bia valle

Tá bom. Acho que entendi. Ser superior, ignorar, deixar antes de ser deixada. Não procurar borboletas mas deixar que elas venham até meu jardim. Esperar tranquilamente, porque o que tiver de ser será, e o que tiver de ser meu, vai ser. Não ansiar pelo que está por vir, pois no tempo certo tudo se ajeita. Tranquilo, acho que assim, tim tim por tim tim, não tem erro. Agora me explica o que eu faço com essa dor aqui no peito? Isso, essa aqui assim, bem no meio. Tem remédio na farmácia pra isso? Pelo amor do Pai, morro de medo de tarja preta! Jogo fora aonde? E a sensação de impotência? As pernas bambas, o excesso de lágrimas, a indisposição diante dos filmes de comédia romântica… E à noite, quando as perguntas afastarem o sono aos empurrões e eu ficar sozinha, encarando o branco da parede? Como é que eu vou fazer pra fechar os olhos sem medo de não topar de cara com as coisas que eu preciso esquecer? Só me explica isso, que o resto é fácil! Me fala: como é que eu deixo rolar se a minha vida tá totalmente chata? 

Bia Valle

Eu juro que não sabia que tinha como morrer de saudade. Um morrer em que você sente cada fibra do tecido muscular cardíaco se esticar e relaxar. Mas um morrer em que você vai se esfriando aos poucos… até que você se vê deitado no chão da varanda, de olhos fechados, esperando que o sol te ajude na tarefa árdua de se esquentar. No início é como se toda a atmosfera estivesse caindo sobre o seu peito. Depois, é como se você mesmo estivesse caindo na atmosfera. É o fim da dor e o começo do torpor. Eu só espero que a segunda fase chegue logo pra mim.

Bia Valle

Um dia alguém me contou um segredo sobre os contos de fadas. Ele me disse que eu não deveria esperar que a vida me desse um final feliz. Justificou que os contos precisavam daquilo, mas eu não. O final ainda não havia chegado pra mim. Ele me pediu que aquele momento fosse especial, mesmo que nem tudo corresse como esperávamos. Afinal, se nós dois não déssemos certo, aquela noite ainda teria seu valor. Eu acreditei. Entendi que muitas vezes sofri por escolha. Exigi da vida algo que não era da sua natureza me oferecer. Esqueci que os ciclos fazem parte de nós e que há coisas que precisamos perder. Esqueci que é isso que nos faz crescer. E agora, vendo a lua assim, que de tão brilhante me lembra o seu sorriso, entendi que há coisas - sentimentos e desejos e lembranças e fotos - que devemos deixar pra trás, por mais que nosso coração ainda espere por um final feliz. Talvez se ele entendesse isso, tudo seria diferente. Mas quem entendeu fui eu, o que significa que é hora de seguir em frente.

Bia Valle

Há vezes em que os ciclos me agradam, pois eu sei que certas coisas precisam de início, meio e fim. A vida é cheia de finais, para que outros começos existam. São inevitáveis e imprescindíveis.  É exatamente por existirem que  determinados momentos ou fases se tornam “inesquecíveis”. O problema é que o ser humano tem uma vontade intrínseca de que as coisas sejam eternas. Uma vontade deveras destrutiva, devo ressaltar. Confesso que meu maior medo não é das coisas que queremos que sejam eternas e não são, mas sim dos ciclos que começam semelhantes. Tenho medo, porque em mim há uma sensação de que, se começam iguais, iguais terminam. Tenho medo de que o nosso fim seja o mesmo daquele outro fim, que me quebrou de dentro pra fora. E é por isso que as vezes me pego pensando em não deixar que ciclos assim como o nosso continuem, mesmo que os resultados possam ser diferentes. É que eu também morro de medo de depender do destino e da sorte. Não combina comigo essa de esperar que o vento me leve pra qualquer lugar. Se eu quero, pego ônibus, metrô, gôndola ou o que for. O vento só me ajuda se for nas velas. 

