ancoradas

Eu escolhi esperar

Esperar em Deus é o melhor. 🙏❤

Mesmo que o seu coração diga “sim” mas Deus diga “não”, obedeça a Deus, pois so Ele conhece o seu futuro. 💞

Confio, então espero. 🙏💕

Pai, guarda meu coração onde nem mesmo os meus sentimentos possam interferir na Tua vontade. ❤🙏

Peça a Deus todos os dias que ele guarde teu coração para a pessoa certa. ❤

Vale a pena esperar por tudo que é eterno. 😍💕

Seu príncipe vem de uma oração e não de uma cantada. 🙃💕

Deus já preparou tudo. 💞

Ele escolheu esperar, junto comigo. 🙏💞

Ninguém gosta de solidão, mas escolhi esperar. 💕🙏

Se tiver nos planos de Deus, vai acontecer. 💕

Eu escolhi esperar o melhor de Deus para a minha vida. ❤

Deus tem um plano, acredite. ❤😍

Eu escolhi esperar para viver um amor para minha vida inteira. 💞

Você é a resposta da oração de alguém. 😉

Aprenda a esperar o tempo de Deus. 🙏💕

Quando for de Deus vai te arrancar sorrisos e não lágrimas. ❤

Toda espera tem sua recompensa. 🙏💕

Quando chegar o dia a gente vai saber que as mãos tem o encaixe perfeito. 💕

O que vale a pena ter, vale a pena esperar. ❤😍

Eu sei que Deus está cuidando de cada detalhe. 😍❤

Não adianta você ter pressa, porque o tempo é de Deus, e não seu. 🙏😶💕

Se não vale a pena esperar por aquilo que você orou, então não vale a pena pedir. 😐

Se sentindo sozinho e cansado ? Espera em Deus e confia. ❤

Encalhada ? Não. Ancorada em Cristo. 🙏😉❤

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Hô cara!
O que você fez com ela? Lembra daquele brilho que tinha no olhar dela? Não existe mais! Lembra daquelas coisas bonitas que ela falava sobre alma e positividade? Não fala mais! Lembra que ela sempre parecia estar alegre? Não parece mais.  Você acredita que ela quer sair pra festas, encher a cara, ficar brisada? Há! Sua menina nunca faria isso né? Realmente, mas ela não é mais sua, ela foi expulsa do seu cais  e agora veleja sem rumo pelo caos. Ela quer se perde pra se encontrar, quer buscar novos rumos, quer te mostrar que esta de pé quando esperava que ela estivesse no chão. E cara… você vai sentir falta da sua menina, vai sentir falta de quando ela ficava na pontinha do pé pra te beijar, vai sentir falta das bobagens que ela falava, vai sentir falta dos seus momentos. Quando você perceber a burrada que fez, vai correr atrás, e quando à encontrar, ela não estará tão perdida assim, talvez até, ancorada em outro cais.
—  Hiolanda Oliveira
Felicidade. É isso que o tempo te traz quando você finalmente aprende que ela independe de lá de fora. É a alma a nossa verdadeira casa, se ela estiver ancorada em Deus, nenhum mar bravo mais a assustará.
—  Marcela Taís.
Ontem eu saí de casa sem imaginar que te encontraria. E fechei a porta atrás de mim, sem ouvir o conselho da chave. E caminhei pelas ruas de pedra, sem escutar o canto dos passos. E entrei no ônibus às pressas, enquanto as rodas e os freios e os carros silenciavam os prenúncios de um pequenino pássaro pousando no fio entre os postes. Mas nada disso eu pude ver numa manhã tão fria, pois é possível despedir-se do quarto onde se mora, trancar a porta atrás de si, guardar as chaves no bolso, subir as escadas correndo, caminhar pelas ruas de pedra, pegar o ônibus às pressas, e até mesmo olhar pela janela de vidro, olhar exaustivamente pela janela de vidro, sem sequer notar que o mundo avisa: não chora que hoje é um dia feliz. Como o dia era uma quarta-feira, saí de casa sem imaginar o que aconteceria depois; ou como a cidade tentava me estender a sua ancorada alegria. A alegria escondida entre as árvores e as rajadas de vento. A alegria escondida entre os prédios e os raios de sol - os raios que, de tão leves, acariciavam o rosto de um homem dormindo no chão. Se ao menos eu tivesse notado o quanto uma cidade acolhe, com os seus braços e colo de concreto, o que os outros homens não quiseram mais; ou se eu tivesse visto as pequeninas flores que as árvores deixavam cair sobre a moça dormindo na terra; e como essas flores adornavam os seus cabelos, sem fita e sem laço; se eu tivesse parado um instante, um instante que fosse, para ver o mundo cavando ternuras, na fundura dos seus abandonos, eu teria imaginado o que viria depois. Mas nada disso eu pude ver numa manhã tão fraca, pois eu andava pelas ruas de pedra com os olhos cegos de lágrima: eu inundando as ruas da cidade nas águas de minha tristeza; eu transbordando os seus muros e desmoronando as suas casas; eu afogando as pessoas em borrões de verdes e azuis. E só quando as lágrimas despencaram enfim dos meus olhos, refletindo, em seu brilho cristalino, o mundo inteiro lá fora, eu pude enxergar a beleza e sorrir
—  Rita Apoena.
Status: Menina Cristã

