boa pra caralho

Ah para né, como que se eu me importasse com quem fica ou com quem vai. Não obrigo ninguém a ficar ao meu lado não, ficam porque quer. Quer ficar? Tenha certeza que não irá se arrepender. Agora, quer ir? Dou até espaço pra sair. Ultimamente, não dá pra saber quem é verdadeiro e quem não é, e na boa? Isso é decepcionante pra caralho.
—  Escriturias

Sou boa pra caralho, ai a pessoa vacila comigo me abandona e depois de um tempo volta como se nada tivesse acontecido, se quer ir então vai, mas quando estiver na pior não precisa voltar. 😘

Capítulo 148 - Ponto final

Eu e o Matt abraçamos nossos joelhos e ficamos encarando um ponto fixo entre as ruas, casas e postes a nossa frente, enquanto ouvíamos sons que provavelmente nunca mais esqueceríamos vindo do andar de baixo.

Matt: Eu queria estar em qualquer outro lugar do mundo, menos aqui.

Engoli seco quando ouvi a Vicky fazendo um elogio que eu realmente não precisava ter ouvido.

Eu: Vamos fingir que isso não tá acontecendo.

Ficamos quietos, mas o silêncio absoluto não durou nem um minuto. Foi interrompido pelo ranger de vai e vem da cama de madeira do Fred.

Matt: Mano, não dá. - ele tapou as orelhas com as mãos.
Eu: Puta merda.
Matt: E pensa que, se a gente tá ouvindo eles, eles tão ouvindo a gente. - ele falou mais baixo que o normal.
Eu: Pode crer. - respondi baixo também.

O Fred e a Vicky deveriam nos agradecer pelo resto da vida, na boa. Era injusto pra caralho estarmos fazendo aquele puta favor pra eles sem que eles nem soubessem. Acho que eu merecia pelo menos um “obrigado”. Estávamos poupando a Vicky de um constrangimento e o Fred de uma frustração.

Matt: Pelo menos ele conseguiu o que queria.
Eu: Ele sempre consegue.
Matt: Mas não achei que fosse conseguir com ela, de verdade. Duvidei muito disso.
Eu: É.

Ficamos quietos de novo, o que foi uma péssima ideia, visto que os sons ficavam mais nítidos quando o assunto acabava.

Matt: Eu não queria falar isso, mas…
Eu: O Fred geme estranho.
Matt: MUITO! - ele tapou a própria boca logo depois. - Falei mais alto do que eu queria, mas é que eu tava pensando nisso.
Eu: Essa porra vai ficar ecoando na minha cabeça pelos próximos quarenta anos.
Matt: Nem brinca.
Eu: Puxa outro assunto aí, pelo amor de Deus.
Matt: A Vicky até que faz uns sons legais.
Eu: É.

Nessa hora ficamos quietos propositalmente. Pena que dava pra ouvir os dois quando fazíamos isso, e não só ela.

Eu: A participação do Fred tá estragando.
Matt: Mano. A ficou quieto pra ouvir a Vicky gemer. Socorro. - ele tapou as duas orelhas de novo. - Tá tudo errado.
Eu: Relaxa, daqui à pouco isso acaba.

Silêncio de novo. E…

Fred: Assim? Assim? ASSIM?
Vicky: Ahh… Ah…

Eles tavam falando cada vez mais alto. Olhei de canto pro Matt e, mesmo com a pouca luz, deu pra ver que ele tava vermelho.

Matt: Que merda. - ele falou com os olhos arregalados.
Eu: Pfff…

Tive que segurar a risada com a mão pra não cair na gargalhada. Que situação bizarra. Eu e meu melhor amigo ouvindo nosso outro melhor amigo transando com uma conhecida nossa.

Matt: Na moral… - ele segurou a risada também. - Que merda.
Eu: Eu to com dor de segurar a risada! - sussurrei.

