butyandra

Por que insistimos tanto em falar sobre o amor? Sabe, o amor faz mal, só que ao mesmo tempo tão bem. Além dessa dor toda, dessas lágrimas, tem os beijos, os abraços, os carinhos, tem tudo isso. Não precisamos jogar fora. Quando alguém pergunta dessa coisa aí -se é que podemos chamar de alguma palavra definida- sempre insistimos em dizer que é uma coisa tão linda ou é a pior coisa do mundo. Vai negar que pensas isso? Estão vendo? Insistimos em falar sobre o amor. Mas se existem tantos outros tópicos tão mais importantes, por que continuamos a querer falar sobre ele? Por que insistimos em entender algo que está fora da nossa capacidade? É tão difícil ignorá-lo. Liga a tv, filmes românticos e séries mais ainda, desliga a tv, vai a rua. Casais, casais e mais casais. Lê um livro, sempre tem aquele casal principal da história, desiste de lê, escuta uma música, e lá no meio da estrofe tem o tal. Amor, amor e mais amor. Mesmo que você não queira falar de amor, vai acabar falando de amor. Assim como eu, aqui e agora. Falando sobre algo que prometi nunca mais falar. Mesmo que você queira mudar o mundo aos dezesseis anos, sua existência não vai ser nem mesmo, um grão de areia, no meio de uma praia gigante. Comparado ao amor. Mas não cansamos. Ficamos nesse nhém nhém nhém. Falamos sobre sentimentos que nos provocam de uma maneira tão intensa quão devastadora. Sentimos. No fundo a gente sabe que tudo isso vai passar…E depois voltar, e assim por diante. Deveríamos ter um horário, ou melhor, não ter um horário pra sair batendo na porta de cada vizinho -que nos fariam bem- e irmos para o mundo afora com vontade de dar gargalhada; brincar e causar simpatia. Imagina como seria trocar isso de ir dormir com lágrimas no rosto por não ter amor recíproco por fechar os olhos como ultima visão a dos melhores amigos rindo; se satisfazendo pelo dia. Tudo ser de graça. Digo, essa coisa de gostar de alguém e ela te devolver o gosto, entende? Sentir fome. Fome de leveza à todo custo. E ter fastio de não se importar com as tristezas -que por acaso, procuramos-. Mas não, é tudo o contrário. O amor deveria nos fazer bem; ele nos faz bem. Só que cansa isso de ser o centro das atenções, dos pensamentos, dos sentidos, dos gostos e desgostos. O amor consegue se destacar mesmo sendo tão invisível. Engraçado, não? Até porque quando você olha pro lado e lá encontra alguém chorando, totalmente encolhida, secando as lágrimas, se sentindo pequena, você sabe, é o amor. Tentamos de tudo para afungentá-lo, para se livrar de vez dele, e esquecemos que ele faz parte de nós. Ele sempre volta e nos faz provar que é impossível viver sem ele, e chega a um ponto que você se joga nele pra esgotá-lo de vez.. E dor com paixão juntas formam o quê exatamente? Bom, não sei ao certo. Talvez um turbilhão de sentimentos. Esses que não conseguimos fazer sumir. Esses mesmos. Se você parar pra pensar, existe um tanto de amor em tudo. Existiu, existirá. Um caminhoneiro dirigindo na estrada escutando sua música bem alta e cantando com aquela voz grossa. Irei até rir se pensas que não tem amor ali. Um cuidado de amor. Sempre temos essa mania de pôr o amor em qualquer questão, relação, porque ele sempre invade qualquer tipo de conversa, discursão, ele sempre tá lá pra fazer parte e mudar ou deixar estável a situação. Dizem que quem ama não espera nada em troca, mas eu não acredito nisso. Quem ama, espera ser amado de volta. Quem ama quer ser amado na mesma intensidade ou maior que a mesma. Dizem que o amor é uma grande inspiração para a arte. Para escrever, pintar, atuar, cantar, eu já não penso assim, acredito que a dor é a verdadeira inspiração pra isso. E ela aparece quando amamos. E depois você junta teu coração de novo e vai se reconstituindo, e aí, quem sabe, encontre um novo amor numa esquina, num bar, num parque, ou sei lá, naquela rede social que você mal entra. E o ciclo se repete, até você achar o seu amor, a pessoa certa para você. Imagina se todo mundo tivesse medo, o que seria do mundo? Tem. Tem as exceções que partem pra cima. Elas vão mesmo. Não querem saber do que vai acontecer. Elas sabem que só vão rir, aprender, e depois no final do dia vão dormir. Elas se arriscam. O maior perigo do amor é amar. E o maior perigo de amar é o amor. Contudo, se amam. Cheios de pontes isso tudo aí, com encontros e desencontros. Com meu coração. Não conseguimos parar, até agora e não vamos. Impressionante é o modo de como o vazio foi feito com um molde do amor. Se de amor não for, vamos viver de quê?

