bairro bonito

Para as Cinderelas de hoje.

E eu choro. Toda vez que assisto ao filme da Cinderela, eu me derreto. Torço por ela, adoro ver a justiça sendo feita diante de situações de extrema infelicidade. É um conteúdo tão intenso: ver uma garota que transborda bondade ser mal tratada, humilhada e abusada diariamente e no final vê-la receber a ajuda da fada e conseguir realizar todos os seus sonhos e se tornar princesa… me toca o coração. No seu momento de maior dor alguém a viu, alguém do céu a salvou, fez mágica, fez o bem. Meu Deus, que bom que ela teve a fada madrinha, que sorte, que lindo… que mentira.

A quanta miséria ela estaria condenada se não fosse a mágica da fada madrinha. Eu choro por ver a mágica da justiça, mas também choro por saber que isso não existe na realidade.

Permitam-me chorar de alegria e emoção pela mágica da salvação no mundo da fantasia e depois vir aqui derramar minhas considerações pouco românticas, mas um tanto otimistas.

Enxugo as lágrimas e lembro que na vida real, não tem mágica, não tem fada madrinha. E a Cinderela ia ficar ali, escrava da madrasta e das suas filhas, eternamente infeliz. No mundo real a Cinderela tinha que se virar melhor. Tinha que ter uma psicóloga que a incentivasse expressar seus sentimentos, pensamentos e aos poucos aprendesse a não ser feita de boba. Ser boa é diferente de ser boba. Ela tinha que desenvolver habilidades sociais de enfrentamento, de independência, aprender a dizer “não”, mandar aquelas pessoas embora da sua casa e se virar pra ter uma vida mais digna sozinha. Poderia plantar e vender frutas orgânicas da sua horta, sei lá… se virar! Ela tinha que tentar por sua conta fazer mais justiça com sua vida e sua história, sem depender da fada. É tão bom ver a justiça ser feita, mas é melhor ainda poder participar desta conquista com nossas mãos. Porque nosso mundo é cruel e sem fada. Nem sempre a justiça é feita ao justo, ao bom, ao nobre de coração… bem diferente da fantasia.

Sem estas habilidades, iniciativas, amor próprio e comportamentos de independência ela permaneceria uma escrava. E quantas escravas Cinderelas estão na vida real, nas indústrias, favelas, casas de família, funcionarias de lojas, escritórios, prostíbulos? E cadê as fadas? Queria hoje uma chuva de fadas madrinhas. Que elas encontrassem cada Cinderela humilhada pelo patrão, violentada pelo marido, abusada por todos a sua volta e fizessem justiça por uma noite (até a meia noite já basta). Queria que elas recebessem carinho, que se sentissem importantes, lindas e valorizadas pelas suas qualidades. Que fossem iluminadas por holofotes brilhantes e escolhidas pra dançar com o rapaz mais bonito do bairro, de bom coração, de melhor intenção, o mais requisitado. Queria que cada uma se sentisse escolhida, resgatada do inferno e que toda sua luta e dor fossem recompensados antes do final da sua vida, antes de envelhecer no terreno das maldades. Fadas… cadê vocês? Se não existem, pelo menos me resta o conforto de que existem habilidades importantes de postura e comportamento que poderiam aliviar um pouco essa dor diária das Cinderelas. Aprender a falar “não”, ter mais amor próprio, não se submeter a tudo e a todos na rotina. Não é tarefa fácil. Mas esperar a fada me parece pior, vamos tentar Cinderelas?