Bia Valle

Eu olhei pra ele com os olhos úmidos e disse: Eu prefiro enfrentar a solidão do que estar com alguém que não seja você. E esse foi o meu sonho. Não, eu não estava dormindo. Eu estava dentro do metrô indo pra escola. Isso era o que eu gostaria que acontecesse. Eu diria essas doces palavras e ele me responderia daquele jeito desencanado, sorrindo pra mim como se já soubesse todos os segredos e truques que a vida pudesse um dia nos fornecer. Como se nada fosse surpresa e o mundo girasse por causa do seu batimento cardíaco. Nós iriamos naquele restaurante japonês que a gente tanto gostava e comeríamos o seu sushi preferido - que acabou se tornando o meu também.

Mas isso não iria acontecer, certo? Não mais. Não nunca. Eu não diria essas palavras estúpidas e sentimentais e adocicadamente enjoativas pra ele porque ele nunca foi do tipo de pessoa que gosta dessas coisas. E mesmo se eu o fizesse, ele me diria que não tinha jeito. Que ele não podia. Que ele não tinha tempo, ou seja, que não era prioridade. Ele também diria que não iria me beijar, como se para provar pra nós dois que era fim. Mas acabaria cedendo de qualquer forma. Ele não conseguia evitar.

Com ele as coisas sempre eram em escala de cinza e eu gostava disso. Eu gostava de que as coisas tivessem contraste, mas não me importava se as cores fossem branco, cinza e preto. Eu gostava, ele gostava e isso só bastava pra nós. Pelo menos eu pensei que bastasse. Eu tento evitar entrar no mérito de “onde foi que eu errei?” porque as coisas são assim simplesmente por serem assim. Na maioria dos casos, não há nada que possamos fazer pra evitar o fim. Relacionamentos confusos são a prova de que o amor supera os erros, por mais pesados que eles sejam.

Eu cheguei a conclusão que a maioria dos relacionamentos terminam quando uma parte se cansa da outra. Por alguma razão, muitas vezes desconhecida, um dos lados não vê mais graça nas brincadeiras, ou um dos lados deseja sentir novamente a excitação de uma paixão fresca. De fato, o porquê não importa. Nada. Absolutamente nada que você disser vai mudar a cabeça dele ou dela porque ele ou ela simplesmente não quer mais. Não está na hora, eles não estão preparados, não está funcionando. Não importa. Eles se cansaram. E eu acho normal isso de se cansar do outro. Eu fico frequentemente cansada das pessoas. Isso acontece e por favor, não tente forçar alguém a te suportar se ele ou ela está cansado. Só vai piorar as coisas. Apenas saia do caminho. Vá curtir sua dor de cotovelo e seu coração partido em outra esquina. Vá desperdiçar lágrimas no seu pijama sozinho(a). 

Duas palavras resumem toda essa situação: não importa. Poupe esforços, feche a cortina, tranque as portas. O show acabou e é hora de superar. Não faça como eu. Não saboreie sua dor como se fosse algo que lhe pertencesse. Não se espelhe no meu comportamento, porque eu gosto da dor. É a única coisa que restou dele em mim. Se eu lembro do seu rosto e sinto esse buraco no meu peito cansado, significa que ele ainda está lá. Que nós ainda estamos um pouco juntos.

O problema é que rosto dele está ficando turvo e eu odeio isso porque eu o amo. Eu amo o seu sorriso. Sua pele pálida e o seu olhos azuis… Ou seriam verdes? A imagem está cada vez mais turva e eu detesto isso. Seu cabelo claro e a sua voz cuspindo um palavrão no volante porque ele acha que está perdido. Eu amo isso. Ou talvez amasse. Eu amava ver ele trocando de música duzentas vezes e me perguntando se eu gostava de alguma delas. Eu falaria que odiava todas as músicas do mundo, apenas pra ver ele apertar os botões do som do seu carro com aqueles dedos longos de um pianista que ele nunca foi. Eu gostava de quando ele me olhava intrigado quando eu dizia algo inacreditável, ou quando ele parecia bravo com as minhas ironias e sarcasmos sem razão aparente.