Complexa demais; lotada por certos sentimentos recalcados. Garota esquisita, toda por fora, complicada, cheia de apegos e um tanto que de mistérios. Alguns deles, incompreensíveis para si própria. Gostava de pegar seu celular, um fone, fechar o quarto e aumentar aquela música ordinária o máximo que pudesse. Fechava os olhos e balança a cabeça como se só existisse ela e aquele tal som. Tudo ali era tão habitual, mas ela conseguia encontrar sempre algo distinto, não importava onde estaria. Arrancar-lhe uma gargalhada sincera estava se tornando cada vez mais difícil, mas seu sorriso ? Era seu eterno disfarce clichê e costumeiro. Por onde ia, levava ele como se fosse sua maior forma de proteção, de apoio. Tanto como apreciava o barulho elevado daquela tal música, também apreciava um silêncio profundo, onde ela poderia pegar uma folha, um lápis qualquer e guardar todas as suas sensibilidades e desgostos. Ou apenas ler. Gostava de ler, também. Grandes e intensos textos e ou livros. Era bom pra ela; como se a completasse de alguma forma. Também admirava o barulho crítico da chuva e do seu cheiro. Ela também podia passar o dia todo de pijama e descalça, sentindo a frieza do chão. Abria a geladeira, olhava um pouco e ia embora; fazia isso o dia todo. Observar os casais românticos e bobos tal hora parecia tão enjoado, tão seco, mas que para ela, era o necessário. Pegava seu casaco preferido, olhava a rua e cogitava em sair, mas somente isso. Não tinha vontade. Hesitações era o que não lhe faltava, sabe ? Sempre tinha incertezas consigo, nunca iam embora. Fotos de casais faziam ela puxar um “sorriso” franco ao lado do rosto. Ver filmes altas horas da noite nunca pareceu tão complicado. Tinha que ser acordada todas as manhãs e não queria sair da cama; por ela, poderia passar quase o dia todo lá. Indecifrável, era o que se poderia pensar dela. Com uma posse legítima de uma força que nem ela sabia que tinha, enfrentando bem lá no fundo, tudo e todos, fragilizadamente. Yandra Brito (maquia-dores)

Sempre tentou enganar todos a sua volta. Menina forte, fingia que não se importava, que nada a afetava, mas só ela sabia como se sentia. Como era aquela fraqueza que levava no peito. Todos ali tinham um pensamento diferente em relação à ela. Mas sabe, cada pensamento diferente parecia tão igual, tão nivelar. Mas era tão forte que não achava o tamanho disso dentro de si. Ela se perdia a todo momento, como se vivesse trocando de lugares, mas com as mesmas pessoas. Era a hora de mudar. Pelo menos pra ela. Mudar de vida, mudar de pessoas, mudar de sorrisos, mudar de histórias. Ela tava pronta. Ela só precisava acreditar. (maquia-dores) e Poetas Suicidas

Ser uma brisa. E tocar teu rosto e brincar com o sol e brincar com a lua e dar calafrios pra alguém, assim bem na nuca e fazer fechar os olhinhos e sair por todo canto e ser desejado por todo canto e montar um abraço em algum canto e namorar a vida. Bem ser, e mal ser. Eu quero. Morrer com um sorriso e viver com um e visitar o perigo e não falar nada. Ser o ar frio que respiras quando me pensa. Ser cafuné e ser pronunciado com vontade e com desejo e com história. Eu não quero. E não ligar e ficar chata e ficar empolgante. Brigar e cometer o erro 5 minutos depois. E dar uma rosa e receber uma rosa e querer sumir. E dar um banho no corpo e dar um banho na alma e dar um banho por nada e dar um banho. Pra mim tanto faz. Ser estrela e ser apontada em meio a melhor conversa e brilhar junto de todas e brilhar mais forte e ficar escondida e não brilhar. Esquecer o romantismo e viver o romantismo e não querer e querer. Ser criança e ser criança com você e fazer birra e fazer você fazer birra. E amar uma birra. Cheirar a comida e rir e não querer comer. Virar uma carta. E fazer lágrima cair e não ser enviada e ser a mais guardada e poder ser rasgada e ter perfume e ser sentimento. Virar o mal-humor e não desejar bom dia e xingar o filme por ele ser meloso. E ser melosa. Ser a varanda e ser pequena e ser grande e ser só ela. Rir no escuro e sentir calor em algum canto. Abrir aspas e fechar aspas. Ser o avião e controlar tudo lá em cima e fazer todos admirarem e se sentir responsável. Ficar tua e ser tua e não deixar de ser tua e brincar de ser tua e odiar ser tua e mais ainda amar ser tua. Contar o tempo pra ver alguém e segurar um pássaro e soltar o pássaro. Não ser o pássaro, não ser nada disso e ser tudo isso e não ser nós e não ser só nós e ser, ser eu

