caetano-caruso

Conselho de mãe.

Menina, não perca tempo.
Não sofra antes dos dezesseis por amor algum. 
Pratique esportes.
Preste atenção nas suas aulas de inglês. 
E faça amigos. 
Escolha uma profissão que ame, mas que também te dê dinheiro 
porque a vida é mais difícil sem ele. 
Não use salto. Dê saltos! De alegria! 
Ao que me parece, a vida mal começou e já é generosa contigo. 
Agradeça. Não fale de boca cheia. 
Não reclame de barriga cheia. 
Mastigue e muito só que de boca fechada. 
Pense antes de falar. 
Pense antes de escrever.
Respeite os mais velhos, os mais novos e também os de mesma idade. 
Seja gentil e sorria… Mostre seus dentes. 
Daqui a pouco, muitos outros além desses seus quatro da frente 
estarão a te fazer companhia. Diariamente. 
E para que esta convivência seja boa e indolor, 
escove-os ao menos três vezes ao dia e use o fio dental. 
Se preciso for, nós te garatimos o aparelho. 
Então, você pode gargalhar a vontade. 
Brinque, sem se preocupar. 
Aproveite enquanto tem STAFF. 
Divirta-se! 
Aprenda a dividir seus brinquedos, suas conquistas e seus problemas. 
Tudo ficará mais leve se for dividido. 
Faça sua turma, assim desde cedo trabalhando em equipe, 
será mais fácil sua adaptação na vida adulta. 
Perdoe seus pais por toda projeção e expectativa.
Lembre-se é tudo amor em excesso.  
Durma. Sonhe. Cante. E se conseguir, monte uma banda. 
Seu pai ficará orgulhoso!
Aprenda a cozinhar. 
Aprenda a comer. 
Aprenda a rezar. 
Aprenda um pouco de tudo. 
Estude. Leia. Seja curiosa!
Entre no mar pelo menos uma vez ao ano.
Pise na grama sempre que tiver oportunidade.
Faça planos. Viagens. Compartilhe comigo. 
Compartilhe com todos. Monte sua rede de contatos. 
Seja verdadeira. Conte-me suas aflições e desejos. 
Quem sabe eu posso te ajudar?!
Escreva. Desenhe. Construa. Costure. Abrace. 
Plante coisas. Semeie. Cuide. Colha.
Tenha filhos depois dos trinta.
Flores dentro de casa.
Um cachorro pra chamar de seu. 
Uma companhia.
Case-se. 
Faça tudo, não necessariamente nessa ordem. 
Desorganize. 
E se eu fosse você, levava o guarda chuva. 
Não deixava de passar o protetor solar
e também não saía sem o casaco.

com amor,
sua mãe 

Nosso primeiro amor.


Clarice faz 4 anos.
E se tornou um exemplo de menina.
Olha Bento, como a Clarice come bem.
Olha Bento, Clarice está escovando os dentes.
Olha a sua irmã, como ela calça os sapatos.
Eu faço né mamãe?!
Estou comendo direitinho né mamãe?!
Olha Bento, agora eu não posso, estou obedecendo o papai.
Bento, olha a sua irmã como ela penteia os cabelos.
Ela está chorando? Não tem porque chorar.
Sua irmã não está fazendo escândalo. Pode parar!
É Bento, pode parar! ela repete.

Clarice é o exemplo.
Come alface e beterraba.
De garfo e faca.
Faz desenhos com concentração enquanto seu irmão
tenta em vão, fazê-la errar.
Clarice não erra. Tão pouco arrisca.
Cuidadosa que só.
Mantém a ordem enquanto eu deixo o caos invadir a nossa vida.
Organiza os frascos de shampoo e condicionador no banheiro.
Os brinquedos na beirada da cama.
Os livros por ordem de tamanho.
Clarice lê antes de dormir mas ainda não sabe escrever.
Apresenta peças de teatro inventadas em cima de um
banquinho laranja no meio da sala.
Compõe música e conta piadas.
Como foi que você cresceu desse jeito?
Eu perguntei esta manhã enquanto te cobria de beijos.
Foi você que me fez ser grande assim. Porque bebê é o Bento.
Sorrimos.
Assenti.
Depois que seu irmão nasceu você teve mesmo
que crescer na velocidade do vento.
E passou a fazer um montão de coisas sozinha.
Foi aí então, que nenhum de seus machucados
ganharam de novo qualquer visibilidade.
Todo mal estar foi questionado e em sua
maior parte esquecidos.
Isso não é nada!
Te tirei do colo tão cedo.
Porque o menino marrento que só,
desde os seis meses passou a te empurrar com
os pés dizendo que este espaço já não era seu.
E você filha, não perdeu nada.
Concedeu.
Com a maturidade que vejo faltar em um montão de gente grande.
Você cedeu seu espaço para ele.
Como quem entende que ele precisava demais.

E agora aos quatro anos te vejo linda.
Generosa e confiante.
Reconquistando tudo a sua volta.
Inclusive a atenção de todos nós.
Pais e avós. Muitos amigos.
Todos mais tranquilos, você percebe.
Tomou a cena.
Entramos numa fase nova.
Na sua fase.
E você, como não espera nada de ninguém, logo se apresenta.
Puxa o banquinho laranja para o meio da sala, pede atenção e silêncio:
_Com vocês… Ela, Clarice!
Nosso exemplo. Nosso primeiro amor.

que sua generosidade
só aumente com a idade…
feliz 4 anos.
sua mãe.

