av. ipiranga

Quando Freud criticava o que chamava de sentimento oceânico, pus-me a pensar sobre como é de fato imergir e sentir-se pertencente àquilo que nos faz sentido. Se algum dia pude senti-lo, certamente posso descrevê-lo como o cheiro de uma planta desconhecida que sempre me senti privilegiado em sentir nas noites chuvosas em que voltava pra casa. Podia projetar a dinâmica dos meus pensamentos, indo e vindo e por vezes sendo caminho uns dos outros, apenas observando a Av. Pedro Álvares Cabral de cima da passarela Ciccilio Matarazzo. Nunca precisei de passaporte pra entrar em contato com os diversos países da Av. Paulista (apesar de ter que fazer um esforco a mais pra conhecer os orientais da Liberdade). Cada esquina com sua livraria, seu sebo, são mais portais pra mais países, mais peculiares. As mesmas ainda são figuras do nosso próprio brasilzão, com tanta violência deitada na calçada ou roubando pelo obstáculo - a pedra. Ainda são tantas simplicidades nas simples perguntas das moças velhas, nas óbvias conversas de motorista e cobrador, casais fora de si no fim da madrugada e nos ombros cansados do trabalhador noturno do fim de semana. Quantas coisas se encontram nas esquinas e nas calçadas? O suficiente pra que a Av. São João e a Av. Ipiranga virassem música. Pra que a estupenda beleza da Catedral da Sé brilhe os olhos. Ou nos vários jatos de bem-estar que cada árvore florida faz colorir os caminhos do Parque Ibirapuera em rumo ao lago central. Da bicicleta da periferia, do futebol na rua, o almoço na garagem do fim de semana, da família toda junta…

A arte dos muros.

A arte das ruas.

A arte das pessoas.

Freud só criticou a universalidade do ser porque não conheceu São Paulo.

CAP 09

Era a quinta vez que olhava as horas e não havia nem se passado nem 1 minuto desde a ultima vez que tinha olhado. O nervosismo tomava conta de mim, parecia uma adolescente no seu primeiro encontro. Provei meu guarda-roupa inteiro e nada parecia estar bom o suficiente. Sentei na cama de braços cruzados e pensava em mil desculpas para dar a Clara, pois não iria mais sair com ela. Mas antes que pudesse pegar o celular a campainha tocou, olhei assustada as horas e eram exatamente 20H em ponto. Me olhei no espelho dos pés a cabeça e a única coisa pronta em mim era a maquiagem. A campainha tocou novamente e os cachorros não paravam de latir.

Vanessa: Meu Deus!! O que eu faço agora? - pensei alto até de mais

Clara: O que você vai fazer eu não sei, mas que estou adorando essa visão eu estou - ela estava escorada na soleira da porta de braços cruzados, me fitava da cabeça aos pés com um sorriso provocativo.

Vanessa: Cla…Clara - eu fiquei em choque, não por ela ter me pego de calcinha e sutiã, mas por ela estar tão sexy. Ela estava com um vestido preto colado ao corpo que desenhava suas curvas e busto. Também estava com um blazer branco sobre ele. O cabelo estava solto, mas com cachos nas pontas, maquiagem preta esfumaçada nos olhos e um batom vermelho nos lábios.


Clara: Desculpa ir entrando assim, mas sua mãe praticamente me obrigou a subir. - ela enlargueceu mais o sorriso - Pensei que já estivesse pronta.

Vanessa: Tudo bem - dei um sorriso amarelo, enquanto vestia o primeiro vestido que estava próximo de mim. Estava morta de vergonha pelo atraso e principalmente por ela me ver daquele jeito. - Desculpe o atraso, perdi a hora.

Clara: Não tem problema, vai valer a pena - ela mordia o lábio delicadamente e aquilo que fez arrepiar - Ouvi uns latidos, mas não vi nenhum bichinho.

Vanessa: Eles estão no terraço - a olhei após calçar os sapatos e ela permanecia no mesmo lugar de antes.

Clara: São muitos ? - parecia curiosa

Vanessa: Uns 12 - sorri ao ver sua cara de espanto - São 8 cachorros e 4 gatos.

