aqui de casa

Sentiu??

Domingo sempre será aquele dia em que saio de casa, buscando um rumo e acabo sentada na pracinha olhando os carros passarem. Eu estou cheia de relatórios e provas para dar conta, mas sabe onde estou?! Sentada aqui na frente de casa, sentindo esse vento e pedindo que traga você. Já tive dias em que a esperava me deixava louca e que minha sede de você era insaciável. O que me restava eram nossas fotos e as lembranças presente ali. Hoje, domingo é o dia que faço de tudo para terminar as coisas logo e tiro o final da tarde para sentir e falar contigo. Sim, eu sei, eu sou a louca que conversa sozinha e pensa que meus pensamentos de algum modo chegam em ti por meio de toda essa minha força de vontade de envia-los. Será que funciona?! Eu não sei, mas às vezes pareço estar tão louca, que sinto respostas. Três dias seguidos sonhando contigo, será que é coincidência?! Costumo colocar culpa no destino, dizer que ele é uma caixa de surpresas e que funciona sim. Basta ter fé. Tento colocar na minha cabeça que não tenho pressa, que preciso ter paciência e vamos escrever aquele velho clichê para dizer que “se for para ser, será”, e realmente aprendi a ver que as coisas costumam ‘demorar’ pois aquilo que mais querermos é o que mais pode estar fora do nosso alcance. Então eu espero, espero essa falta de tempo passar, espero essa confusão ir embora, espero meus sentimentos tomarem rumo, espero que seus sentimentos aflorem, e claro, espero você sentada aqui fora ou na pracinha para dizer que estava morrendo de saudades. Espero o tempo passar e dizer o que realmente somos um para o outro. Eu acredito em destinos, metades da laranja e almas afins. Eu tenho fé, eu sei que tudo melhora. Sentiu meu abraço chegando aí?! Sentiu meu beijo de manhã?! Hoje é domingo, daqui a pouco passo aí para te buscar. Boa noite!

Acho que te vi passando aqui na porta de casa. Custei a reconhecer teu rosto, pra ser sincero não lembro nem do teu cheiro. Reconheço que hoje não passamos de meros desconhecidos, que sequer lembra o sobrenome do outro. Tenho aprendido a divir minha vida por linhas, como uma extensa e engenhosa rede de pesca. Você é objeto refletor, parecido com pérola, mas a verdade é que nunca passou de um caco de vidro.
Não me importo mais com as coisas que passaram, talvez a minha dor crônica de cabeça seja a tentativa das memórias de ti de sobreviver aqui dentro de mim.
Por isso tomo dorflex. Por isso me escureço sempre que lembro que foi no pôr do sol que fiz o juramento de nunca mais te procurar.
Talvez um dia eu lembre que a vida é um lento trabalho do esquecimento. 

(Lucas Veiga)

Minha família não se reúne para o jantar. Não saímos nas férias para a praia, nem rimos do fato de minha irmã e eu não sabermos nadar. Não se sentam todos juntos no domingo pra assistir um filme. Meus pais não conversam comigo quando percebem que estou triste e nem me dão conselhos sobre minhas confusões amorosas. Meus pais não sabem minha cor predileta, filme predileto ou comida predileta. Não sentam juntos pra contar sobre o começo do namoro deles, nem contar piadas. Minha irmã não tem mais tempo pra conversar sobre qualquer coisa comigo, nem pra tirar sarro de mim por ser o irmão mais novo, está ocupada demais com faculdade, namorado e etc. Minha família não diz que se ama, nem que me amam, se eu não pedir. A visão aqui de casa, sou eu no meu quarto, minha irmã no dela, minha mãe na cozinha e meu pai no sofá, o silêncio é tanto, que pode-se ouvir o coração de cada um batendo, isso se todos estivessem reunidos… mas é bem raro. E mesmo assim eu os amo, os amo com todas as minhas forças, e sei que mesmo que eu não possa enxergar o motivo por ama-los tanto, demonstram seu amor, do jeito deles. A gente precisa parar de achar que as pessoas têm de demonstrar amor da maneira que queremos, cada um tem seu jeito. E eu sei que a solução seria apenas eu dar o primeiro passo, mas logo eu? que faço tudo errado.
—  Hélder Mariano.