Eu gostava dele e talvez até o amasse, embora nós nunca tivéssemos falado isso. Eu nunca precisei dele pra viver, mas tê-lo por perto era melhor do que ter todas as celebridades do mundo pegando no meu pé. Eu gostava quando ele me pegava no final da tarde de domingo ao invés do sábado a noite e não me importava em lanchar num trailer qualquer ali na esquina se era o que ele queria. Eu gostava de assisti-lo fazer todas as coisas que os mortais fazem, porque ele não parecia pertencer ao mundo mortal, finito e infinitamente insuficiente pra mim. Eu gostava de ficar orbitando em volta dele. Eu não precisava necessariamente pousar no seu planeta. Eu mesma seria um planeta e nós dois orbitaríamos um no outro. Perto mas nem tanto. Com ele mas não completamente e sufocadoramente. Eu gostava. Ele gostava. Deveria ter sido suficiente. Deveria ter funcionado. Mas isso não aconteceu e agora isso não importa mais. Não mesmo. 

Bia Valle

Eu não nasci pra essa história de não-ultrapasse-as-30-linhas e você-precisa-ser-alguém-na-vida. Porque como se sabe, reza a lenda que para ser não basta nome: é preciso conta bancária com saldo positivo, disciplina e muita garra. Isso mesmo. É vagabundo quem não quer trabalhar. Pois eu não aceito esse caminho que doutrinam-nos a seguir. Matar-se de estudar, de trabalhar, de correr, de falar, de gritar. Não aguento o batuque da britadeira. Detesto o acelerar dos carros, os jingles de publicidade e o soar agudo do sinal que reclama início do expediente. Quando é que teremos tempo para as sutilezas da vida e da história? Será que nos permitirão visitar os confins da Terra pra entender como tudo começou? É inevitável submeter-se ao sistema. Até poderemos fugir do caos urbano, mas apenas quando eles nos autorizarem.
Não nasci pra essas limitações fúteis da modernidade. Até entendo que alguns achem minhas idéias utópicas ou excessivamente subversivas, mas não suporto a mediocridade da raça humana que ignora esse universo imensurável e ininteligível que na Terra traduz-se apenas um pedaço. Eu nunca coube nesses espaços em branco que eles nos mandam escrever dentro. Desde infante odiava margear meus cadernos com régua e lápis colorido. Ainda bem que nasci sem asas, posto que certamente os céus também não me caberiam.

A gente espera pelo aperto de mão, espera pelo primeiro emocionante beijo, espera pelo pedido de namoro. A gente espera pelas férias, quando enfim poderemos descansar e se divertir e logo depois, estamos ansiosos pelo primeiro dia de aula. A gente espera pelos doces quinze anos, quando a gente vai poder ser tratado realmente como adolescente. Mas depois os dezoito nos apresentam infinamente mais atrativos, porque seremos enfim adultos. Ai, aguardamos a tão desejada carteira de motorista, que - na nossa cabeça - vai nos permitir ir a qualquer lugar a qualquer hora quando der na nossa telha. Aguardamos o resultado do vestibular e então - se Deus for bondoso - o primeiro semestre de faculdade. Ai então a gente vai ser independente, tomar nossas decisões. Vamos esperar pela resposta da primeira entrevista de emprego. Vamos esperar pelo pedido de casamento - a gente até vai ficar conferindo todos os copos em que beber, pra tentar não engolir sem querer a aliança - , pela mágica noite de núpcias e depois pela Lua de Mel. Ai a gente vai sonhar com o primeiro filho - cruzando os dedos pra ele nascer de olho azul - e talvez com o segundo ou o terceiro. A gente vai esperar ele crescer, esperar ele fazer 15 anos, depois 18 e depois entrar na faculdade. Ai sim a gente vai poder curtir o casamento. A gente vai esperar a aposentadoria - e depois torcer para que chegue logo o quinto dia útil do mês. Vamos esperar até o dia especialmente ensolarado, em que a gente esteja morando numa casa especialmente decorada, com uma varanda especialmente arejada, com duas cadeiras de balanço especialmente antigas, quando a gente já estiver especialmente velho, pra concluir que jogamos fora todos os momentos que poderiamos ser felizes porque estavamos esperando por algum outro que viria depois. Ou talvez a gente conclua que houve mais dias alegres que tristes e que a gente viveu cada um deles da melhor forma que poderíamos. Isso é uma escolha. Uma escolha que não dá pra esperar pra fazer. Tem que fazer agora. Antes que seja tarde demais.

