boreay

por teus olhos eudemônicos...

meu vislumbre se engasga em flores. teus olhos são um buquê de utopias boreais, vésperos, plácidos; teu olhar, pétreo, é um universo do avesso encrustado nas vísceras de uma borboleta. não há dimensões ou idiomas ou dilemas que os façam caber. não há horizontes. fitar teus olhos é submergir numa densa epilepsia. oceânica. apócrifa. é um céu de se afogar em pé, e as esmeraldas negras em teus cílios castos são telas irreais de anjos loucos, e a loucura foi um perfume criado no eclipse de seus desejos. teus olhos esculpiram o cosmo em suas insônias claras, ociosas. cada estrela louva-te o riso com a força do morrer, abajures celestes que rompem a física a iluminar tua passada mansa. as tuas pálpebras, ma chérie, são as plumas mortiças que cobrem a noite, nuvens suaves a sombrejar-me o lírico. não te sinto como outono a lacrimejar folhas de memórias tristes. tu me vens como a sensação de primavera assídua, cândida, florejando todo hiato entre coisa e outra. a sensação de ver-te assim, à queima-roupa, é perder a alma pro acaso, esquecer do fôlego intrínseco, ser tinta, verso e recorte, perder as asas ao se apaixonar por um abismo.

Annd Yawk

Irá, então, permanecer em meus olhos somente o que desnuda.
Irá encarar meus olhos apenas aquele que possuir
bravura e despudor.
Aquele que se aproximar da quimera
a ponto de ver o que lhe cobrem as escamas -
pele peito paz.
Haverá malícia entre os cílios
a malícia de quem se curva diante do buraco da fechadura
a malícia de quem busca o segredo do que é menor
a malícia do pó, dos pelos, do arrepio.
E da lascívia, brotará amor.
Da semente, do sensível.
Será preciso mirar o sol e ver não somente luz
mas erupções
tempestades
o isótopo fundamental
o gérmen
e as auroras boreais.
—  Claudia