Por um momento parecia que tinha aprendido a lição. Segurou o salto e andou no canto da rua sozinha. Debaixo de uma chuva forte e se perguntassem se não queria evitar o resfriado, iria apenas responder que já aderiu o amor. Do que adiantaria agora, não é mesmo? Seu coração mole nunca foi tão frio; vazio. Passou em frente a loja de doces onde costumavam ir, olhou com um tanto de queimor nos olhos e seguiu em frente. Suas lágrimas chegaram a uma tentativa de disputa com as gotas fortes daquela chuva. Era a dor suplicando por algo. Não podia mais andar pelas calçadas sem graça se não estampasse um sorriso clichê, como se tudo estivesse bem. E nada nem ninguém media esforços para saber como estava. Agora, seu coração se mostrava fechado. Colocava uma blusa de banda e mais nada importava. Tudo na base do “tanto faz”. E como ali estava? Tanto faz. Normalmente uma boa música ajudaria, mas naquela noite, suas companhias vieram reforçadas. Mais dor, mais solidão. E lágrimas. Sentou na pequena mesa do lado de fora do restaurante que costumava ir toda sua infância e o garçom, que a via várias vezes na semana nem perguntou nada. Trouxe um café quente, um olhar piedoso e um sorriso calmo. Sua boca seca e já trêmula encostou na xícara e sentiu o calor do todo. Ninguém do lado de fora, tirando ela, o garçom e um homem que tinha acabado de estacionar seu carro. Que solitário. E cada vez mais amargurante, doloroso. Passou um tempo pensando na vida e seu café chegou a esfriar e mais do que devia. Era como sua vida estava ficando. Tomou tudo de uma vez, deixou o dinheiro em cima da mesa e pegou um táxi. Quando o motorista perguntou qual seu destino, respondeu calmamente: a felicidade.Yandra Brito (maquia-dores)

Tinha uma vontade inaceitável de gritar. Podiam entender que não queria perfeição e repetia: não queria perfeição. Parecia até que esse sentimento tinha vontade própria e apreciava a provocação que causava. Tinha necessidade grande de soltar tudo isso, deixar livre, mas talvez o medo se tornava mais forte, liderando tudo. A nostalgia aumentava, acelarava e não conseguia se conter. A inutilidade até parecia que queria brigar para mostrar que estava presente. Agora um sorriso. Era definitivamente outra pessoa para todos a sua volta que ali pensavam que seria alguém próspero. E tudo que escondia era a dor..dos outros, porque de si mesmo, apenas escondia que não aceitara tentar ser tão perfeito. Yandra Brito (maquia-dores)

Menino, você bateu tua cabeça em um poste? Eu sei, é que já tinha batido a hora do sono da tarde e eu já havia passado muito tempo sem falar com ele. Não é que fosse preciso eu sair de casa, deixando as portas até abertas, pra vê se o sinal do celular voltava, como se fosse funcionar no armarinho lá perto de casa, pra te ligar, porque aquilo já estava me consumindo, não, mas é claro que não. É que quando eu fiz isso, foi, eu fiz mesmo, um casal com imagem apaixonada estava saindo de lá, do armarinho, segurando três sacolas de doces e tudo quanto é porcaria que uma pessoa em um final de tarde poderia se deliciar com um alguém especial. Eles saíram felizes e eu estava lá com o celular na mão. Que droga. Eu que bati minha cabeça em um poste, junto, claro, com meus pensamentos, só que eles já eram assim todos birrentos desde que começaram a se questionar nesse mundinho medíocre enfeitado de amor, ou não? Cuspido de amor. Mas já chega de voltar pra casa, depois de ter comprado qualquer besteirinha, com o trocado que eu sempre costumo ter, abrir a geladeira e ficar pensando na vida, escorada na porta, se bem que isso é bom, relaxa e me dá mais vontade de nada. Foi então que decidi tomar um sorvete, sozinha, meu bem, sozinha e fui pensar na vida. Caminhava e na volta, passei em frente à um colégio onde, já que completava 6 horas da noite em meu relógio, as crianças do primeiro fundamental saíam felizes, saindo daquele lugar. Umas iam jantar fora com seus pais, e outras pra casa, ver a mãe depois do dia todo sem fazer o mesmo. Acontece que eu passei pra comprar uma garrafa d’água no quiosque ali perto e uma garota com lá pra seus 9 anos, que estava feliz comprando uma pipoca, me deu um sorriso. Minha vontade era de abraçá-la, e eu tenho quase a mais completa certeza que era porque eu queria muito teu abraço e queria descontar isso em alguém, então você poderia ter aparecido lá, não era meu bem? Voltei para casa e o celular ainda lá, em minhas mãos. E você poderia lembrar? Dos dias em que ligava pra meu outro velho celular e desligava na hora que eu atendia? Você imaginava? O que você sentia? Menino, você bateu a cabeça em um poste? Será que eu não poderia imaginar um momento em que eu fosse escutar música e não colocasse a nossa pra viajar, pra te pensar? Não minto, é que os minutos se transformavam naquelas gargantilhas de choques e me dava um bipe de realidade quando não te encontrava aqui. Mas tava tudo bem, no final no dia, eu iria te encontrar, em qualquer canto que seja, meu bem. Já era de costume quebrar uma parte da minha unha, e pensando em quem? Sai de mim. Não, não sai. E quando eu vou ler, que nem preciso dos meus óculos, mas vez por outra, procuro os meus antigos, em que, por ironia do destino, era os que você achava mais fofo, te penso. A inicial da sua letra simplesmente me faz deixar sem espaço em meu bloco de anotações; eu faço da mais torta até a mais perfeitinha. Mas o que você tinha ou tem? Não sei. Foi que decidiu me escrever de 3 horas da manhã suplicando pra que estivesse do seu lado, ou quando me mandou um grito quando estava em cima de uma montanha-russa, dizendo o quanto me queria ao seu lado. Alguém me disse. E esse tempo que eu não falava com você, porque eu precisava de tempo mesmo não falando com você, mas você falando comigo algo que não precisava estar sendo falado, mas que era, de outra forma. Menino, o que houve? Você tinha que lembrar de mim assistindo filmes melosos por enfatizar sempre que eu era compatível com a principal ou assistindo desenho, dizendo que eu era tão boba quão, tentando não dizer a mim o quanto amava desenhos, até mesmo naquele dia, como outra maneira, em que você se vestiu parecido com Romeu e sua maior vontade era deu perguntar onde estava os vestimentos de Julieta. Seria como eles? Não, nem eu queria, portanto, eu já tinha encontrado a resposta da pergunta. Você não bateu em um poste, você se esbarrou comigo, quando cansado de viver, foi andar no meio daquele lugar, e eu fazendo o mesmo, por ironia do destino, e pelo mesmo caminho, nos fizeram nossos corações, pareceram se chocar, ou mais do que isso. Lá se vai entender.
—  Uma renitência de amor - Yandra Brito (maquia-dores)