Bia Valle

Já me chamaram de sensível. Também já ouvi filosófica, dramática, sonhadora, chorona. Isso sempre me doeu muito, porque me considerava fraca por receber essas características. Nunca neguei ser um pouco de cada uma dessas coisas. Eu admito. Sempre preferi ver o mundo um pouco mais novelesco do que deveria. Sempre acreditei que as pessoas pudessem mudar. Sempre preferi os livros de romance e ficção científica. Sempre confiei nos que me amavam. Sempre apostei todas as fichas nos que eu amava. Confesso. Já quebrei a cara muitas vezes. Já dei tiro no pé, tomei facada nas costas, levei tapa na cara. Já me decepcionei tantas vezes que já perdi as contas. Já amei tanto que cheguei a duvidar de ter amado de verdade um dia.

Toda vez que eu acordo e coloco o pé na rua eu me lembro de que o mundo não é misericordioso e de que as pessoas que o habitam não fazem muita força para mudar essa realidade. A maldade já nos esmaga por todos os lados antes mesmo da gente se entender por gente. E talvez seja por isso que eu prefira o meu mundo de cavaleiros, dragões, vampiros e mutantes. A vida me provou com todas as fórmulas possíveis que a maioria não gosta desse mundo meio mágico. Preferem a realidade malvada e esmagadora. No entanto, quando tudo está ruindo, sempre sou eu quem consigo segurar as pontas e manter o edifício em pé. As mesmas pessoas que me chamam de sensíveis, são as que me procuram quando sentem-se sem chão. Talvez por que sempre se mantiveram no mesmo solo, nunca tiveram a sensação de perdê-lo e por isso quase enlouquecem quando o veem se esfacelar por baixo de seus pés.

Eu posso ser sensível e ter sempre uma lágrima reserva pra cair, mas não tenho medo de agulhas nem de relacionamentos. Eu não perco o equilíbrio diante de insultos ou críticas. Os monstros debaixo da cama são meus amigos de infância. Sou forte como um cavaleiro e sou protegida por um magnífico rei que mora dentro de mim. O mundo pode tentar me convencer do contrário, mas eu aprendi que a força está no coração, na mente e na alma. Quem não sabe sonhar, não sabe viver. E eu, sonho acordada…

Bia Valle

Não quero fazer a lição de casa, nem arrumar a cozinha. Quero deitar na minha cama, dormir, pra sonhar - mas a menos que seja com ele. Já que eu estou longe demais pra tocá-lo, mordê-lo e apertá-lo, eu me satisfaço com sonhos - ou com a imaginação, que seja. Eu só quero estar perto dele. Senti-lo. Se eu ao menos pudesse ouvir sua voz… 5 minutos, é tudo o que eu pediria. Nenhum carro, nenhuma fortuna. Ele. Só ele, com todos seus espaços, cantinhos e segredos. Quero todos. Quero tocar todos, se ele deixar. Todas as suas singularidades expostas à luz do dia. Eu posso expor as minhas também, pra ele se sentir melhor. O quero inteiro, para saborear cada pedaço do seu corpo e da sua alma. Carente, clichê, sensível, tola? Dane-se. Eu só preciso de 5 minutos.
—  Bia Valle