Naquele dia, levantei-me e soube que seria um dia feliz. Abri os olhos, fiz minha oração, alonguei-me, fiz questão de por o pé direito primeiro no chão (não por superstição, longe disso, não tenho estas coisas), mas não custava começar com isso hoje. De pé, no banheiro, fiz as minhas necessidades diárias, escovei os dentes, tomei meu banho, vesti o mais belo dos ternos, que comprei para uma ocasião especial (eu sentia que aquele dia seria especial), usei o melhor perfume, calcei meu melhor sapato, peguei a minha carteira e sai. Sai sem destino. Era sábado e eu estava de folga, não haviam compromissos na minha agenda, eu já havia verificado. Andei por todo aquele Bel Air, 18°, um belo dia de sol, com uma brisa leve que sopravam nas minhas têmporas. Nunca tinha reparado como aquele bairro era bonito, acho que ultimamente eu não reparava em mais nada. Caminhei por horas, sem cessar, por que eu esperava encontrar algo que fizesse o meu dia valer a pena e eu sabia que isto estava logo mais a frente. Ao passar por todas aquelas casa, cumprimentava a todos, mesmo sem conhecê-los, desde os moradores dos ranchos aos habitantes das mansões de Los Angeles. Eu não estava acostumado a caminhar tanto, nem mesmo cumprimentar as pessoas ou até sorrir ao ver pássaros cantarem, geralmente o canto de pássaros me irritavam. No caminho encontrei uma bela florista que sorria pra mim, aquele sorriso me atraiu, era como se ela estivesse falando comigo sem mexer aqueles lábios, me aproximei como quem não queria nada e falei “Por obséquio, dar-me-ia a senhorita uma das flores mais belas das que possuis?”. Vi aquele sorriso crescer no rosto dela, suas bochechas coraram e ela respondeu tão baixo que não pude identificar as suas palavras. Ela agachou-se e pegou algumas peônias, que estavam na sua banquinha de flores. Ela os emendou com arames, colocou-os envolto de papel celofane, fez uns cachos e me entregou dizendo “Estas são as mais bonitas, senhor, em minha opinião é claro, e também uma das mais caras, se é que isto lhe importa”. Eu ri, isso a deixou um pouco desconfortada. “Pra quem são elas? Desculpe-me a petulância”. Olhei para ela, seus olhos brilhavam e mesmo desconfortada o seu sorriso não se desfazia. Era a pessoa mais agradável que eu já tinha visto “Bom, na verdade, eu senti a necessidade de compra-las, pois sinto que hoje é um dia diferente de qualquer outro e estou caminhando sem rumo e quem sabe lá na frente eu possa precisar delas… Desde que acordei, senti que eu iria encontrar algo ou alguém que fosse me alegrar. Acho que não vou caminhar mais tanto, posso já ter visto essa pessoa e não tenha reparado, pois estive meio distraído olhando as belas ruas de Bel Air. Se bem que… Você já recebeu flores?”. Fui um pouco importuno, mas perguntei. Nem todo o jardineiro tem jardim em casa, nem todo mecânico tem um carro, nem todo piloto de avião tem um avião, talvez a moça que vende flores nunca tivesse as recebido. “Não senhor, ninguém nunca me deu flores. Eu as colho do jardim da casa da minha avó, ela cuida de cada flor com muito amor e aprendi com ela que flores são como uma forma de demonstrar carinho e afeto por outras pessoas. Elas são mais incríveis do que as pessoas possam imaginar, possuem cores diferentes, cheiros diferentes… Pra alguns flores são flores, mas para mim… Ah, eu realmente não sei definir.” Eu parei, por um instante até que todas aquelas palavras fizeram total sentido em minha cabeça e cai na real, era ela. Ela era o “algo”, ela quem estava fazendo o meu dia feliz. Ofereci as peônias para ela e disse “Tome aqui então, senhorita, um pouco do meu carinho e do meu afeto, aceite-as, você me fez sorrir.”. Eu sai dali mais feliz do que podia imaginar ficar e aprendi que “Na vida, a felicidade se encontra nos gestos mais simples. Uma flor para você pode não ser nada, mas para outra pessoa ela pode ser algo especial. Que nem só por que você acha que teu dia vai ser belo, ele irá ser. Eu mesmo tive sorte de encontrar aquela mulher, tive sorte de poder reparar nas coisas que sempre estiveram ao meu redor e que se passavam despercebidas por mim. Que um sorriso atrai e que mesmo sem saber o nome daquela senhorita, eu encontrei a felicidade junto a ela. E quem sabe amanhã eu não volto lá compro mais flores e a chamo pra sair?!”.
—  Felicidade nas flores - Enzo Menezes

sou sexta-feira à noite de carro em um bairro bonito ouvindo indie

sou a mensagem que queria te mandar mas sei que aquelas declarações não são para mim

sou manhã nublada das férias acordada num sofá às 11 da matina

sou a carta que pensei em te escrever antes de pegar no sono e sonhar com você

sou a esperança guardada e sem sentido em meio a tantos fracassos

sou eu sem você

05, dezembro. 2016