antes da chuva

invariavelmente me sinto repetir algo que desconheço, é como se eu fosse fragmentos de uma vida que não me pertencesse,
quem dera eu ser flor antes da chuva, antes da lágrima, antes da perda.

A regra é bem simples: quanto mais feliz tu for, mais machucado sairá. É como a calmaria antes da tempestade, o calor insuportável antes da chuva torrencial, ou até mesmo a melhora de um enfermo antes da morte. Entende? É o pequeno paraíso que antecede o inferno.
—  Maria
Fiquei deitada imóvel, ouvindo a respiração dele lenta e profunda, o som da chuva por trás dela, senti meus dedos cálidos entrelaçados nos meus. Eu não queria voltar pra casa. Pensei que poderia nunca mais voltar.
—  como eu era antes de você
Radiohead, tempestades e explosões

Ás vezes eu sinto sua falta

Lendo teus suspiros em ventos frios e instáveis

Em dedilhares profundos e espaçados em guitarras elétricas 

Nas ruas do centro da cidade onde aquelas piadas cruéis e sarcásticas apareciam como pássaros antes da chuva

E a chuva vinha e a tua nunca era garoa

Você era sempre, tempestade 

Eu me molhava 

não por obrigação

chama-se amizade, eu te falava

Talvez você nunca tenha acreditado afinal

Ás vezes eu coloco aquelas músicas pra tocar

e ouço um Thom York melancólico lamuriar

‘’if I could be who you wanted all the time’’

Nessas horas eu me encolho

e fico pensando se você explodiu quando se virou pra ir embora

Eu sempre explodo.