Eu sinto o vento frio tocando a minha pele e fazendo meus músculos se tensionarem. Hoje é o dia mais quente desde que acabou o inverno mas mesmo assim eu sinto frio. Fazem oito meses desde aquelas seis semanas mas eu ainda sinto frio. O inverno deu lugar à primavera mas eu ainda sinto frio. Eu comprei um casaco novo pra substituir aquele suéter que você esqueceu pra trás mas mesmo assim eu sinto frio. Meu coração gelado, meu estômago gelado, minhas pontas dos dedos dos pés gelados. Eu coloquei lenha na lareira. Eu aumentei o número do aquecedor. Eu encostei minha pele em outra pele e ainda assim eu sinto frio. Um frio que vem de dentro pra fora mas que mesmo depois de meio milhão de xícaras de café, não passa. E ai você passa do meu lado. A vida passa a ser um pouco menos opaca. Eu engulo a uva-passa mesmo sem gostar, pra não fazer igual à ex-namorada que reclamava de tudo que você pedia. Porque é que você sempre me compara com ela? Meus cabelos são lisos e curtos. Eu nunca reclamo do que você pede. Não tem nada a ver. Mas aí você também passa. O tictac do relógio te prende de novo. Os seus horários de empresário e estudante e filho te levam embora de mim. O último minuto dentro do seu carro de playboy passa. O frio volta. Meus pelos se eriçam, mas não é por causa da sua risada. Agora meus dedos dos pés congelados estão ficando azuis só pra me lembrar da cor dos seus olhos. E eu repito meu mantra interior particular desde o primeiro último minuto dentro do seu carro: um dia isso passa.

Bia Valle

Se você parar para pensar, o Cristianismo, quando analisado com olhos simplistas e infantis, parece realmente duvidável. Um Deus de amor que “criou o mal”, te obriga a seguir um livro de regras que basicamente te proibide de degustar-se dos seus desejos mais naturais e que te manda para o inferno se você se recusar a aceitar tudo isso. Nessas palavras parece mesmo que Deus arromba a porta da sua casa, coloca uma arma na sua cabeça e diz: me ame ou morra. Como se a fonte de todo amor não soubesse que é impossível forçar que alguém te ame.

Temos que entender que para que se critíque algo de forma genelarista como se costuma fazer, primeiramente é preciso que se conheça aquilo muito bem. Porque, quando queremos fazer análises generalistas estamos centenas de vezes mais suscetíveis à  erros. Por isso, quando alguém me mostra um versículo da Bíblia que parece absurdo aos nossos padrões de vida atuais (versículos na sua maioria escritos no velho testamento) eu insisto em sugerir que leiam a Bíblia por completo. Isso porque é realmente difícil entender o evangelho de outra forma senão como um todo - a criação do mundo, a queda do homem, o sacríficio final, a redenção e a eternidade.

No entando, mesmo que alguém se dispusesse ceticamente a ler a Bíblia por completo, ainda assim não a compreenderia. Porque a Bíblia por sí só, pode se passar sim por um simples conto de fadas. A diferença está no momento em que você se dispõe a acreditar. Não me refiro a engolir os pastores medíocres, manipuladores e ladrões que vemos hoje em dia, e sim a abrir os olhos à possível veracidade do evangelho. Quando você abre essa oportunidade - ao invés de fechar a sua mente, acreditando que tudo SÓ pode ser uma mentira absurda - você permite que um outro fator entre em jogo. Porque, como eu disse, esse Deus que o evangelho cristão afirma existir, não arromba a porta da sua casa e te faz uma lavagem cerebral. A partir do momento em que você o permite, esse Deus  vai poder te provar sua suposta existência. E então, no momento em que você sentí-lo, não precisará mais de provas científicas que o justifiquem. (Afinal, não há nenhum sentido em querer provar a existência de um ser que não se econtra em nenhum objeto físico e suas relações com o meio em que vive, atravéz do estudo dos objetos e meios existentes. É como querer falar sobre pedras com a mesma exatidão que falamos de nós mesmos, seres humanos.)

