azul branco

E se eu te falar que minha cor preferida é azul, preto, branco, e nunca uma só? E se eu te falar sobre as minhas preces e esperanças para um mundo que eu sei que nunca irá existir? E se eu te falar sobre minhas mágoas e traumas? Ainda assim você irá ficar? Ainda assim você vai querer cuidar desse coração que por vezes é insensível demais e não sabe demonstrar? Darling, aqui é arriscado. Eu não sei ficar, não sei fazer os outros ficarem. E, tudo bem, entendo que isso é uma questão de querer e ter força para vencer os obstáculos que surgirem, mas me dá a tua mão e me ajuda?
—  Yalen Raquel.
Azul

Ele era azul.
Um tom escuro de azul.
Não sorria muito,
Mas era bonito como o oceano.

Ele era azul.
Mas pela manhã tentava ser verde,
Espalhava a cor pelo rosto como uma máscara,
Enganando a sí mesmo,
Fingindo que era feliz.

Ele era Azul,
Assim como o céu depois do amanhecer.
Não tinha muitos amigos,
Mas era sozinho que criava as melhores melodias.

Ele era azul.
Seus olhos também.
Tentava ser forte, como o preto.
Pacífico, como o branco
Mas acabava parecendo vazio, como o cinza.

Ele era azul.
E amava o vermelho.
O olhava de longe, cheio de desejo.
Sonhava com o seu toque, o gosto de um beijo.
E acordava no meio da noite
Envolto em cobertas suadas.

Ele era azul.
Odiava isso.
E na madrugada, tentava ser neutro.
Perdia a consciência depois de tantas garrafas,
Quando o ar do quarto já estava cheio de fumaça,
Tentando de alguma forma suportar a vida
Tingida pelos tons frios.

Ele era azul.
Azul era a cor da sua alma.
Gostaria de ter a alegria do amarelo.
A nostalgia do laranja.
E receber o amor do vermelho.
Mas não importava o quanto tentasse,
nada parecia ser capaz de mudar  o azul refletido no espelho.

“A CHUVA”