Sabe, acho que ninguém vai entender. Ou, se entender, não vai aprovar. Existe em nossa época um paradigma que diz: enquanto você me der carinho e cuidar de mim, eu vou amar você. Então, eu troco o meu amor por um punhado de carinho e boas ações. Isso a gente aprende desde a infância: se você for um bom menino, eu vou lhe dar um chocolate. Parece que ninguém é amado simplesmente pelo que é, por existir no mundo do jeito que for, mas pelo que faz em troca desse amor. E quando alguém, por alguma razão muito íntima, pára de dar carinho e corre para bem longe de você? A maioria das pessoas aperta um botão de desliga-amor, acionado pelo medo e sentimentos de abandono, e corre em direção aos braços mais quentinhos. E a história se repete: enquanto você fizer coisas por mim ou for assim eu vou amar você e ficar ao seu lado porque eu tenho de me amar em primeiro lugar. Mas que espécie de amor é esse? Na minha opinião, é um amor que não serve nem a si mesmo e nem ao outro. Eu também tenho medo, dragões aterrorizantes que atacam de quando em quando, mas eu não acredito em nada disso. Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma que o mundo no qual eu acreditava haveria de existir em algum lugar do planeta! Haveria de existir! Nem que este lugar fosse apenas dentro de mim… Mesmo que ele não existisse mais em canto algum, se eu, pelo menos, pudesse construi-lo em mim, como um templo das coisas mais bonitas que eu acredito, o mundo seria sim bonito e doce, o mundo seria cheio de amor e eu nunca mais ficaria doente. E, nesse mundo, ninguém precisa trocar amor por coisa alguma porque ele brota sozinho entre os dedos da mão e se alimenta do respirar, do contemplar o céu, do fechar os olhos na ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, um banquinho cheio de almofadas coloridas e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banquinho do nosso amor, o nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a quantos anos, não sei, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas. No mundo de cá, as relações se dão na superfície. Eu fico sobre uma pedra no rio e, enquanto você estiver na outra, saudável, amoroso e alto-astral, nós nos amamos. Se você afundar, eu não mergulho para te dar a mão, eu pulo para outra pedra e começo outra relação superficial. Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí todo o mistério da vida, a intenção mais genuína de um abraço. Encontrar alguém para encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir, não mais que isso, nem mesmo no sexo. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo. Mas se eu não atravessar isso agora, a minha arte será uma grande mentira, as minhas histórias de amor serão todas mentiras, o meu livrinho será uma grande mentira porque neles o que impera mais que tudo é a lealdade, feito um Sancho Pança atrás do seu louco Dom Quixote, é a certeza de existir um lugar, em algum canto do mundo, onde a gente é acolhido por um grande amigo. É por isso que eu tenho de ir. E porque eu não quero passar a minha existência pulando de pedra em pedra, tomando atalhos de relações humanas. Eu vou mergulhar com o meu amigo, ainda que eu tenha de ficar em silêncio, a cem metros de distância. Eu e o meu boneco de infância, porque no meu mundo a gente não abandona sequer os bonecos que foram nossos amigos um dia. Agora em silêncio, tentando ensinar dragões a nadar.
—  Rita Apoena.
Não olha pra mim - ela pediu. Com medo. Desamparada. Apenas um corpo perdido no espaço. Um corte dilacerante de uma realidade que se impõe. Olhos que permeiam por entre cascas, mas só alcança o miolo das superfícies. Um giro se repetindo ao redor do mesmo eixo. Como se estivesse num mesmo ponto a vida toda. Não se abre, nem se desdobra - nunca. Parece que vai cair, chega a balançar. E cai. Gêmea de si. Uma chuva repentina experimentada por detrás da vidraça. Um labirinto ao contrário. Quanto mais foge das saídas, mais portas encontra e mais quer continuar perdida, porque sair de si é correr o risco de ver tudo desabar. Quase assassinada pela vida. Um grito parado no ar da garganta seca. Um laço de fita em torno de uma bomba. Que explode. Devasta. Incendeia. E renasce entre dois ou três cigarros. Não olha pra mim - ela pediu. Porque é isso o desamparo, esse vazio pulsante que nos ensina, pouco a pouco a ser mais só. Todo ser é e não é, e assim se faz inteiro. Você sabia que o figo não é apenas uma fruta feia, mas uma flor que brotou pra dentro? Brota-te. Porque se a gente pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Escrevo-te. Porque sei como é horrível enfrentar o peso das horas quando dias são meses e meses são anos. Presa num círculo de giz, que a chuva apaga e a gente, por teimosia, desenha de novo. A vida inteira batendo o prego onde a madeira racha, pra pendurar quadros que terão de ser arrancados da parede frontal da memória. Espero um dia que você saiba que, assim como o mar, as noites tem das suas tempestades. Loucas. Talvez você perceba isso de uma forma catastroficamente linda. Assim como as folhas outonais que se suicidam das árvores, talvez amanhã, as ondas rebentem fortemente. Talvez apenas dancem delicadas e convidativas. Assim como as algas não podem vencer o furor das águas, você sabe bem que para vencer a guerra perderemos algumas poucas batalhas. Há beleza no erro, menina. Vê se aprende isso. Tenha fúria de viver. Quando o dia parecer maior