na casa de praia da Aguilari? Era informação demais pra assimilar tão de repente. Minha expressão desmoronou, assim como toda a minha fortaleza anti-Clara. Estar numa casa que pertencia a ela seria um fato difícil de digerir.

- Eu sei que devia ter te falado antes, preferia até não te falar, mas… Me desculpe, Van. – Pepa murmurou, parecendo desconcertada. – Já brigamos por causa dela, e sei que vocês não se dão bem, mas… Foi a própria Clara que ofereceu a casa, e como eu adoro esse lugar e não tenho condições de conseguir nada igual a isso, aceitei a ideia na hora.

- T-tudo bem. – gaguejei, forjando um sorriso que mais deve ter parecido uma careta de dor do que outra coisa, mas que foi suficiente para aliviar a súbita tensão de Pepa. – Ela é sua amiga, eu… Eu entendo.

Entender era uma coisa. Gostar da idéia, ou melhor, me acostumar com ela, não me arrepiar com o simples fato de que aquela casa pertencia a Clara e saber que eu estava lá com outra mulher? Ah, isso era uma coisa bem diferente. Mas eu tinha prometido a mim mesma que não deixaria nada atrapalhar meu fim de semana com Pepa, e me apeguei a essa promessa.

- Bom, vou aproveitar a interrupção desnecessária pra te mostrar o resto da casa. – Pepa disse, me dando um breve selinho. – Você vai adorar a vista do quarto, ainda mais com o pôr do sol.

Me deixei ser guiada por ela em nosso tour pelos cômodos, totalmente absorta em pensamentos. Por mais que eu conseguisse sorrir de vez em quando com as descrições maravilhadas de Pepa sobre cada móvel, meu pensamento continuava distante dali, perigosamente próximo da proprietária daquela casa.

Imaginei por um momento se Clara já havia levado mulheres ou homens pra lá. Com certeza já… Mas quantos? Várias de uma só vez? Será que Fabien já teria passado um fim de semana com ela naquela mesma casa? Definitivamente, eu teria um certo trabalho pra afastar aqueles tipos de pensamento da minha mente.

Imaginar Fabien passeando pelos cômodos só de roupas íntimas (ou até mesmo sem elas), enquanto os olhos dela o acompanhavam, me causou uma súbita queimação dentro do peito, que eu logo reprimi furiosamente. Eu estava começando a me convencer de que tinha alguma doença psicológica incurável.

- Agora chegamos ao lugar mais lindo da casa. – Pepa avisou, empolgada, antes de abrir a porta de um dos cômodos no andar de cima. – Feche os olhos.

Suspirei, tentando relaxar, e obedeci. Ouvi a porta se abrir e logo as mãos de Pepa me guiaram pela cintura alguns passos pra dentro. O barulho do mar ali era bem mais alto, e um vento agradavelmente fresco e com cheirinho de praia nos atingiu após algumas passadas. Ela me mandou parar, e me abraçou por trás antes de sussurrar ao pé do meu ouvido:

- Pode abrir.

Fiz o que ela pediu devagar, e uma forte luz alaranjada infestou meus olhos. Estávamos na sacada do quarto, de onde podíamos ver uma faixa relativamente curta de areia estender-se até ser encoberta pelo mar sereno. O sol estava prestes a “tocar” a água no horizonte, irradiando laranja sobre tudo que havia abaixo de si e reinando solitário no céu, já que nenhuma nuvem ousara aparecer ao seu redor.

Aquela vista me tirou o fôlego. Pra mim, o pôr do sol era um dos espetáculos mais lindos da natureza. Sempre que eu podia, costumava ficar observando as oscilações de cores lindas e vibrantes no céu enquanto o sol se punha, refletindo sobre qualquer coisa ou simplesmente ouvindo alguma música. Era extremamente terapêutico, me deixava muito mais calma à noite e me fazia dormir melhor. Claro que com as reviravoltas dos últimos dias, não havia pôr do sol que me acalmasse, mas eu não deixava de tentar.

- Pepa… É lindo! – soprei, levando uma mão à boca em sinal de deslumbramento. Ela não respondeu, apenas soltou um risinho mudo e acomodou melhor seu queixo em meu ombro, com a lateral de seu rosto colada ao meu.

Aquela vista me fez enxergar as coisas com muito mais clareza, analisar todas aquelas preocupações que a lembrança de Clara havia trazido com mais calma, e até mesmo chegar a uma conclusão. Eu tinha que colocar em minha mente que eu amava Pepa e não precisava de mais nada. Tantas pessoas esperam a vida inteira para encontrar sua alma gêmea, e eu com meus míseros 17 anos, tive a sorte de encontrar a minha. Mas ainda assim, conseguia ser baixa ao ponto de pensar em outra pessoa… Ao ponto de tê-la traído com outra mulher. Aquilo me sufocou. A culpa e a censura me estrangularam, cruéis e dolorosamente justas. Clara nunca seria capaz de fazer por mim nem a metade do que Pepa fazia. 
Eu não podia continuar daquele jeito. Eu precisava acabar com aquilo.

- Se eu te pedir uma coisa… Promete que vai fazer? – murmurei, encarando o horizonte com os olhos apertados pelo vento.

- O que você quiser. – ela respondeu, também baixinho, como se tivesse medo de interromper o silêncio, e também porque não havia necessidade de falar alto com nossa proximidade.

- Por favor, prometa que vai fazer. – repeti, mordendo meu lábio inferior.

- Prometo. – ela falou, virando um pouco o rosto para poder me observar. – Não confia em mim?

Suspirei, sem conseguir não confiar nela, e assenti. Era impossível não confiar.

- Então me prometa só mais uma coisa. – gaguejei, sentindo minha voz falhar de nervoso. - Se um dia eu te machucar… Prometa que vai fazer pior comigo.

Pepa ergueu a cabeça, recuando com o pescoço pra trás até ficar com a coluna reta, e eu hesitei antes de olhá-la. Ela me observava com a expressão séria, confusa, e até um pouco desconfiada.

- Como assim, Van? – ela perguntou, com a testa firmemente franzida. – Como você poderia me machucar?

- Eu só quero que você me dê a certeza de que vou me arrepender amargamente do dia em que te fizer sofrer. – insisti, virando de frente pra ela, com o olhar triste. – Quero que prometa que não vai me deixar em paz sem me punir por uma injustiça dessas.

Pepa piscou algumas vezes, ainda sem entender, e eu esperei até que ela se recuperasse da surpresa e me respondesse.

- Você não me faria sofrer… Faria? – ela questionou, olhando nos meus olhos como se procurasse uma resposta pra sua pergunta ali. Sua expressão resignadamente assustada fez com que algumas lágrimas surgissem em meus olhos, num misto de vários sentimentos. Remorso, pena, raiva de mim mesma, vontade de voltar no tempo, vontade de me afogar naquele mar bem à nossa frente e me desfazer daquela vida que eu definitivamente não merecia.

- Nunca. – sussurrei, fechando os olhos e tentando não chorar, mas foi um pouco inútil. Dois segundos depois e minhas lágrimas estavam molhando a camiseta dela, assim como meus braços estavam abraçando-a tão forte que considerei a hipótese de estar machucando-a. Mas como ela me envolveu com seus braços quentinhos num abraço quase tão apertado, eu presumi que estava tudo bem.

Tudo estaria sempre bem, desde que eu tivesse Pepa ao meu lado.

E eu não precisava de mais nada.