Clara: Isso é sério ?? - ela parecia não acreditar

Vanessa: Claro que sim, da próxima vez que vier vou te apresentar todos.

Clara: Então haverá uma próxima vez!? - ela sorriu - Vou adorar conhecer todos. - ela pareceu ser sincera.

Vanessa: Bem, se você quiser… é claro - depois que ela disse aquilo, fiquei envergonhada. Nem percebi o que havia dito, mas fiquei feliz com a sinceridade dela, demonstrava que ela tinha um interesse a mais.

Clara: Só você marcar - ela sorriu e em seguida olhou as horas.

Vanessa: Já podemos ir, estou pronta - ela me olhou e se aproximou. Aquele movimento me fez estremecer. Todas as vezes que ela faz isso, eu acabo me perdendo, sentindo coisas que não consigo controlar.

Clara: Não disse que valeria a pena, você está deslumbrante. - ela segurou minhas mão e me olhou nos olhos. - Melhor a gente ir, se não vamos acabar perdendo a reserva.

Vanessa: Claro, vamos. - Já estávamos descendo as escadas quando lembrei da minha mãe - Preciso avisar minha mãe que estamos indo.

Clara: Esqueci de avisar, ela disse que iria na casa da sua prima. - ela me olhou como quem pede desculpas e assenti.

Seguimos para o seu carro, ela fez questão de abrir a porta. Nunca nenhum namorado havia feito tal gentileza comigo, a Clara era tão atenciosa e delicada. Eu não queria admitir, mas cada vez mais ela me encantava. No caminho um silêncio absurdo predominou naquele carro, vez ou outra eu a pegava me olhando de lado e quando dei por mim, estava com meu olhos em suas coxas. Não sou de ferro e aquele vestido pareceu ficar muito mais curto quando ela se sentou naquele carro. Ela percebeu meus olhos fixos lá, mas na verdade isso foi antes de perceber alguns hematomas entre suas pernas.


Clara: Escorreguei no banheiro - logo que ela disse aquilo, fiquei super sem graça, por ter sido pega observando suas coxas. Quando assenti e desviei meu olhar para a frente, ela se moveu puxando o vestido e cobrindo o local dos hematomas. - Chegamos!


Era um restaurante chamado Terraço Itália, localizado na Av. Ipiranga no Centro. Antes que eu pudesse abrir a porta do carro um rapaz bastante educado abriu a porta e estendeu a mão para me ajudar a sair. Quando saí Clara sorria a minha espera, ela segurou minha mão e aquele gesto fez meu coração entrar em descompasso. Estava com vergonha, quando entramos no prédio e nos dirigimos até o elevador, todos os olhares pareciam nos acompanhar. Entramos no elevador e Clara disse algo a um rapaz que não consegui compreender, não demorou muito e descemos no 42º andar. Quando meu olhar se deparou com aquela sala, eu realmente pensei duas vezes o que estava fazendo ali. Era um lugar luxuoso e bastante sofisticado, tinha uma vista panorâmica voltada para Zona Sul da cidade que destacava a Av.Paulista. As mesas possuíam velas, no local também havia uma pista de dança. Não demorou muito e uma moça disse a Clara que o maître viria em seguida nos atender. Aguardamos poucos segundo até ele chegar.

Maître: Srª Aguilar, desculpe a demora. A sua mesa já está pronta, me acompanhem por gentileza. - Clara assentiu e nós o acompanhamos. Ele nos acomodou nas cadeiras,onde fiquei sentada de frente a Clara e pela nossa lateral era possível observar aquela vista maravilhosa.

Clara: O sommelier por favor - ele olhou pra Clara e assentiu. Em seguida um rapaz bastante elegante chegou com a carta de vinhos. - Prosecco Case Biache Vigna Del Cuc Brut. Obrigada! - ele se retirou após seu pedido


Clara: Vanessa, tudo bem? - ela parecia preocupada

Vanessa: Sim - fui curta em minha resposta, mas sinceramente, aquele não era o meu lugar. A maioria das pessoas olhavam para nós, já estava incomodada com aquilo. Fora que aquele restaurante era muito luxuoso, provavelmente um pedido qualquer ali era maior do que eu recebia em um mês de trabalho.