Victor ajeitava sua gravata preta em frente ao espelho enquanto respirava fundo, se sentindo cada vez mais nervoso com o passar do tempo. Tinha chegado o dia, afinal. Depois de, finalmente, tomar coragem para convidar Yuuri para sair, crente que seria rejeitado no mesmo minuto, mas sendo surpreendido com um tímido “sim” da parte do mesmo que desviava seu olhar para esconder seu rosto corado, Victor tentava manter a compostura de um adulto, mas era impossível não parecer um jovem apaixonado.
Em um certo dia de chuva enquanto assistia TV, Nikiforov foi pego de surpresa com um desmaio repentino do seu cachorro Makacchin. O animal estava agindo estranho alguns dias antes, mas nada que fizesse seu dono pensar que era algo mais sério, porém, era. Às pressas, Victor saiu com Makacchin no colo ignorando a chuva que ensopava sua roupa e o colocou no carro para tentar encontrar alguma clínica veterinária aberta àquela hora, mas já era tarde da noite. Nikiforov conhecia bem a cidade, assim como as clínicas que lá tinham, e para seu desespero, ele não conhecia nenhuma que ficasse aberta 24 horas por dia.
Porém, depois de dar algumas voltas de carro, ele encontrou uma pequena clínica com a luz acessa. Na porta, havia um aviso que estavam fechados, mas o lugar clareado dava uma esperança a Victor que saiu do carro e bateu repetidamente na porta.
“Socorro! Por favor! Meu cachorro! Por favor, tenha alguém aí dentro! ”
Victor já estava chorando. Makacchin não era apenas seu animal de estimação, ele era sua única família e o mesmo estava com algum problema. Não dava para manter a calma naquela situação. Nikiforov estava desesperado com as duas mãos na porta da clínica murmurando “Por favor” repetidamente.
Quase que perdendo as esperanças, Victor ouviu o som do trinco da fechadura abrindo, o que fez seu coração se acelerar com aquela possibilidade de salvar seu cachorro.
Um homem de óculos de armação azul e um jaleco branco apareceu na porta com uma expressão de preocupação ao olhar para Victor.
“V-Você… meu cachorro… por favor” – Nikiforov disse.
“Entre! Rápido! ” - o rapaz disse.
Victor podia respirar novamente, mas não tão calmamente, pois ainda não sabia o que havia acontecido com seu cão. Mas o veterinário fez questão de acalmar o russo que molhava todo o chão da clínica com sua roupa encharcada.
“Você pode tomar um banho lá em cima. Seu cachorro teve uma leve arritmia, mas vai ficar bem depois de um repouso e alguns remédios. Não quero mais ninguém doente, ok?” – o veterinário falou calmamente e deu um sorriso simpático que acalmava Victor de um jeito estranho.
“Obrigado…” – o russo respondeu envergonhado.
“Tudo bem. Como o senhor se chama? ” – o rapaz perguntou indo até Victor para pegar a mão do mesmo.
“Victor… Victor Nikiforov”
“Senhor, Nikiforov, eu sou Yuuri Katsuki. É um prazer conhecê-lo. Agora não precisa ficar mais preocupado. Seu cão ficará bem! ” – ele disse com um sorriso no rosto.
Victor se sentia estranho ao olhar para aquele homem sorridente e que tinha acabado de salvar seu cachorro e, automaticamente, seu corpo se mexeu para puxá-lo para um abraço.
“Obrigado” – ele sussurrou deixando suas lágrimas de preocupação escorrerem.
Desde aquele dia, os dois começaram a se encontrar com frequência por causa de Makacchin que, apesar de não estar em perigo, ainda precisava de cuidados. Foi nesses tantos encontros, que o clima entre os dois começou a ficar estranho, tanto pela parte de Victor, tanto pela a de Yuuri.
Demorou para Nikiforov aceitar que estava sentindo algo por Katsuki, mas quando por fim aceitou, ele acumulou coragem e finalmente fez o convite para Yuuri, que acabou por aceitar, aliás, ele também estava se sentindo estranho em relação ao russo.
Por fim, o dia chegara e os dois se mantinham nervosos enquanto iam em direção ao restaurante que iriam se encontrar.
Victor deixou seu carro no estacionamento do outro lado do estabelecimento e ao sair do veículo, seus olhos avistaram um céu negro desprovido de estrelas, que apesar de ser visto como feio para muitas pessoas, para Victor era tão bonito como uma tarde nublada.
Ao entrar no restaurante, o russo parou na entrada após dar seu nome para confirmar a reserva, pois ao fundo, avistava Katsuki sem óculos e de cabelos puxados para trás enquanto lia o cardápio. Seu coração batia tão rápido que chegava a ser engraçado. Quantos anos ele achava que tinha, afinal? Victor já era um adulto! Mas desde quando há uma idade limite para ser um bobo apaixonado?
— Oi… - ele disse ao se aproximar da mesa.
— Victor… – Yuuri sorriu.
— Desculpa te deixar esperando.
— Tudo bem, eu acabei de chegar.
O silêncio pairou por um minuto entre os dois, até que a conversa se desenrolou como sempre.
O tom das vozes, os olhares, os sorrisos tímidos e até mesmo alguns sussurros, deixavam aquela situação um tanto mais íntima. Era um encontro no final das contas.
— Você está lindo… – Victor sussurrou comendo sua sobremesa enquanto encarava os olhos do outro.
Yuuri expressou surpresa enquanto sentia seu rosto se esquentar e logo desviou o olhar antes de sussurrar de volta:
— Você também está… sempre bonito.
Victor só conseguia sorrir enquanto sentia seu coração se aquecer. Ele sabia que estava sendo correspondido e isso já era o suficiente para estar tão feliz que poderia gritar.
Os dois estavam tão perdidos em um mundo apenas deles que quando foram pagar a conta para, finalmente, irem embora, perceberam que estava chovendo. A chuva estava forte o suficiente para ensopar os dois em questão de minutos.
— Vamos esperar? – Victor perguntou.
— Eu tenho um guarda-chuva. Podemos dividi-lo – Yuuri disse ao dar de ombros.
— Isso me parece uma ideia ruim, mas vou aceitar.
Katsuki abriu o guarda-chuva e um do lado do outro, os dois saíram do restaurante calmamente, mas o que eles não esperavam, era um vento forte levando a chuva em direção aos dois.
— Eu sabia que era uma má ideia! – gritou Victor ao rir.
— Ah! Vamos ficar encharcados! – Yuuri gritou.
Nikiforov pegou a mão livre de Katsuki e disse:
— Vamos correr!
Yuuri sorriu antes de aumentar seu passo junto com o do Victor, ignorando toda a chuva que caía sobre eles. Os dois estavam rindo demais enquanto corriam de mãos dadas para se importarem com a água.
Ao chegarem no estacionamento, eles correram para se protegerem da chuva em um estreito espaço coberto de uma loja fechada.
— Meu deus! Olha sua roupa toda molhada! Me desculpa, eu não deveria ter dado a ideia – Yuuri disse um pouco sem fôlego, mas ainda com um leve sorriso no rosto.
— Tudo bem, eu não me importo – Victor disse ao tirar seu terno e colocar sobre a cabeça de Yuuri. – Ele está um pouco molhado, mas…
Yuuri pegou a mão de Victor de modo suave surpreendendo o russo que parou de falar ao olhar para seus olhos.
— Tudo bem, eu também não me importo… – ele sussurrou.
A frase de Yuuri tinha vários significados e Victor percebendo nisso, se aproximou do rapaz fazendo-o encostar na parede atrás dele.
— Tem certeza? – ele sussurrou passando sua mão pelo pescoço de Katsuki.
— Você tem?
— Eu tenho…
— Então eu também tenho…
Victor se aproximou para permitir que sua boca ficasse perto da de Yuuri, sentindo suas respirações se misturando com a proximidade, para então acariciar sua bochecha enquanto encarava seus olhos. Para surpresa de Victor,
Yuuri fechou seus olhos esperando ser beijado, tirando do russo um sorriso satisfatório antes de deixar seus lábios saborearem os do companheiro que, por acaso, tinham sabor de bolo de chocolate.

Com a chuva, veio o desespero.
Com a chuva, veio a esperança.
Com a chuva, veio o nervosismo.
E com a chuva, veio o tão esperado amor correspondido.

Pois, em meio a tanta chuva, havia duas pessoas, que apesar de toda insegurança, finalmente aceitaram aquele sentimento que aqueciam seus corações que uma vez foram frios, mas que naquele momento, se derretiam mais rápidos do que um pequeno cubo de gelo em uma quente tarde de verão.

Escrito por: ~MaaS ❤

Artista: http://lordizxy.tumblr.com/