E é exatamente por isso que enganam-se aqueles que acham que os cristãos são completos imbecis que acreditam em Deus como as criancinhas acreditam no coelho da páscoa. Porque se para mim o envagelho é importante, não é porque ele é totalmente plauzível - afinal, convenhamos que um homem que foi crucificado reaparecer vivo para os seus amigos três dias depois da sua morte não é uma coisa muito comum - e sim porque atravéz dele esse Deus em quem acredito pode se mostrar presente.

Portanto, é muito difícil convencer alguém da veracidade do evangelho e de Deus. Não é possível acreditar em Deus e não acreditar na sua palavra e quem o faz - ou diz que faz - não acredita no mesmo deus pregado pelo Cristianismo. Ou é tudo ou é nada. E enquanto você não entender e sentir tudo, realmente não conseguirá acreditar em nada.

Bia Valle

Tenho a sensação de que apenas me entregarei por completo quando achar alguém assim: meio a meio. Porque gente totalmente alguma coisa me deixa exausta. Detesto frequência, rotina, tudo igual e milimetricamente simétrico o tempo todo. Gente sem cantos não me fascina. Não há nada para ser descoberto depois que se quebra a barreira da etiqueta social chata e medíocre. Também não suporto depender de alguém. Suporto menos ainda que dependam de mim. Detesto esses tipos de relacionamento em que o outro é quase como uma necessidade fisiológica. Acho que tudo é bem mais simples quando cada um é si mesmo e pronto. Porque pertencer e possuir alguém por completo é destrutivo demais. A gente nunca sabe quando os laços vão se enfraquecer e quebrar e então, se você já pertencer inteiramente a outrem, como é que vai voltar a pertencer a si mesmo? 

Bia Valle

"Eu sonho acordada..."
Já me chamaram de sensível. Também já ouvi filosófica, dramática, sonhadora, chorona. Isso sempre me doeu muito, porque me considerava fraca por receber essas características. Nunca neguei ser um pouco de cada uma dessas coisas. Eu admito: sempre preferi ver o mundo um pouco mais novelesco do que deveria. Sempre acreditei que as pessoas pudessem mudar. Sempre preferi os livros de romance e ficção científica. Sempre confiei nos que me amavam. Sempre apostei todas as fichas nos que eu amava. Confesso. Já quebrei a cara muitas vezes. Já dei tiro no pé, tomei facada nas costas, levei tapa na cara. Já me decepcionei tantas vezes que já perdi as contas. Já amei tanto que cheguei a duvidar de ter amado de verdade um dia.

Toda vez que eu acordo e coloco o pé na rua eu me lembro de que o mundo não é misericordioso e de que as pessoas que o habitam não fazem muita força para mudar essa realidade. A maldade já nos esmaga por todos os lados antes mesmo da gente se entender por gente. E talvez seja por isso que eu prefira o meu mundo de cavaleiros, dragões, vampiros e mutantes. A vida me provou com todas as fórmulas possíveis que a maioria não gosta desse mundo meio mágico. Preferem a realidade malvada e esmagadora. No entanto, quando tudo está ruindo, sempre sou eu quem consigo segurar as pontas e manter o edifício em pé. As mesmas pessoas que me chamam de sensíveis, são as que me procuram quando sentem-se sem chão. Talvez por que sempre se mantiveram no mesmo solo, nunca tiveram a sensação de perdê-lo e por isso quase enlouquecem quando o veem se esfacelar por baixo de seus pés.

Eu posso ser sensível e ter sempre uma lágrima reserva pra cair, mas não tenho medo de agulhas nem de relacionamentos. Eu não perco o equilíbrio diante de insultos ou críticas. Os monstros debaixo da cama são meus amigos de infância. Sou forte como um cavaleiro e sou protegida por um magnífico rei que mora dentro de mim. E por isso tudo meu amigo, sei que sou forte. O mundo pode tentar me convencer do contrário, mas eu aprendi que a força está no coração, na mente e na alma. Quem não sabe sonhar, não sabe viver. E eu, sonho acordada…

Bia Valle