Trágico. Desesperador. Sua única companhia naquela noite era a solidão, se é que se pode chamar isso de companhia. Encostada na parede da cama, aumentou o volume da música e começou a olhar fixamente à um ponto tentando se desviar de todos os pensamentos rigorosos que lhe apareciam à cabeça. Agitava o pé como se estivesse sentindo algo extremamente ofegante. Já não sabia mais qual a temperatura exata dentro e fora de si naquele momento. Era constante. E mais uma vez, agravou o volume daquela música que parecia ter sido escrita para a própria. Olhou ao redor e notou a bagunça completa que conseguira fazer em seu quarto enquanto tentara comparar à sua vida. E insistia para si que não iria mais se castigar por nenhum erro, nenhum defeito. De repente, um dos fone caira e ela igualmente fez o mesmo tentando crer que ao acordar, tudo estaria desigual, como uma completa e rápida mudança de vida. Yandra Brito (maquia-dores)

“Destruir a ilusão”, isso parecia não sair da minha cabeça. E como se não bastasse o incômodo que ela me trazia, ainda chegava esses tais de apego, saudade e solidão. Não batem mais na porta. Vão simplesmente entrando, bagunçando tudo, então ficam por um tempo e vão embora. Aparece minha esperança de organizar pelo menos um terço do que se tornou uma completa zona e…elas voltam. Eu posso trancar a porta, mas elas entram pela janela. Eu tranco a janela, mas elas conseguem invadir. Como ? Eu devo precisar, por isso elas não desistem de mim. Isso não é irônico ? De tanto precisar de conforto, querer que desistam de você ? Mas que se cuidem porque pelo que me tratam, falta pouco pra eu criar uma armadilha e conseguir prender tudo isso que me faz mal. E até talvez se transformem pra mim de inimiga pra amiga, talvez. Mas estou aqui pretendendo a cada vez mais disfarçar […] só que infelizmente nada disso parece progredir. Yandra Brito (maquia-dores)

Londres, 14 de dezembro, 2008

De repente eu me deparei com uma necessidade horrenda de ir embora, me isolar, correr. Tava tudo confuso. Eu sentia que precisava sair e pra disfarçar um pouco a dor, eu fui pra uma praça. Aquela, que se encontrava no meio da cidade. Era quase 9 horas da noite. Peguei o primeiro casaco que avistei no cabide do quarto, as chaves da casa e fui. A praça estava despovoada, eu conseguia enxergar as folhas das arvores balançando por causa do vento grosseiro e várias pessoas indo embora. Umas, pras suas casas. Outras, pro mundo, sem destino. Sentei em um banco perto de um dos maiores quiosques da praça, olhei pra baixo e uma lágrima caiu. Era a dor, mas foi tão rápido que passei a mão e em segundos a lágrima se desmanchou em meu dedo. Quando levantei, observei um velhinho saindo, mas antes disso, ele deixou uma carta em minha vista com uma pedra em cima, para o caso dela voar. Minha reação foi curiosa rapidamente, mas deixei pra lá, não parecia ser do meu interesse, nunca foi. Dei uma volta na praça, olhei por um tempo a lua, empurrei um balanço como se tivesse alguém sentado. Então, já era 11:43 da noite, eu precisava voltar pra casa. Com as mãos no bolso do casaco, passei justamente em frente ao quiosque onde aquela carta tinha sido deixada. Olhei pros lados e peguei-a. Com uma certa aflição, pensei em ler em casa e fui. Já tinha passado da meia-noite quando sentei na cama e comecei a ler aquelas palavras tão misteriosas. Tinha escrito assim “Nunca desista, pequena. Seu sorrisinho é lindo, eu consegui vê-lo. Não se sinta sozinha. Persista sempre. As coisas mudam pro seu bem. Agora, joga essa dor fora e não esqueces que és especial. Nunca desista, pequena”. Ao ler aquilo, meu corpo ficou arrepiado e um rápido sorriso seguido de um suspiro se fez em mim. Dormi, no que se pode chamar de, feliz, nessa noite. E nas outras? Ah, eu ainda não tinha desistido. Yandra Brito (maquia-dores)