que tudo que foi vivido a tua vida inteira, sinta a brisa molhada pesar os cílios das pálpebras dos teus olhos, escuta o silêncio do ar que nunca é só silêncio, olha o céu – intacto, imenso e tão poético. Eles se assustam com a nudez da tua alma exposta e nem imaginam que o mesmo tempo que passa por eles como um sopro é o que passa por entre essas linhas tortas e corre pulsando por todas as tuas veias. A vida é tão rara, minha amiga, tão rara. Tão linda e tão despercebida. Não ouse pisar nas tuas vontades pra limpar os pés da chuva. Antes do bater do vento, abra as asas e voa. Ser feliz é fácil como o abrir e fechar dos olhos. Olhar pra dentro de si é um risco, eu sei. A solidão vicia. A nitidez da vida do lado de dentro é insuportável. Sofrer faz barulho, eu também sei, mas e o barulho do sol? Do céu? Do sim? Não dá mesmo pra ouvir daí? A vida é simples - milagrosamente simples. Mas viver apenas não basta, minha amiga. Continuar porque não se teve escolha é uma mentira. É uma estrondosa mentira acreditar numa mesma mentira a vida toda porque nunca se teve escolha. Nunca teria escolha. Apenas desejo que você siga em frente. Só não avance de mais pra não cair do outro lado de si mesma. A vida tem lhe aberto tantas portas. Entra? Escrevo-te como alguém que não te conhece, que talvez nunca te conhecerá, mas que soube te sentir quando você simplesmente quis passar desapercebida. Não, não olha pra mim - ela pediu. E eu olhei. Porque você não está sozinha, nunca esteve e jamais estará. Se palavras são braços abertos, esse é o meu abraço. Aconchega-te!
—  Michael Letto
Antes de todas as mulheres, de todos os filhos e amigos bêbados e sóbrios e carentes e indiferentes e patéticos e amáveis e execráveis. Antes dessa solidão, de todos os arrependimentos e de eu ter entendido todo o desperdício, das noites desesperadas e desperdiçadas, dos poemas que mandei pro exílio e das mulheres que eu chamei de volta, que eu implorei para que voltassem e que não me quiseram mais e que eu passei a admirar por tal atitude sensata. E essas mulheres subiram no meu conceito. E elas se tornaram intocáveis, inalcançáveis. E de todas as notícias boas que recebi sobre elas. De como estavam felizes com seus novos homens bem apessoados e prósperos e novos empregos e novas vidas cheias de esperança. É, porque agora livres de minha indigesta pessoa era possível ter esperança. E eu devia altruisticamente ficar feliz por elas. Mas tudo o que eu intimamente queria mesmo do alto da minha mesquinhez era que elas se fodessem muito com seus novos homens bem apessoados e novos empregos e novas vidas cheias de esperança. Antes dos impérios derrubados, dos suicídios frustrados, das festas que não quis participar, dos bares da moda que não quis ir, das estreias de teatro que não quis assistir e todas as rejeições e todos os contratos que não assinei e todas as grandes chances que deixei passar. Antes tinha essa lua explodindo no céu. E meus amigos que uivavam bêbados. E tinha ela santificadamente nua embrulhada na bandeira azul celeste do Londrina Esporte Clube deitada no banco traseiro do carro lendo Hunter Thompson. E tinha esses potes de doce de leite que ela não conseguia abrir e tinha os bolinhos de chuva e panquecas que ela sabia fazer tão bem e tinham esses intermináveis cafés da tarde. E tinha essa lua entrando pela porta do bar. E ela saindo do reservado com o cabelo molhado e colocando um Neil Young na juke box e me sorrindo me convidando pra dançar e eu acanhadamente aceitando e morrendo de vergonha por não conseguir acompanhá-la. E tinha eu descompensado, dançando desajeitadamente Neil Young com a mulher mais linda do mundo e sabendo que não ia dar certo e que era só questão de tempo pra eu voltar pro inferno que eu conhecia como lar. Antes das putas, dos leões de chácara, e de ser expulso dos puteiros por leões de chácara e de sair espancando orelhões como se eles tivessem algo a ver com o fato dela gritar comigo do outro lado da linha e me chamar de fracassado e de eu voltar pro puteiro e do leão de chácara escarnecendo de mim: “ah, você voltou. Quer que eu o chute de novo pra fora?” E antes de ser chutado de novo pelo leão de chácara e por ela e por todas as outras e antes da chuva de madrugada e antes de eu tentar ligar de novo dessa vez a cobrar porque eu não tinha mais ficha e nem cartão e nem crédito nenhum em nenhum buraco daquela cidade do inferno. E sequer alguma mulher pra eu ligar porque a única mulher que ia querer receber um telefonema meu era minha mãe que não tinha telefone e mesmo que tivesse ela já estaria dormindo e eu não queria acordá-la e meu pai não ia gostar do telefone tocando principalmente se soubesse que era o seu filho inútil do outro lado da linha. E antes de tudo, antes da guerra, antes até de Deus, tinha minha mãe arrastando suas pernas com o joelho quebrado depois de todos os espancamentos e noites solitárias e violentas no Jardim do Sol, tirando todas suas economias da Caixa Econômica e me comprando essa máquina de escrever, essa velha Olivetti Lettera 82. E tudo o que saiu dela, todo o sangue e excrementos e volúpia e maldições e descrença e desejos de vingança expurgados em letras deliberadamente inconsistentes. Mas é só o que eu tenho pra essa vida. Essa lua que emoldura o cenário triste da minha inadequação. Entre o que eu experimentei como nascimento e do que eu entendo como eternidade.
—  Mario Bortolotto.