cardumes

eu quero uma palavra que silencie o peito,
desacelere o sangue, faça poente a dor num olhar vibrante.
eu quero uma palavra que me lembre o azul tônico, inviolado,
que rasgue a carne e mostre a alma emborboletando a vida.
eu quero uma palavra que alivie os danos, acenda os opostos
e diga que o amor é o sol que morena a pele e faz vibrar a alma.
uma dança de cabelos trançados e fitas coloridas,
uma melodia de ossos floridos, corais e cardumes inesquecíveis,
um movimento lento e preciso pontuado na rotina do beijo.
eu quero uma palavra no formato exato do meu vazio.

Se chegarem as gentes, diga que vivo meu avesso / Que há um vivaz escarlate / Sobre o peito de antes palidez, e linhos faiscantes / Sobre as magras ancas, e inquietantes cardumes sobre os pés / Que a boca não se vê, nem se ouve a palavra / Mas há fonemas sílabas sufixos diagramas / Contornando o meu quarto de fundo sem começo. Hilda Hilst