Trata. Trata de se cuidar. Vê se percebe que vivemos em sequências ininterruptas de mudanças. Eu sei que tá insuportável dentro desse coração que, até parece minúsculo pelo que já transformaram, porém eu sei que tens capacidade o suficiente para apenas dá um grande suspiro e persistir. Não fecha teu coração. Entendo que possa sentir algo como se fosse seco, desagradável, isso se tornou tão normal. Em um momento parece que todas as atitudes das outras pessoas são estúpidas, então de repente você não tira da cabeça de como seus comportamentos são assim. Definitivamente, é um asfixio de tanta confusão […] mas você tem que tolerar essas infelicidades. Vai passar. Agora continua a tratar. Trata de colocar um sorriso, não muito forçado e…resiste. Enquanto podesYandra Brito (maquia-dores)

Você me liga e diz que as coisas não estão muito bem por aí, mas eu sei que é só mais uma forma de você apenas vim falar comigo, porque cá pra nós, sua vida é morgada o suficiente pra você ter um grande problema e querer compartilhar logo comigo. Você diz que tais filmes são melosos, mas tem vontade de assistir filme meloso em noites cansadas por aí quando não consegue ninguém pra correr atrás de ti. Você tenta queimar uma pessoa o suficiente, bem aquela que você ama, só pra fingir pra si mesmo que tem alguém pra odiar, que em seu saber, te faz mal. Você vive provocando quem se provoca contigo. Você não tem o que fazer da vida e quando tem, só faz reclamar. Eu não gosto de ficar só lembrando de você o tempo todo e todo o tempo. Você não me aguentaria e nem mesmo aguenta me ver de camisola porque se sente atacado demais, então tenta evitar. Você finge o quanto gosta de escutar minha voz de noite, porque ela fica cansada, rouca e pra você, isso é tentador. Você odeia, assim, mortalmente, quando falo de outro garoto, mas eu também nem me importo porque você vive falando de suas amiguinhas e o quanto elas te fazem rir ou estão talvez presentes em sua vida. Você tem um desejo horrendo de sair o tempo todo comigo, mesmo cansando de mim o tempo que for cabível. Você acha engraçado eu estar descalça pra ver eu encolhendo meus dedinhos e sim, eu sei que você nota isso. Você não aguenta nem mesmo me ver lendo, que até arruma algo pra fazer, ou então me critica por algo que não tem correlação com o momento, e isso só porque eu estou fixando meus olhos pra outro lugar e isso te tenta demais, é lindo demais pra você, não é? Você tentou agarrar outra que não devia, mas escondeu o máximo pra mim, só que acontece que não ia dar certo. Como fostes tão ingênuo em esquecer disso? Você não tem o que fazer da vida. Você acorda no meio da noite, abre os olhos e nem sequer se levanta pra beber um copo d’água porque tem medo de ir na cozinha, então fecha os olhos e volta, e na manhã seguinte, nem lembra do sonho. Tanto faz como tanto fez mesmo. Se você sonha, você me conta do sonho. Você cria gostos e desgostos esquisitos por tais garotas que lá se vai entender. Você fica precisando de mim, porém, de um jeito tão absurdamente babaca. Você pode negar até onde for preciso e você pode não parar de falar isso, mas eu sei que você me ama. Você se apaixona por mim quando faço qualquer que seja a coisa, a fala, o pensamento. Há um dia, em um longe futuro de você perceber que dentre isso tudo, desse grudado presente, houve algo errado. Você não percebeu que isso tudo aconteceu. Você não notou o quanto precisava de mim e o quanto fui a que você mais precisava, mais queria e que tinha mais sede. Você queria outras e me mostrava as outras e mesmo por vezes, ainda não. Por entre tantas coisas inúteis que fazes por aí, ainda tive a ousadia de ficar aqui, te querendo, todo e qualquer momento. Você me amou, da maneira errada; com pensamento duvidosos; com atos ridicularizados; com palavras docemente amarguradas; e atitudes incertas, mas você me amou. Ficou tendo fome de mim, tem fome de mim e vai ter fome de mim, só que abusei da comida, mesmo sabendo que depois posso passar mal, porque alguém me disse que quando você se acostuma muito com um alimento durante um certo -e como longo e doloroso- tempo, ele de alguma forma te faz bem, então, no momento que você modifica ele, há certas alterações como a ausência daquilo que já foi tão habituado. Bem, é que não paro de sentir esses incômodos e não, nem tem você aqui pra fazer isso parar, criança.