Clara: Espero que goste, este é um dos melhores restaurantes daqui. Eu vinha bastante  antes de me mudar pra Los Angeles - ela sorriu

Sommelier: Desculpe a demora Srª Aguilar - ele nos serviu e em seguida se retirou, não compreendia porque todos sempre pediam desculpas, eles não demoravam mais que 2 minutos para nos atender.

Clara: Vamos fazer um brinde - erguemos nossas taças - Que esse seja o primeiro de muitos encontros ao seu lado - bebemos e em seguida ela colocou sua mão sobre a minha e a acariciou.

Clara: Me fala de você, ouvi dizer que tem uma ONG. Me fale a respeito - ela soltou minha mão sorrindo em seguida.

Vanessa: Sim, mas ela não é bem minha. Tenho uma sócia… - fiz uma breve pausa, pensei e refleti a respeito, não iria dizer que minha sócia era a Pepa. - Nós recebemos animais resgatados, proporcionamos cuidados médicos, colocamos os que já estão bem cuidados para adoção e sempre fazemos feiras para arrecadar patrocinadores ou pessoas que os queiram adotar.

Clara: Seus olhos brilham quando você fala do seu trabalho. É simplesmente lindo o seu comprometimento com a causa - ela novamente colocou sua mão sobre a minha e sorriu doce - Gostaria de conhecer seu trabalho de perto, se não for incomodo é claro.

Vanessa: Obrigada, seria ótimo. Fique a vontade para a parecer por lá quando quiser - sorri sincera.

Chef: Boa noite senhoras. Srª Aguilar, como é bom revê-la. A quanto tempo não nos encontramos!? - ele sorria simpático

Clara: Pasquale, culpa minha eu sei - ela sorria - Sinto por isso, mas não poderia vir a São Paulo e não prestigia - lo.

Chef: Fico grato. Mas e seu marido, como está ? Estive em Los Angeles a poucos dias e não o encontrei, ele também está na cidade? - que situação ficar ouvindo o cara falar do marido dela, já estava incomodada com aquilo.

Clara: Ele está bem. Estava, mas voltou para Los Angeles, foi uma visita curta - ela pareceu não estar confortável falando sobre o marido e aquilo me deixou curiosa se foi pelo fato de estar ali com ela.

Chef: Já escolheram o que iram pedir ? - ele olhava para nós duas.

Clara: Para mim o de sempre e você Vanessa ? - os dois me olharam, mas a verdade é que tudo ali era muito caro. Estava sem graça e com receio do que pedir, não conhecia muito do que havia naquele menú.

Vanessa: Pasta Fresca Com Mariscos - sorri amarelo

Chef: Então será, Filetto Di Manzo Al Funghi e uma Pasta Fresca Com Mariscos. E para sobremesa ?

Vanessa: Não Obrigada - nem pensar em sobremesa, meu corpo agradecia.

Clara: Só isso mesmo. Obrigada e um abraço ao Carlos - ele assentiu e saiu em seguida.

Clara: Dieta ? - ela sorriu e mordeu o lábio como me provocando

Vanessa: Sim, preciso manter a forma - sorri envergonhada

Clara: Quer dançar ? - ela me olhou esperando um sim

Vanessa: Tudo bem se eu disser não !? - disse meio receosa, mas a última coisa que queria naquele momento era me tornar o centro das atenções. As pessoas ali hora ou outra nos olhavam.

Clara: Claro que sim - ela sorriu, mas pareceu chateada .

Vanessa: No que você trabalha ? Isso se você trabalha - quando vi, já havia dito aquilo e ela pareceu incomodada com minhas últimas palavras.

