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O pior ainda estava por vir. Certo dia, em 1973, quando Cazuza estava com 15 anos, Cedália falou de suas desconfianças. Algo devia estar acontecendo, porque ela sentia um cheiro de colchão queimado no quarto de Cazuza e achava que aquilo não podia ser boa coisa. Então, aproveitamos uma manhã em que ele estava no colégio e fomos nós duas investigar. Encontramos um embrulho, alguma coisa envolta em uma folha de jornal amassada. Abri, cheirei e não tive dúvidas: era maconha! Na verdade, nunca tinha visto maconha em toda a minha vida, mas tinha aquele cheiro, aquele aspecto. Só podia ser maconha. Tomada pela cegueira momentânea que vem do ódio da impotência e da decepção, corri para o banheiro e joguei o embrulho inteirinho no vaso sanitário, apertando com força e prazer a descarga até que a água fizesse tudo desaparecer da minha vista. Quando Cazuza voltou para casa, eu não disse nada. Fiquei quieta com minhas costuras, só esperando. ele entrou no quarto e saiu de lá aos berros.” Lucinha Araujo (via c4zuza)

"Em 1976, ano em que cheguei aos 40 e Cazuza aos 18, compramos nosso primeiro apartamento próprio, uma cobertura na ladeira Tabatinguera, na Lagoa. Ali vivemos durante seis anos; na verdade, a fase mais conturbada da juventude de meu filho e onde descobri mais uma faceta desconhecida de Cazuza. Daquela vez, mais do que o choque em saber que usava drogas, fui obrigada a me revirar inteira para tentar entendê-lo e aceitá-lo. Convivi com um punhal fincado no peito e nada, nem ninguém, conseguia arrancá-lo para aliviar a tensão. Há algum tempo vinha notando um comportamento mais estranho ainda em Cazuza. Andava com uns amigos bastante esquisitos. E eu, cada vez mais desconfiada. O hábito invasivo de remexer em suas coisas me levou então a encontrar uma carta de meu filho escrita pra um amigo. Uma carta excessivamente carinhosa. O pensamento me dominava dia e noite e o pavor rondava meus minutos. Coração de mãe presente, sempre sabe a verdade, mesmo que batesse esperançoso como o meu, rezando para que tudo não passasse de um mal-entendido, um temor sem fundamento. Já havia sido difícil de engolir a questão das drogas. Na verdade, jamais engoli. Talvez eu seja uma das pessoas mais caretas que eu mesma conheça, mesmo tento convivido com pessoas inacreditáveis e maravilhosas que nunca esconderam sua opção sexual e o uso de drogas. Então, quando li a tal da carta amorosa de meu filho endereçada a um homem não me convite. O enfrentei com a pergunta curta e grossa, sem rodeios, diretamente ao assunto: "Meu filho, você é homossexual?". A resposta veio clara e equilibrada, mas não tranquilizadora: "Olha, mamãe, eu não sou nem uma coisa, nem outra, porque nada é definitivo na vida. Você pode dizer que eu seja bissexual, porque não fiz minha escolha ainda. Um dia posso gostar de um homem como, no outro, gostar de uma mulher. Então, não fique preocupada com isso". Nunca troquei informações com outras mães na mesma situação e, portanto, não sei como a maioria delas reage a essa constatação, mas o fato é que, no meu caso, a revelação foi devastadora." Lucinha Araujo (via c4zuza)

"Não só nas atitudes a mudança praticamente radical de meu filho era notada. Para quem cresceu se vestindo com elegância, a opção pelo estilo hippie me parecia inacreditável. O uniforme constava de calça jeans desbotada, rasgada e o mais suja possível. Camiseta Hering surradas, sandálias japonesas deixando de fora os pés sujos e cabelos compridos. Naquela época, ele os usava crespos, que, ao crescer, assumiam o aspecto de uma touca horrenda. Muitas, quantas mais melhor, fitinhas do Senhor do Bonfim amarradas no pulso compunham a figura de Cazuza nos anos 70." Lucinha Araujo (via c4zuza)

