cardumes

eu quero uma palavra que silencie o peito,
desacelere o sangue, faça poente a dor num olhar vibrante.
eu quero uma palavra que me lembre o azul tônico, inviolado,
que rasgue a carne e mostre a alma emborboletando a vida.
eu quero uma palavra que alivie os danos, acenda os opostos
e diga que o amor é o sol que morena a pele e faz vibrar a alma.
uma dança de cabelos trançados e fitas coloridas,
uma melodia de ossos floridos, corais e cardumes inesquecíveis,
um movimento lento e preciso pontuado na rotina do beijo.
eu quero uma palavra no formato exato do meu vazio.

Entre muitos

Sou quem sou.

Inconcebível acaso
como todos os acasos.

Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar.

Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual.
Alguém do formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.

Alguém muito menos feliz,
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.

Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.

Uma palha esmagada
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um sujeito com uma negra sina
que para os outros se ilumina.

E se eu despertasse nas pessoas o medo,
ou só aversão,
ou só pena?

Se eu não tivesse nascido
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?

A sorte até agora
me tem sido favorável.

Poderia não me ser dada
a lembrança dos bons momentos.

Poderia me ser tirada
a propensão para comparações.

Poderia ser eu mesma – mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

Wisława Szymborska (tradução de Regina Prazybycien)

Há um brilho nas extremidades

que não se desfaz,
desfaz o sol sobre o mar,
desfaz a velocidade das notas cantaroladas sobre o precipício,
desfaz o barulho dos cardumes na embarcação,
desfaz a lua, as horas e o tempo,
mas há algo que fica e que me conduz,
me conecta e instiga,
é esse brilho nas extremidades que fica,
que você deposita em mim e que nunca se desfaz.

Elisa Bartlett

Completa-me na língua do “e” meu bem
Conjuga-me Édipo e Elektra no mesmo verbo
Um querido movimento retrógrado do querer
Uma mãe para meu filho e pai para o eu filho


Nossas versões foram concebidas em movimentos latinos
Esse dito cujo conceber era em leito camurça coelho
Alice, não tenho tocas ou espelhos,
Porém espelho-me em esperanças inatingíveis


Extinto exorcista canoniza o leite materno
Como dádiva de amor eterno
Tal qual, o seu pai abandonara
E o mesmo interlocutor replica o teorema


Perdera o braço direito por possessividade
Omisso, omitira sua ira
Que sofra a tua digestão motora
Que por si só, já figura como natureza morta


A única dália exagerada
Seria a serviço do senhor monarca
E seu sucessor vestido de avida dollars
Desgraça carapaça esculpida na carcaça


Declamo sobre o leito aformo
Em detrimento de um lirismo
Considerado pelos prostíbulos
Como uniformidade de filhos


Póstuma hiperbólica advertia:
O consumo do bucolismo pelo bruxismo
Causaria ao isopor costume cardume atrito
Aproveita-te a paz fora do asfalto, por hora


O Estado estático economiza
A elegância eficiente escandalosa
E enche o esôfago de embaixadores
Equacionando a errática elipse

—  Dahlia, Pierrot Ruivo 
IV

Se chegarem as gentes, diga que vivo meu avesso.
Que há um vivaz escarlate
Sobre o peito de antes palidez, e linhos faiscantes
Sobre as magras ancas, e inquietantes cardumes
Sobre os pés. Que a boca não se vê, nem se ouve a palavra

Mas há fonemas sílabas sufixos diagramas
Contornando o meu quarto de fundo sem começo.


Hilda Hilst
Por algum tempo caminhei e vi pessoas indo por estradas sem esperança, sem vida e sem fé, esses “sem” tem o mesmo perigo de um grande “talvez”. As pessoas demonstram ser uma raça soberana, sem limites e cheios de si próprios na superfície, mas quando você sai do raso e vai para o fundo e enxerga o abismo dessas almas perdidas, percebemos que somos apenas peixes tentando achar o cardume certo, temendo ir para grandes mares com medo de tubarões e maremotos.
Somos frios iguais geleiras, mas quentes igual lava de vulcão, somos cruéis igual Hitler em seus melhores momentos, mas também somos bons como algum soldado que salva famílias em meio a guerras, podemos ser o que quisermos, ter dois sentimentos diferentes, mas nunca deixaremos de ser parte de uma evolução que só vai crescendo.
—  Jack Soares

Se chegarem as gentes, diga que vivo meu avesso / Que há um vivaz escarlate / Sobre o peito de antes palidez, e linhos faiscantes / Sobre as magras ancas, e inquietantes cardumes sobre os pés / Que a boca não se vê, nem se ouve a palavra / Mas há fonemas sílabas sufixos diagramas / Contornando o meu quarto de fundo sem começo. Hilda Hilst

Aprenda com Davi a não dar nenhum passo sem Deus [2Sm 5.23]. Cristão, se quiser conhecer o caminho do dever, tome Deus como bússola; se quiser navegar seu barco por ondas sombrias, coloque o leme nas mãos do Todo-Poderoso. Escaparemos de muitas pedras se deixarmos nosso Pai assumir a direção; muitos cardumes e areias movediças poderão ser evitados se deixarmos Sua Soberana vontade escolher e comandar.
—  C. H. Spurgeon, no livro Dia a dia com Spurgeon.
Eles estão na ponta do iceberg. Tão superficiais. Não fazem idéia da pressão que habita aqui no fundo. Estão contentes com o vento leviano e correntes banais. Mas aqui nas profundezas, na escuridão do desconhecido, estão reunidos os seres mais fantásticos. Encontra-se gigantes criaturas marinhas, e fantásticos pequenos seres. E mais no fundo, encontramos os poetas. Não só eles, temos pintores, músicos, e cardumes de artistas. Todos incapazes de sobreviver em uma zona superficial. Uns até preferiam estar lá, e os que tentaram explodiram. Quem habita aqui no fundo tem uma pressão interna colossal, que nos protege de nosso habitat hostil. Fomos programados para viver aqui, remoendo o que a superfície, em sua ignorância, deixa afundar sem o mínimo conhecimento de sua preciosidade.
—  Felipe Ponsoni