Clara: Claro que trabalho, já trabalhei muito pra chegar onde cheguei - ela realmente ficou irritada com o que havia dito

Vanessa: Desculpe, não quis te ofender. É que… - ela nem esperou eu terminar a frase e me interrompeu

Clara: Tudo bem, eu sei que não. Mas é que você não é a primeira ou a última pessoa a dizer isso. As pessoas acham que por eu ser de uma família da alta sociedade e por termos um padrão de vida acima do que se é esperado, acham que eu vivo as custas deles ou que meu ex marido me sustentava. Mas não, desde muito nova eu trabalhei duro pra não depender dos meus pais e depois de chegar onde cheguei, quando conheci o meu ex, eu avisei que jamais dependeria dele e que cada um cuidaria do seu próprio patrimônio. - ela suspirou e desviou seu olhar do meu - Enfim, sou arquiteta. Minha empresa tem uma equipe especializada em construções, lida com tudo desde construção até decoração.


Vanessa: Sinto muito Clara, eu realmente me expressei mal. Não quis te ofender. - não sabia o que dizer, me senti uma idiota por ter dito aquilo e ela realmente pareceu magoada. Ela assentiu com a cabeça, mas ela não mais me olhou nos olhos.


Passamos o jantar todo sem dizermos uma única palavra. Quando terminamos, peguei minha carteira e ela fez sinal que não precisava. Ela pagou a conta e seguimos até o carro sem ao menos nos olharmos, hora ou outra eu a olhava de canto e ela parecia estar distante. Mil coisas vinham na minha cabeça, o quanto eu havia a ofendido e sobre o fato dela ter dito ex marido quando ela se explicava. Ex marido, aquela palavra não saia da minha cabeça, mas o Junior havia dito que ela estava casada. O carro chegou e seguimos para casa, no caminho ela continuou em silêncio, eu a olhava e pensava como cortar aquele silêncio. Ela ligou o som do carro e a musica que tocava era Naked - Dev. Clara parecia acompanhar a musica, pois hora ou outra ela batia os dedos no volante. Eu só conseguia prestar atenção na letra daquela musica e em como eu me sentia ao lado daquela mulher. Quando dei por mim, o carro parou em frente a minha casa.

Vanessa: Obrigada pela noite de hoje e realmente sinto muito se te ofendi, não era a minha intensão - eu tirei o cinto e percebi que ela fez o mesmo. Estava realmente com o coração apertado por ter de alguma forma a magoado.

Clara: Nunca é intencional, mas tudo bem. Você não me conhece e é muito fácil julgar as pessoas pela aparência ou pelo fato de onde elas vem. Mas eu nunca te julguei, eu realmente estou me permitindo te conhecer e em nenhum momento dei ouvido ao que os outros pensam ou dizem sobre você. Eu realmente quero conhecer você, mas eu também preciso saber se você quer isso. Porque, pareceu que você não estava a vontade comigo, tive a sensação que não queria estar ali ao meu lado - ela me olhava, esperando que eu dissesse algo. Mas eu não disse, eu simplesmente não sabia o que falar. Eu fiquei muda, não disse nada.


Clara: Já está tarde, preciso ir - ela colocou o cinto e desviou seu olhar de mim.

Desci do carro sem olhar pra trás e o ouvi partir assim que entrei em casa. Segui pro meu quarto sentindo lágrimas escorrerem por minha face, eu só conseguia pensar no quanto fui idiota. Não conseguia compreender qual o meu problema, porque não disse que queria estar com ela e que também queria aquilo tanto quanto ela. Eu a queria, mas travei. Eu a havia magoado com minhas ações, com palavras e ela me deu a oportunidade de explicar porque eu havia agido daquela forma no jantar. Mas simplesmente fiquei em silêncio a deixando pensar que não queria aquilo e que tudo que ela havia sentido naquele jantar sobre mim, era verdade. Me joguei na cama e chorei por horas, como fui idiota. Talvez tenha sido melhor assim, ela vai embora em poucos dias. Vai voltar pra vida dela, pros amigos e sei lá quem mais. Mas não queria pensar nisso, sinceramente me doía pensar que fui fraca, que deveria ter falado o que sentia. Mas tudo o que eu havia sido naquela noite, foi uma completa covarde, por não enfrentar meus medos. E o principal medo de admitir pra mim mesma que estava apaixonada por ela.