Registrado Agenor de Miranda Araujo Neto, meu filho sempre foi Cazuza, desde a maternidade. No Aurélio, significa vespídeo, uma vespa solitária, suja ferroada é bastante dolorosa. Ele só se deu conta de que seu nome era Agenor aos 3 anos de idade, quando foi para a escola, o Colégio Chapeuzinho Vermelho. Perguntava a mim mesma onde estava com a cabeça quando resolvi batizá-lo com esse nome. Até mesmo um irmão de João, registrado como Agenor, passou a vida sendo conhecido pelo apelido Baby, Cazuza só assumiu seu nome de batismo quando descobriu que o grande Cartola também se chama Agenor. (via c4zuza)

"Cazuza andava com uma turma da pesada, um pessoal do Leblon. E viajou, com essa turma, para um fim de semana em Itaipava com o meu consentimento. No domingo, as horas foram passando e nada de Cazuza voltar. Nenhuma noticia. Telefonei para a mãe de um garoto que tinha viajado junto e ela me disse que não havia nenhuma motivo para preocupação. Liguei duas ou três vezes ainda pra ela naquela madrugada e a resposta era sempre a mesma: não esquente a cabeça! Passei a noite em claro e, na manhã seguinte, Cazuza entrou em casa com a cabeça toda enfaixada, remendado com vários pontos no rosto. A aliança de casamento de João, com a qual gostava de desfilar, estava toda arranhada, faltando um pedaço. Foi um acidente grave. Na volta de Itaipava, o carro em que viajaram se desgovernou, indo parar á beira de uma ribanceira. Lembro que ele viajou com Caco Perdigão e Paulinho Soledade Filho, que, em consequência do acidente, passou um certo tempo desmemoriado. Fiquei louca da vida com aquela mãe, que me escondeu um assunto dessa gravidade, a pedido de meu filho. Talvez ela também não tenha resistido ao jogo de sedução de Cazuza. Mas pensei: onde está a solidariedade materna? E que responsabilidade ela chamou para si, me ocultando um acidente daquelas proporções?…" Lucinha Araujo (via c4zuza)

A pior constatação da minha vida foi descobrir que meu filho viveria apesar de mim. Era tamanhã a responsabilidade que sentia em relação a ele que, de repente, quando ele se transformou numa pessoa pensante-e, de modo geral, com uma cabeça muito diferente da minha-, me percebi totalmente impotente. Os conflitos em casa começaram a se intensificar a partir dos 12 anos de Cazuza. Meu descontrole dato do início da era da mentira. […] Cazuza fazia coisas mais perigosas, mais desafiadoras, como cabular as aulas e voltar para a casa no horário certinho, para que eu sequer desconfiasse. Só me dava conta disso quando conseguia, procurando muito, encontrar seu boletim. As brigas aconteciam na certa: uma gritaria dos dois lados. Tomei um susto enorme quando percebi que Cazuza havia herdado meu temperamento explosivo e um pouco mais.  (via c4zuza)

"Nos divertíamos muito nessa fase de rebeldia do Cazuza, fizemos muita farra. Várias vezes, no fim da noite, aparecia um violãozinho e ficávamos cantando blues até as cinco da manhã. Lembro que, numa dessas noites, cantando no meio da rua, nos atiravam ovos na cabeça. Eram os moradores dos apartamentos , indignados com o barulho. Desde garotos, do tempo do Santo Inácio, quando líamos Fernando Pessoa, Cazuza sempre compactuou com o seu conceito: ‘Prefiro me arder inteiro na vida, viver. Prefiro viver 30 anos a morrer velho!’, essa ideia de viver até as últimas consequências. Cazuza foi muito coerente com a vida dele". Pedro Bial (via c4zuza)

Eu perdi um pouco dessa coisa de humildade. Aprendi uma coisa que a análise me ajudou - a aceitar a minha grandeza, a aceitar o fato de ser bom. Porque te dá um medo filho da puta: ser feliz, medo de amar, medo de ser bom. Tudo que faz bem pra gente, a gente tem medo. E eu tô tranquilo, porque ocupei meu lugar e ninguém tasca mais. Foi o que sempre quis, era meu sonho. Cazuza (via c4zuza)