Se Deus me deu a vida, eu escolho viver para Ele. 

Quem não ora conta com a sorte, quem ora conta com Deus. 

Não é fácil fazer algo quando os outros estão contra você ou tentando te fazer parar. Porém se é o que Deus quer, faça-o e ore por sucesso.

Uma pessoa importante aos olhos de Deus é aquela que lhe serve fiel, obedecendo e fazendo o que é certo, não importa o que digam ou pensem.

Quando você estiver fazendo o que é certo e alguém tentar interromper, não desista. Vá, sabendo que está fazendo a vontade de Deus.

Me sinto tão feliz ao Teu lado Jesus, não quero mesmo estar em nenhum outro lugar que não seja contigo.

Deus me faça como as flores que colorem e perfumam esse grande jardim: a Terra.

Tenho que entender que Tu estás comigo e mesmo que um dia acabe outra manhã nascerá.

Meu Pai me ensina a voar, para que eu esteja no céu naquele Grande Dia.

A felicidade construída sobre a dor de alguém, é como um palácio construído sobre areia. Ainda que resista a ventanias, o mar o submergirá.

É muito difícil ter medo quando descobrimos como somos amados por Deus.

A fé vê o invisível, crê no improvável e recebe o impossível.

Deus prometeu que me daria você, por isso vou esperar e confiar NELE que me trará alguém diretamente dos sonhos de Deus pra mim.

O mundo valoriza a embalagem, mas Deus valoriza o conteúdo.

Encalhada não! Ancorada em Jesus esperando a hora certa!

Alguns relacionamentos quando chegam ao fim doem. Mas é Deus livrando a gente de coisa pior.

Príncipe só vai ao baile com princesa que use sapato de cristal, então calce seus pés com o evangelho da paz, Princesa.

Eu não preciso parecer legal pra ser cristã. Eu preciso ser cristã! 

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Carta de uma mulher ex-heterossexual

Querida mulher heterossexual:
escolha um local confortável para ler este texto. Assegure-se de que somos só nós, eu e você. Lembre-se de que, neste momento, não há ninguém te julgando, pois nem mesmo eu estou mais aqui. Este é só um texto. Um texto ecoando em sua cabeça. Faça uma leitura calma, individual, silenciosa, e não queira chegar a conclusões antes do tempo. Digo isto porque estou prestes a dizer algumas coisas duras, desagradáveis, e estou te propondo um caminho incomum. Revoluções frequentemente são empreendimentos desagradáveis. Sangrentos. E eu estou pedindo, nada mais nada menos, do que o seguinte: que você deixe de amar e se separe por completo das pessoas que mais ama nesse mundo: os homens. 

1) Ex-heterossexual, o que isso significa?

A palavra heterossexual foi cunhada em fins de século dezenove, pela ciência. Com ela, pretendia-se distinguir a sexualidade anormal - homossexualidade - daquela que era normal - heterossexualidade. Isso significa sentir atração sexual por aquele corpo que é dito diferente ou oposto do seu. Dessa forma, passa-se a conceber todos os desdobramentos institucionais, políticos e econômicos dessa sexualidade como sendo normais, pertencendo à natureza. Trocando em miúdos, é um termo que surge para naturalizar as relações desiguais entre os sexos, já que neste momento de grandes mudanças e descobertas científicas, a religião era questionada em seu poder de legitimar instituições políticas.

Todavia, instituições como estupro, casamento e prostituição já faziam parte da sociedade que chamamos de ocidental, ou patriarcal. O estupro, o casamento e a prostituição são o verdadeiro tripé no que chamamos de patriarcado, ou dominação masculina. Através do medo generalizado ao estupro, os homens nos empurram para a instituição do casamento, nos fazendo crer que isto é fonte de segurança; em tempos passados, a mulher era também proibida de ter propriedade em próprio nome, o que inclui a impossibilidade de ter uma moradia, a não ser através do casamento. O casamento é também uma garantia de procriação, já que a construção de uma família nuclear aumenta as chances de sobrevivência da prole. E a prostituição é a garantia de que os machos não vão brigar entre si por fêmeas, mantendo um exércitos de vaginas públicas, disponíveis para usufruto masculino a qualquer hora.