Você me possuia de um jeito que ninguém poderia explicar. A sua voz é a voz mais tosca que alguém pode ouvir, mas eu poderia escutá-la o dia todo. Eu poderia ficar zoando sua voz até você se cansar e ir embora, mas eu iria pular nas suas costas e fazer você ir correr atrás de mim. Eu iria fazer você fazer cócegas em mim, apesar de ser um dos meus pontos fracos, mas eu iria amar só pelo fato de você tá fazendo isso comigo. Então, eu iria apertar seu nariz, sua bochecha e você iria fazer uma careta e depois estirar língua pra mim e eu iria dá uma gargalhada imensa. Nós iriamos sair de mãos dadas pela rua cantando músicas que eu tenho certeza que você iria errar a letra e eu ia te chamar de besta por não saber cantar nenhuma música. Depois eu ia falar pra alguém no meio da calçada que você é uma pessoa estranha e começaria a rir e você iria me olhar com uma cara muito engraçada. Depois você me levaria nas costas para uma praia bem vazia com um mar bem calmo e começaríamos a dançar. Você também iria tentar dançar algo à dois comigo e iria pisar no meu pé, e eu poderia te empurrar, mas você iria segurar minha mão e levaríamos uma queda linda. Os meus pais iriam amar você e meu irmão e ou meu melhor amigo ia ficar disputando sua atenção pra ficar jogando futebol ou algo do tipo. Eu sei também que o nosso casamento ia ficar na memória de todas as pessoas para sempre. Não seria aqueles casamentos exagerados, seria no campo e depois de eu responder a pergunta mais esperada de toda minha vida, eu ia olhar pra você e vê que finalmente eu sou uma pessoa realizada. Calma, calma. Eu contei isso tudo aqui, mas eu sou uma pessoa iludida. Quer saber? Que se dane, eu vou continuar sonhando. Yandra Brito (maquia-dores)

Chegava um momento em que eu percebia que algo me incomodava. Não era fome, nem vontade de um belo banho, nem sono, eu sabia que não. Era uma vontade piedosa, incontrolável. Eu segurava o celular; uma folha de papel como se fosse chegar à concluir algo interessante em relação. Eu precisava de vento. Minto, eu precisava de calor, se consegues entender. Um sinal de amor. Eu não podia ficar sem falar um dia com você. Faltava algo. Eu ia na padaria, ou só olhava o lado de fora de casa no final da tarde parecendo até que você fosse aparecer. Quem dera. Minha vontade era de ligar pra ti. O dia estava me proibindo da minha calma, do meu bem. Como pode fazer isso comigo? Estaria eu como em uma prisão à um sentimento estúpido de necessidade -com nenhum pouco de certeza- recíproco a ti. Eu apenas olhava para a câmera fotográfica ao meu lado com um desejo inquieto de ligá-la e ver fotos de nós dois. Não tinha. Um passeio nosso para ficar guardado em memórias viciantes, por favor. Também não tinha. Ao acordar, gostaria de abrir as cortinas e mostrar como o sol se mostra e ver-te sorrindo com uns olhinhos demonstrando sono, que ultimamente sinto saudades de ter, à noite, claro. Ter um café da manhã completo seria se eu olhasse para o lado e te encontrasse -em pé- colocando meu suco e me pedindo calmamente pra comer tudo que eu tivesse direito. O ideal também  seria eu esperar chegar quase 5 horas da tarde todos os dias, somente pra te encontrar e fazermos assim, um lanche da tarde; um passeio de mãos dadas ou até mesmo com você me empurrando só pra eu chegar mais perto de ti e nossos contatos -de lábios e olhos- se encantarem por tanta paz. Minha paz, nossa. Complicado é assistir um filme romântico, daqueles franceses; italianos ou de casais náufragos sem pensar em ti. Foi algo. Foi algo importante. Algo nos induziu pra nossa primeira conversa, lembra-se dela? Discretamente mostramos o quanto nos importamos com o futuro um do outro. Ah, meu bem, então que façamos dele cheio da gente. Um futuro com uma abundância fantástica de nós. Nem sequer preciso aprofundar o assunto da vontade indecifrável que tenho de te ligar; passar o dia falando com você e se for preciso, ficar em silêncio, imaginando como estarias do outro lado da linha. Não conseguia. Estava impaciente. Toda tentativa frustrada de tentar entrar em contado com você era impedido por algo, exceto a da minha mente, mas nem esse meio, não sabia se poderia ser recíproco. Peguei novamente seu numero que estava em uma gaveta, e disquei. Confesso que fiquei intrigado pelo ocupado, quem te ligaria a essa hora? Um pretendente talvez. Resolvi não imaginar, e ligar 30 minutos depois. Sua voz, tão dócil, e confortante, poderia ouvi-la por um dia todo sem parar, mas você sempre desligava 3 minutos depois por não haver resposta do outro lado da linha. Seria um começo falar meu nome, mas não mudaria algo, mudaria? Conversávamos grande parte do dia, por dois ângulos diferentes. Poupei grande parte do que não tinha coragem de dizer, recolhi e mudei o contexto, a única coisa que não tinha mudanças era o final, com um adeus seco, você saia e me mandava se cuidar, como se fosse possível ficar tranquilo com sua ausência. O anônimo que se preocupava era eu, demorava responder, porque tinha que atuar como dois personagens, um que se preocupava, e outro que escondia. Abria os livros, e cuidadosamente me iludia, estava já incapaz de imaginar algo que você não fizesse parte, era um amor com gosto de loucura, ao mesmo tempo que estava feliz respondendo suas perguntas, estava triste, formulando novas respostas. Para que fosse possível um dia chegássemos a um denominador comum, só faltava uma coisa, deixar de sonhar, e optar com acordar, por mais dócil que seja ter você em todos eles, despertar faz pensar que ainda estou em um dos meus pesadelos, me fazendo esquecer de viver, e esquecer de acordar. Yandra Brito (maquia-dores) + Sam (oquevocesignificaparamim)

