capas de cd

Mantinha a espinha ereta.
Não era o que eu queria, mas o que eu precisava.
Como doem os maus-hábitos depois dos anos, entende?
Emplastros.
Eu abria a capa de um cd e deixava o aparelho engolir o disco.
Um álbum de 1994, roubado da estante de Pablo.
A espinha ereta.
Eu queria era contemplar constelações
ou assistir os documentários de Carl Sagan,
tentar aprimorar os dós do violino sem a espaleira
(maldita espaleira)
ou desenhar a minha percepção da vida em folhas pautadas para notas.
Mas eu necessitava manter a espinha ereta.
Então, deitava no chão azulejado,
um travesseiro oriental de madeira sob o pescoço,
e escutava todas aquelas histórias psicodélicas -
furtadas de Pablo.
Traduzia as frases de olhos fechados,
falavam sobre cocaína e plutão.
Mentalmente, anotava
“só senti o mundo girar uma vez,
só enxerguei a curvatura da terra uma noite,
só contei 9 cometas”
sempre as minhas memórias e saudade,
sempre as mesmas palavras.
Em que idade a gente passa a ter coragem de assumir as coisas verdadeiras?
As indubitavelmente verdadeiras?
Não há nada mais interior e claustrofóbico do que o rock progressivo -
exceto os braços de Pablo, quando choro.
É triste.
Saudoso.
E não sinto nem mesmo os meus braços nas noites de terça-feira, quanto mais os de Pablo.
—  C.