Ficamos os dois rindo como velhos fumantes que não conseguem emitir som nenhum na risada. Só que no nosso caso, era de propósito. O Fred perdoaria qualquer coisa, menos que a gente estragasse a foda dele. Quando já estávamos cansados de tanto rir, tossindo e segurando as costelas doloridas, o Matt agradeceu (?).

Matt: Valeu. Sério.
Eu: Pelo quê?
Matt: Por isso. Por ter me feito ter dor de tanto rir de um bagulho idiota.
Eu: Ah. Não tem de quê.
Matt: Há poucos minutos atrás eu tava aqui, sozinho, pensando em qual seria o jeito mais indolor de me matar, e não vendo graça em porra nenhuma.
Eu: Veneno.
Matt: Han?
Eu: Acho que é o jeito mais indolor.
Matt: Tá maluco? Tu fica agonizando por horas, passando mal.
Eu: Tu realmente pensou nisso?
Matt: Não de verdade.

Ri de novo.

Eu: Relaxa, Matt. Vai passar.
Matt: To ligado.
Eu: Na real, já não tinha passado? Na última vez em que a gente conversou sobre a Larissa tu me deu uma resposta tão madura, alguma coisa parecida com “de que adianta ficar sofrendo se já acabou mesmo?”. Inclusive o que tu disse até me ajudou com a bad da Alícia. Por que isso agora? Por que essa recaída?
Matt: Era nisso que eu tava pensando agora. - ele suspirou, não parecendo muito animado com o assunto.
Eu: Se tu não quiser falar sobre isso, tá de boa.
Matt: Não, tudo bem.
Eu: Mas aí tu vai precisar emendar algum outro assunto porque eu não to a fim de ficar ouvindo o Fred e nem a cama dele.
Matt: Faz de conta que tem uma TV ligada num filme pornô. Fica menos pior.
Eu: Um filme estrelado pelo Fred. Não ajuda muito.
Matt: É. Enfim. A merda foi a seguinte: naquele dia em que a gente conversou, eu realmente tava bem. Eu superei muito mais rápido do que eu imaginei que fosse conseguir. Mas sabe por que tem gente que supera rápido e gente que demora pra caralho? Sabe a diferença?
Eu: Com certeza não.
Matt: A diferença é tu saber se ainda tem chance de continuar ou não. Tá ligado?
Eu: Não.
Matt: Tipo, quando tu termina com alguém e é término definitivo, quando as coisas ficam claras dos dois lados e tu tem certeza de que acabou, tu supera mais rápido. Quando é uma história que termina mal resolvida, que tu fica na dúvida se deveria ter terminado mesmo ou não, se um dos lados fica dando esperança, tu demora mais.
Eu: Faz sentido.
Matt: Quando a gente terminou, eu tinha certeza absoluta de que tinha feito a maior merda da minha vida e que ela nunca mais ia querer voltar comigo. Então, por mais que eu quisesse ficar com ela, eu tinha essa certeza de que nunca mais ia rolar, então eu aceitei logo e fiquei de boa logo. Tipo, ponto final, bola pra frente, aquela história toda de livro de autoajuda. Deu certo por um tempo.
Eu: Aí tu viu ela na festa…

Ele fechou os olhos e entortou a boca. Nem precisou falar nada pra que eu entendesse.

Eu: É. Foi mal por ter te levado lá.
Matt: Não, tudo bem.
Eu: “Tudo bem” o que, Matt? Para de ser tão bonzinho. Eu e o Fred fomos dois cuzões, nem pensamos no quanto isso poderia foder contigo.
Matt: Vocês não tinham como saber.
Eu: A gente só queria que tu parasse de ficar com aquela Raíssa.
Matt: É, tem mais essa ainda.

Ele esticou as pernas no telhado com cuidado pra não fazer barulho.

Matt: Eu não sei o que é pior. Tu gostar de alguém que não gosta de ti, ou alguém gostar de ti e tu não gostar de volta.

E de repente a frase profunda da guria maluca e misteriosa fez todo sentido pra mim. “O amor é um mal entendido”.