Como se pode observar, casamento, estupro e prostituição nada têm a ver com heterossexualidade, seja por parte do homem ou da mulher. As estruturas patriarcais nunca foram apoiadas no desejo, seja do homem, seja da mulher, e a ideia de que existe uma sexualidade baseada na necessidade diária de penetrar uma vagina com um pênis é uma crença milhares de anos mais nova do que as instituições patriarcais que hoje parecem depender dela. A heterossexualidade, portanto, não designa uma sexualidade, mas um regime político. Enquanto tal, esse regime tem ideologias que o sustentam, e que andam paralelas à manutenção deste regime pela força.

Por ex-heterossexual designo a existência de mulheres que já estiveram sob o jugo sexual masculino direto e que se abstêm dessa prática.

2) O orgasmo vaginal

A vagina é um órgão lindo, complexo, completo, autolimpante, cheio de diferentes camadas e tecidos. A vagina é também o canal por onde o bebê chega ao mundo - e pode nunca chegar, caso a mulher decida que esta não é uma opção. Esse é um detalhe importante. Dob influência dos hormônios necessários ao parto, a vagina se dilata para a passagem de um outro ser vivo, relativamente grande, o filhote humano, ou bebê. Razão pela qual a vagina tem, na verdade, pouquíssimas terminações nervosas que não estejam no intróito - os três primeiros dedos do canal.

Um órgão que se presta à passagem de um bebê de cinquenta centímetros dificilmente poderia ter algo como “um ponto G”. E esta é mais uma invenção patriarcal que nos mantém correndo atrás de nossos próprios rabos.

O orgasmo vaginal é um termo inventado por Sigmund Freud, que desenvolveu a psicanálise. Esta, por sua vez, não é uma ciência, já que não está ancorada em oferecer evidências materiais daquilo que postula. A psicanálise é baseada numa interpretação gráfica dos sexos humanos e na criação de uma narrativa falocêntrica destes, narrativa à qual o discurso dos pacientes será adequado e manipulado à exaustão pelo analista, que está de posse de um conhecimento ratificado por uma instituição. Como disse a lésbica materialista Monique Wittig, a psicanálise e a inquisição são maneiras de conseguir confissões, de fazer o patriarcado falar pela boca das mulheres. E o “problema” enfrentado por Freud era uma grande quantidade de mulheres em casamentos arranjados (burguesas), não raro muito mais novas que seus maridos, sem nenhuma ocupação ou finalidade em suas vidas que não fosse conceber novos herdeiros legítimos sendo estupradas por seus donos. A função de Freud naquela sociedade era a de fazer esses casamentos funcionarem. Fazer com que essas mulheres não simplesmente se matassem ou fizessem uma revolução. A função de Freud era convencê-las de que elas, e não o patrarcado, eram o problema, e foi dessa forma que ele fez.

Segundo Freud, a menina descobre durante a infância, ao observar um homem nu, que foi desprovida de seu pênis. Aqui, Freud reproduz claramente o paradigma milenar de Aristóteles, para quem a mulher é um homúnculo, um homem defeituoso e incompleto. Ao descobrir que foi desprovida de seu pênis, a menina passa a desejar o pênis do homem para se fazer completa.  O primeiro pênis que ela deseja é o do pai; porém, depois a menininha aprende que outros pitos no mundo podem completá-la, donde virão marido, casamento, e todo o resto.

Outra parte importante de sua teoria é a questão da masturbação. Em meninas, muitas de nós descobrimos o clitóris - aquela nodoazinha que fica um pouco acima dos pequenos lábios. A gente descobre com o chuveirinho, com a mão mesmo, com o cavalinho de madeira, o ursinho de pelúcia, a boneca. Enfim, crianças têm sexualidade, embora esta não tenha muito em comum com a sexualidade adulta. Em suma, de que maneira vamos convencer um bando de mulheres que conseguem gozar sozinhas de que é necessário ser repetidamente penetrada por um homem maior, mais velho e, em caso de casamento arranjado, desconhecido? Freud então formula a teoria do orgasmo vaginal: a partir de uma certa idade, a zona erógena começaria a migrar, saindo do clitóris, se alojando no interior da vagina. Assim, ficariam divididas as mulheres adultas e normais daquelas anormais e infantis, cuja sexualidade está centrada no clitóris - e neste grupo encontram-se, ninguém mais ninguém menos, do que as lésbicas. 