tem um barzinho aqui na frente de casa, cê sabe, aquele que todo dia cria um escritor de bar; outro dia te vi entrar lá. cê tava com uma cara de quem comeu comida estragada, mas antes fosse comida estragada, né?! cê tava era com o coração podre. te conheço bem, cê não tava bem. daqui do quarto não dá pra ver o interior do bar, mas fiquei imaginando o que cê ficou fazendo lá dentro: passou no balcão e pediu a pior e mais forte bebida, depois sentou numa mesa de canto, só pra observar, cê sempre gostou de ter olhos pra tudo que viesse a acontecer; cê fez uma careta quando bebeu aquele líquido amarelado, mas foda-se, não fazia diferença, só queria enfiar as mágoas no caneco e deixar pra trás quando fosse embora; cê saiu de lá nos braços de outra mulher. cê entra num bar pra esquecer uma e sai com outra; foi assim comigo e será assim sempre, até que um dia cê aprenda que nessa vida a gente precisa de alguém que fique e que nos remonte. 

Furacão

Faz tanto tempo que você se foi e, mesmo assim, eu continuo aqui. Você me disse que nunca iria partir, que eu não precisava me preocupar e eu acreditei. Agora eu olho pela janela, observo o céu e conto as estrelas para tentar me distrair e não pensar em você. Mas as estrelas me fazem lembrar dos teus olhos tão brilhantes e encantadores. Pra onde quer que eu olhe, tem um pouco de você. A brisa toca o meu rosto, eu fecho os olhos e sinto o teu toque. O vento que entra pela janela traz o seu perfume. Eu lembro de cada detalhe. Como pode? Já se passou tanto tempo. Às vezes sinto vontade de não ter te conhecido, de não ter ido naquele bar na esquina aqui de casa. Minha casa que virou a sua casa, o nosso lar. Agora sem você aqui, tudo ficou fora do lugar, nem parece que eu moro aqui há tanto tempo. Você chegou como uma brisa leve, trazendo calmaria e se foi devastando tudo como um furacão. Hoje me encontro no meio dos destroços. Perdida.  

Nessa Cross

Hoje, enquanto escrevo pensando no que deveria te dizer ou no que eu já te disse, ciente de que tudo isso não deixa de ser uma autoanalise eu penso em você. Penso e te escrevo, penso e olho para a janela na esperança de te ver gritando meu nome aqui na porta de casa. Nessa nossa longa história de idas e voltas, a gente percebe que algumas pessoas foram feitas para ficar. Amores feitos à mão não podem acabar com um sopro.
—  É tudo por você, amor.
Mas apesar de chover rios lá fora, eu queria sair e poder lavar minha alma. Tirar o peso, me sentir livre. O cheiro leve de chuva invadia o meu quarto. As persianas estavam levantadas. O sol tinha desaparecido por completo. Meus olhos, assim como lá fora, derramavam litros e litros. Não conseguia controlar. Lágrimas rolavam e caíam no chão. Onde estaria mais alagado? Lá fora ou aqui dentro? Dentro de casa talvez; mas dentro, dentro de mim, estava inundando nas angústias e incertezas da amarga vida. Vivi tão pouco para poder ensinar o que aprendi. Aprendi coisas boas, porém coisas que só cabia a mim saber. Sabia tudo o que a mim competia, mas não sabia nada sobre a vida. O sol da minha vida já não brilhava mais. Perdi todas as esperanças e, assim como a chuva, ela caía no chão e secava. Não adiantava de nada tentar acompanhar os pingos. Chorei incessantemente para voltar para o mesmo ponto: a vida fria; morna. Chorar não adianta de nada se a sede é de vida. Chorava pelo o que eu não vivi; pelo o que eu perdi. Perdi muita coisa; digo que não perdi tudo porque eu ainda tenho a mim e, apesar de viver assim, triste, enfadado, cansado, sabia que as lágrimas não seriam para sempre, como sabia também que a alegria não seria eterna, mas sabia que felicidade, nem efémera que fosse, podia transformar muito, muito mais do que se imaginam. Limpei meu rosto. Fechei as janelas. Fiquei totalmente no escuro. Compreendi então que não preciso de luz solar, nem de luz artificial. Percebi que tinha que aprender a iluminar as coisas com a minha luz interior e que essa não deve se apagar jamais. Ela continua acesa até hoje.
—  Túlio Santos.