caralho

28-6-13
já faz um tempo
desde a ultima vez que escrevi pra você
mas não se preocupe,
eu só estava um pouco triste.
desculpe pelo sangue no papel
eu não to me sentindo bem,
o médico disse pra tomar remédios
mas eu duvido que ajudem
continuam me perguntando
sobre quando você morreu
e dói lembrar
que eu ainda te amo, sabe
eu sinto sua falta mais
que tudo
tá difícil de terminar
porque tem sangue
em todo lugar…
eu to indo te ver
por favor abra a porta

Preciso te contar uma coisa. Hoje faz um mês e cinco dias que estamos separados, não sei se você lembra ou se não faz questão de lembrar, mas também isso não importa. Tem dias que estou vagando tentando te escrever e só agora estou conseguindo colocar alguns rabiscos nesse papel. Tá doendo muito meu peito, não pense que você é o motivo dessa dor, mas a sua ausência é. Se lembra que a gente prometeu ser amigos? Então, apesar de estar disposta a ser tua amiga muita coisa mudou e como eu mesma falei: nada voltará a ser como antes. Apanhei muito pra poder tentar te entender apesar de'u mesma ser um puro caos, e por mais que meu coração não entenda algumas atitudes suas, minha mente entendia e entende e te dá razão. Você foi uma pessoa maravilhosa não só quando estávamos juntos, mas quando não estávamos também e continua sendo e não pense que estou te dizendo isso da boca pra fora, tô te falando isso de boca a dentro, te falando isso de coração, de peito aberto e alma também. Você falou que foi amor, e eu te disse que foi apego e continuo afirmando que era apego, até porque amor não faz sofrer se for recíproco e nessa história nós dois saímos magoados. Então, eu só quero que você não desacredite no amor. Se não dermos certo, quer dizer demos certo pelo menos por alguns dias. Mas se não for pra ser, não vai ser. E a nossa história por algum motivo foi escrita por linhas incompletas, páginas em branco e com um término muito breve. E a única coisa que tenho pra fazer é te escrever isso. E te dizer que passe o tempo que passar eu vou te querer muito bem.
—  Últimas cartas a serem enviadas, legitimei. 
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais. Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir para o nosso coração. Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil. Fácil é dizer “oi” ou “como vai?”. Difícil é dizer “adeus”, principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas.
—  Carlos Drummond de Andrade.
O pelotão estava em forma, a voz de comando foi enérgica e a fuzilaria produziu um único estrondo. Mas para Benjamim Zambraia soou como um rufo, e ele seria capaz de dizer em que ordem haviam disparado as doze armas ali defronte. Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partiria cada um dos projéteis que agora o atingiram no peito, no pescoço e na cara. Tudo se extinguiria com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta,coração, traqueia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos. Mais rápido que uma bala, o filme poderia projetar-se um outra vez por dentro das suas pálpebras, em marcha ré, quando a sucessão dos fatos talvez resultasse mais aceitável. E ainda sobraria um fiapo de tempo para Benjamim rever-se aqui e acolá em situações que preferiria esquecer, as imagens recocheteando no bojo do seu crânio. O prazo se esgotaria e sobreviveria um ultimato, um apito, um alarme, mas Benjamim os entenderia como ameaça de criança contando até três - um… dois… dois e meio… - e se deteria mais um pouco nos momentos que lhe pertenciam, e que antes não soubera apreciar. Aprenderia também a penetrar em espaços que não conhecera, em tempos em tempos que não eram o seu, com o senso de outras pessoas. E súbito se surpreenderia a caminhar simultaneamente em todas as direções , e tudo alcançaria de um só olhar, e tudo o que ele percebesse jamais cessaria, e mesmo a infinitude caberia numa bolha no interior do sonho de um homem como Benjamim Zambraia, que não se lembra de alguma vez ter morrido em sonho.
—  Chico Buarque, Benjamim.