Eu: Mas tu não tava gostando dessa mina?
Matt: Tava. Sei lá.
Eu: Então não tava.
Matt: Por quê?
Eu: Tu saberia se estivesse.

Ficamos em silêncio. E dessa vez não veio nenhum som lá de baixo pra nos deixar constrangidos.

Matt: Eu achei que tava. Se pá eu só tava tapando os buracos que a Larissa deixou.
Eu: Que merda isso, velho. Tu parecia tão de boa. Eu ficava até com vergonha de pensar tanto na Alícia enquanto tu parecia ter superado a Larissa em poucos dias.
Matt: Cara, quantas vezes a gente fala que tá pouco se fodendo, mas por dentro tá se importando pra caralho?
Eu: Achei que só eu fazia isso.
Matt: A gente sempre acha que é mais fácil pros outros.
Eu: É. Na real, tá todo mundo igualmente fodido.
Fred: AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!
Eu: Menos o Fred.
Matt: O Fred tá fodendo.

Não é fácil ouvir teu amigo tendo um orgasmo enquanto tu conversa sobre o quanto se ferra em relacionamentos.

Eu: A gente devia ser mais como ele.
Matt: Eu não consigo.
Eu: Eu acho que é tudo uma questão de se acostumar, de enxergar as coisas de um jeito diferente. Tu podia começar tentando cumprir os itens da lista que ele te deu. - sorri.
Matt: Enquanto ele fica escrevendo listas de gurias pra eu pegar, eu fico tramando planos pra voltar com a Larissa.
Eu: Porra, Matt.
Matt: To sendo sincero. Mais sincero do que eu gostaria.
Eu: Matt, presta atenção… Tu viu a mina com outro, não viu?
Matt: Eu vi, mas tu não entende…
Eu: Para de procurar as coisas no mesmo lugar em que tu perdeu elas. Isso só funciona quando tu perde a chave de casa.

Ele apoiou o queixo numa das mãos. Tava tão na bad que a cabeça dele parecia pesar uma tonelada.

Eu: Pensa que foi legal enquanto durou. É uma merda ter tido um fim, mas pelo menos teve um começo. Tu entende?

Ele fez que “sim” com a cabeça.

Eu: Pelo menos tu viveu tudo isso. Agora tenta aprender alguma coisa com a bad e depois segue em frente. Ficar solteiro é legal também, tu vai ver. Tu só precisa girar a chave na tua cabeça. - repeti o mesmo conselho que o Fred me deu. Quem dira.
Matt: É assim que tu pensa sobre a Alícia?

Foi como se ele apertasse meu pescoço com as duas mãos.

Eu: É.

Tossi.

Eu: É sim.
Matt: Tu parece meio nervoso quando a gente fala dela.
Eu: Eu sempre fico. Sempre fiquei.
Matt: Mas tu parece bem na maior parte do tempo. Só fica estranho quando a gente fala alguma coisa mesmo.
Eu: É.
Matt: Mas vocês tiveram o ponto final, certo? Aquele que ajuda a superar.
Eu: Sim.
Matt: Beleza.

Silêncio. Por que ele foi puxar aquele assunto? Agora eu até queria que o Fred voltasse a transar pra cortar aquele silêncio esquisito pra caralho.

Eu: Tá uma bad esse papo.
Matt: Foi mal. Eu que to na bad. Tu não precisa ficar também.
Eu: Tu também não precisa. Vamo descer e beber alguma coisa.
Matt: Será que o Fred já…?
Eu: Aquilo me pareceu um orgasmo bem claro. Ele não vai começar de novo tão rápido.
Matt: Mas a gente vai entrar no quarto com os dois, tipo…?
Eu: Tu tem alguma ideia melhor?
Matt: É, não.
Eu: Se dermos sorte, eles já devem estar dormindo.

Nos levantamos com cuidado pra não fazer muito barulho e não escorregar do alto do telhado. A última coisa que eu precisava era de um braço quebrado.

Próximo capítulo: 14/09 :D