Carta escrita por ela em uma plena noite de chuva forte

Está uma tremenda bagunça aqui. O frio até parece que só tá tocando a minha pele. Também prefiro parar de tomar esse café porque tem algo preso dentro de mim e ele não está colaborando muito. Meus olhos estão implorando um bom e longo sono, mas eu sei que se eu tentar, eu não vou conseguir. E esse sentimento aqui vai apertar e pode ocorrer que as lágrimas queiram e sintam necessidade de se esborrar por todo lugar. Mas por enquanto, estou tentando manter meu controle em relação à elas. Paciência. Força. É tudo que eu preciso me focar. Porém, toda vez que eu escuto esse som nervoso e ao mesmo tempo suave da chuva, eu me sinto mais cansada. Mas tudo isso vai passar, assim como sempre passou. Eu acredito. Não vou ficar aqui tentando me culpar por todos esses tais erros que cometi. Se você for tentar conceituar o que estou sentindo, acho muito provável que se complique em seus próprios pensamentos e desista em pelo menos segundo plano. Mas não precisa, até porque muitas vezes nem eu mesmo me entendo. Na verdade, quase sempre. Afinal, rapidamente tudo se torna tão desigual, distinto, mas a gente se acostuma. Então, aqui, eu paro de tentar depor tudo em um caderno velho e tão rabiscado. Vou acreditar que chegou minha hora. E irei continuar apenas sobrevivendo. Yandra Brito (maquia-dores)

E tinha aqueles momentos de recaída em que eu chegava a observar ofegantemente uma fotografia sua. Então, como em um mundo fantasioso parecia até que você saía daquela prisão cheia de lembranças sem mim e se mostrava ao meu lado. Era só um desejo meu, o que tendia a ser esquisito, afinal, sempre estavas longe demais pra eu te sentir. Digo, como se eu não conseguisse te avistar em meio as minhas necessidades escandalosamente silenciosas de ti. Mas, eu te sentia, só não me pergunte como. E lá vinha minha vontade estúpida e deplorável de te ligar e perguntar como anda sua vida, pedindo pra pegares o primeiro veículo já possível encontrado por ti e mostrar a quem controla o tal, um papel com a localização de onde moro. Eu te esperaria. Mas, como costume, irei então, tornar contínuo meus pensamentos à ti e permanecer nesse quarto, aonde a noite aparece por vezes, e com sua melhor amiga, quase irmã, a tal da carência. Mas eu te esperaria.

Mês passado, eu consegui a melhor nota da turma e claro, como sempre, me senti recompensada, e sim, gosto de guardar essas pequenas vitórias numa pasta de elástico de um caderninho que tenho como xodó no quarto. Cheguei em casa, passei a mão no pescoço da minha dálmata que estava sentada me observando chegar com a bolsa no ombro, entrei pelos fundos e parei. O pedreiro que estava trabalhando lá em casa ficou me observando, ele sempre foi tão calado, eu até ria porque eu me perguntava se eu ia ser assim, será que eu ia? Pois ele chegou, de lá mesmo, no teto da casinha do quintal, falou que minha mãe tinha saído e que ela mandou avisar que a comida já estava no microondas. Quarenta e cinco segundos, enquanto colocava o suco e comi, normal.

Fui assistir meu filme que uma colega chegou a me emprestar uns dois dias atrás e o telefone tocou. Acontece que estava a uns 10 passos de mim e toda minha vontade era do telefone parar de tocar, mas ele continuou. Depois de mais um toque, senti vontade do pedreiro ter “ousadia” de entrar na casa e aproveitar e atender, mas ele não entrou. Eu tive que ir, mas só que quando coloquei no ouvido,  parou. Acharia estranho, não? Ou normal? Voltei para a tv. Assisti meu filme. Quando terminou, fui tomar um banho porque sentia um calor que eu não gosto de sentir, nem quero mais sentir, porém, fazer o que?

Bateram na porta lá de casa, só que me disseram que eu nunca devia abrir porta pra ninguém quando tivesse um tanto que sozinha em casa, mas eu fui lá na cozinha vê na câmera quem era, mas não tinha mais ninguém. Foi estranho. Ofereci água para o pedreiro, e levei. Fui lá fora colocar ração pra cachorra, mas toda sua preocupação era sair e correr pelo jardim, pular em cima de alguém, tirar terra de onde não deve. Eu a soltei e sua primeira vista foi a cadeira onde o gato estava deitado. Agora foi uma briga, e bem da engraçada. Só que o gato nem ligava, ele só queria dormir, daí saiu e foi pra dentro de casa. 