Julho

A casa está quieta.
Você dorme. Clarice, deixei na escola.
Então, chegou a hora. Sentei aqui pra te contar.
Que neste mês foi seu aniversário.
E foi para mim muito especial.
Você fez dois anos e nós enfim comemoramos.
Foi sua primeira festa.
Teve o bolo de chocolate que deixou seu cheiro na cozinha por dias.
Cheiro que também fez parte da minha doce infância.
Teve as bexigas coloridas com todo fôlego de seu pai.
Sua vó, Clarice e eu enrolamos os brigadeiros noites antes do 20/07 chegar.
Que é teu e caiu num domingo de sol.
Também comemora-se nesta mesma data o dia do amigo.
E vieram muitos para variar.
Juntos enfeitaram a nossa casa.
Você mostrou alegria.
Brincou tanto, cantou parabéns e
soprou a vela com sucesso!
Me fez emocionar e uma lágrima deixar escapar.
Escorreu ela tímida, justo do meu olho direito.

Me fazendo pensar.
Cá estamos, todos dentro do mar.
De mãos dadas, nós vamos nadando.
Seu pai - nos guiando.
Cuidamos um do outro para não dispersar.
Nem frio passar.
Mas qual é o objetivo?
Vamos até o fundo.
E o que tem lá?
O desconhecido, o futuro.
Não sabemos como será.
E quando não dá pé?
A gente sabe boiar. Aprendemos nos últimos dois anos…
Tempestades passar.
O problema é que às vezes vem uma onda mais forte e outra em seguida.
Que nos faz apavorar.
E perder um pouco o rumo.
Naufragar.
Cair e rolar até a areia, na beira.
Ainda de mãos dadas nos ajudamos a levantar.
Diversas serão as vezes em que estaremos no raso outra vez.
E aí, só nos resta correr para dentro dele, o mar.
Para o fundo de nós.
Enfrentando a braveza, em ondas enormes de humor e amor.
Desenvolvemos certa determinação para passar a rebentação.
E cuidados extras para não se afogar.
Nem em lágrimas.
Foi você filho, que nos ensinou a nadar.
Tão bem…
Feliz aniversário!
com amor, sua mãe.

Sobre nossos monstros.

Só ontem me dei conta de que você tem medo.
E tem medo de monstro.
Monstro não, bicho - você mesma me corrigiu.
Então, deixa eu te contar um segredo.
Eu também tenho medo de um montão de coisas.
A começar pelo medo de adoecer e não ter mais como cuidar de vocês todos.
Este medo deve ser o mais comum entre as mães.
Então, não vamos nos prender a ele.

Tenho medo do escuro. Um clássico!
Você tem?!
Sabe quando de madrugada a casa está toda apagada?!
Me dá frio na barriga descer a escada pra buscar meu copo d’água.
Não conte isso pra ninguém.
Morreria de vergonha!

Tenho medo da combinação chuva + avião.
Mas nunca deixei transparecer. Você por acaso já percebeu?!
Meu medo de altura. Eu diria pavor.

Tenho ainda um tipo de medo da violência que não me imobiliza.
Então é medinho.
Medo de não haver amor.
E de que a nossa amizade enfraqueça com o passar do tempo.

Tenho medo das cirurgias de seu irmão.
Não é que eu não confie no médico ou não acredite no avanço da medicina.
Mas eu tenho medo.

Também de grandes mudanças.
Medo do outono, porque vocês vivem melhor no verão.
De envelhecer. Este é meu medo mais recente.
Acho triste em demasia.

E por falar em tristeza…
Tenho medo das tristezas dos mais jovens.
Elas tem tanta força que engolem a gente.
Tenho medo de não conseguir te fazer grande, segura, feliz.

De não te fazer rir.
Da gente não ir.
E de ficar só.
Este medo me acompanha há anos.
E se resolve nele mesmo. Ta vendo?!

Sabe filha, o bom de ter medo é que a vida nos ensina
a ter coragem e enfrentá-los.
Cedo ou tarde.
Temos que aprender a conviver com nossos monstros.
Ou melhor, bichos.
Encarando nossos medos diariamente.
Faz parte.
Certas dos perigos que corremos.
Um choro, um xixi, um susto,
um passo adiante bem pra perto da janela…
É assim que nos tornamos capazes.

Ps.: hoje vamos dormir de mãos dadas mas a luz será apagada…

Você - cada vez mais amiga do seu irmão.
Cada vez mais graciosa, meiga e companheira.
Você cada vez mais esperta, compreensiva e bonita.
Me enche de orgulho e admiração filha.
E o cuidado que tem com ele, o carinho que demonstra
por este moleque do teu lado, faz com que eu sinta
uma certa paz no coração.
Esta foto foi feita num fim de tarde incrível
e muito significativo para nós. Seu pai quem fez.
Estamos moramos no RJ e vivemos como se estivéssemos de férias.
É verão - no leblon.

youtube

direção de caetano caruso
animação de adriano moraes
desenho de luiza pannunzio