Foi que o pedreiro disse pra mim que deixaram um papel embaixo do portão menor lá de casa e que não tinha nada escrito. Sua primeira ideia foi que deve ter sido algum menino de fundamental que volta do colégio com os amigos por aqui e vai fazer o que não tem que fazer. Era fácil de aceitar isso, ou sei lá. Deve ter sido. Ele me perguntou se podia jogar o papel no lixo, eu disse que sim, ele foi lá e jogou. E nada da minha mãe, e da minha professora de canto que deveria chegar meia hora atrás pro meu ensaio. Deu uma fome, fui ver o que tinha na geladeira e quando voltei havia uma mensagem na caixa de mensagem do celular lá de casa. É que cada um tinha o seu, mas por segurança, tinha um pra todos, caso alguém perdesse do nada e houvesse precisão. Quando fui ler, era apenas a palavra “sorrir” de um número que nem eu reconhecia a operadora. Poxa, cadê a minha mãe? Aquilo ajudaria em algo, ou não?

Minha professora de canto chega e começa o ensaio. Fomos lá pro quarto do primeiro andar, vizinho ao escritório da família e começou pelo violino, depois piano, depois foi aumentando minha energia, até partimos pra guitarra. Ela me deu umas folhas de exercício, que era algumas partituras, e exigiu que eu fizesse tudo certinho, ou ao menos tentasse. Foi embora com aquela bolsa que era bem antiga, mas eu achava linda e disse pra mim que tinham mandado um beijo e foi logo na saída, quando eu não conseguia nem mais avistar seu rosto. Eu perguntei, obviamente, quem era, mas ela não respondeu. Fui ligar pro seu telefone, mas no momento ela me deu sinal de não com a mão, quando ainda podia observá-la no final da rua. Será que aquilo era uma pegadinha comigo? Eu ri, no momento, mas o silêncio invadiu um pouco depois de um certo tempo. Fui pra cozinha e fiquei mexendo em meus dedos e pensando no que aquilo poderia me encontrar. Nada, nada eu conseguia juntar, não sei. E logo eu, que sempre tentava achar as respostas dessas dúvidas pertinentes que se existe por aqui, por acolá. Nada mesmo, não, e não minto. 

Fui tomar outro banho, eu gosto de banhos. Eles dão aquele barulhinho de água no chão que estrala nos ouvidos com um som bem agradável, bem bom, mas nada de suave. Coloquei um pouco de perfume, um de noite porque eles me faziam sentir vontade de tranquilizar tudo, lá se vai entender. Ouvi foi um barulho na pequena varanda do meu quarto. Não pensei duas vezes, na verdade, parecia nem pensar, eu corri pra cama como se algo fosse me proteger, entende? Mas não ia, não é? Eu deitei e ainda por cima, me cobri toda. Tinha nem acabado de pentear todo meu cabelo, mas aquilo nem importava na hora, era só o desespero, só a euforia, só. A portinha não abria, e eu não conseguia entender. A metade era de vidro, mas tinha uma parte que conseguia esconder algo. Medo.

Respirando forte, tentando não aumentar volume, lembrei do pedreiro. O meu quarto tinha um relógio imenso em frente à cama, redondo que sinalizava perfeitamente as horas. Já era hora do pedreiro estar em sua casa, tomado seu banho, jantado e assistido seu jornal. Por que a cachorra não latiu? Não era nada, não podia ser nada. Na verdade, tinha que ser. Um garoto, que não me deixou notar, no momento, nem seus perfeitos cachinhos e seu moletom cinza -um dos meus preferidos- entrou. Era o garotinho que eu via todos os dias quando menor, ao ir pro parquinho brincar de ser feliz. Acho que ele não sabia se sorria ou não, mas ele só me disse um oi e eu respondi como se fosse, não sei, meu irmão, também dizendo oi. Sendo bem claro, falei que lembrava dele e ele sorriu, mas com os olhos, mesmo tão paradinhos; brilhava. Tirou um papel rasgado e branco do bolso. Óbvio que lembrei na hora daquele nessa tarde e antes de perguntar, ele fez sinal de sim com a cabeça. Não teve coragem de escrever nada, mas veio até a mim. Como se fosse uma conversa bem longa, também concordou com o telefone; o interfone; o beijo mandado. 

Quem diria, digo eu, um silêncio dizer tanta coisa. Ele segurou na minha mão e disse-me que o amor existe, beijou a minha testa e me fez acreditar que vida real pode ser melhor que filme. Quando ele foi embora, me fez acreditar que vida real pode ser pior do que filme. Porém, a gente vive e é a gente, somente. Gente, o silêncio pode dizer tanta coisa. Não, eu não poderia passar uma vida inteira vivendo isso de silêncio comigo, contigo. Mas eu senti algo naquele minuto, do beijo; do olhar; do baixar da cabeça. Eu senti que o amor existe sim, e ele é bem curioso, bem diferente, bem troncho, um tanto relativo, mas ele é só. Ele aperta o coração na hora da saída, mas duvida não fazer correr na hora da chegada. É o amor. Yandra Brito (maquia-dores)