O mito do orgasmo vaginal encontraria o ápice de sua forma na revolução sexual das décadas de 1960 e 1970. Basicamente perpetrada por homens da esquerda, essa Revolução interpreta que o problema da sexualidade humana está na ordem da quantidade. Somos reprimidos. Não fazemos sexo suficiente. Uma revolução sexual consistiria em abstrair o sexo das instituições e rituais que o limitam e sequestram, tais como o casamento, a monogamia… Aqui encontramos um desdobramento, ainda que difuso, do pensamento marxista: o sexo é visto como um bem que deve ser separado da propriedade privada (família) e coletivizado. Porém, o que deve ser coletivizado efetivamente para que isso aconteça são as próprias mulheres, que continuam sendo vistas como um recurso a ser gerenciado. A Revolução Sexual retorna a Freud, Reich, Jung, entre outros teóricos do patriarcado, e aloca o problema da mulher na repressão de nossos supostos instintos, pulsões ou necessidades. Uma mulher livre é uma mulher liberada, com orgasmos múltiplos e poderosos - com homens. Basicamente, se somos tratadas feito lixo por homens que se negam a tocar nossas vaginas com suas línguas e dedos (não que eu queira nada disso - eca!), por homens que não nos vêem como agentes e sujeitos de nossos próprios orgasmos, é porque ainda não estamos suficientemente liberadas. Livres. Ainda somos umas cristãs, burguesinhas de merda, e precisamos nos liberar mais.

E é aí que entra o golpe de mestre patriarcal: o orgasmo vaginal. Na qualidade de mito, na qualidade daquilo que foi inventado, não resta nada à mulher a não ser entregar-se sucessivamente aos homens e esperar que algum deles finalmente a ajude a “chegar lá”. Como a masturbação continua sendo um tabu, e aliado a este esteja o mito da virgindade (tua vagina pertence a outrem para explorar e conhecer), e somado ainda ao nojo da vagina socialmente construído para tentar inibir a existência lésbica, as mulheres são constantemente encorajadas a tentar de novo, e de novo, e mais uma vez, até concluírem que são doentes, imperfeitas, incompletas e incapazes. Aqui, muitas de nós abdicarão da sexualidade, tornando-se verdadeiras prostitutas particulares, servas de seus maridos, condenadas a uma vida de penetrações sem lubrificação, uso contínuo de pílula anticoncepcional e uma longa série de gemidos fingidos, feitos pro macho acabar logo o que está fazendo.

3) O pênis como princípio da vida

O termo patriarcado é rejeitado sob a premissa de que poder parental e poder sexual não se confundem. Sendo o poder sobre as mulheres um poder exercido, dentre outras formas, pelo terror generalizado ao estupro, e estando o estupro automaticamente fora da esfera do poder dos pais sobre suas filhas, não se poderia chamar a dominação sexual de patriarcalista. De forma geral, o termo “patriarcado” é negado por análises que não compreendem nem o estupro, nem a pedofilia, como de fato são: estruturais e sistemáticos. E o fato de serem sistemáticos implica, também, que foram assimilados como estruturas filosóficas e, por fim, estruturas psicológicas que nos são forçadas.

Este não foi um sistema que surgiu da noite para o dia. Como expõe Gerda Lerner, em A criação do patriarcado, ele levou cerca de 2500 anos para se estabelecer enquanto um poder falocêntrico e falocrático, que exigiu não apenas o aprimoramento das instituições de encarceramento da mulher (casamento, prostituição e estupro) como também o aprimoramento ideológico, isto é, das ficções que o sustentam e tornam factível.

O poder masculino, patriarcal e ocidental, é basicamente o poder de destruir através da colonização: romper uma barreira (física ou política), cercar a terra, matar e escravizar os animais, semear monoculturas, colher até a exaustão do solo, e começar tudo outra vez, em outro lugar. Em suma, o modelo do poder masculino é baseado no estupro como princípio bélico contra o planeta, e nós, as mulheres, fomos suas primeiras, mas não últimas, vítimas. Nós fomos a primeira coisa que os homens penetraram, cercaram (no princípio o patriarcado era poligâmico), engravidaram múltiplas vezes. É um sistema insustentável, ilógico, baseado no ódio e na destruição. A criação de uma história que sustente o insustentável é, na verdade, bastante difícil e teve diversas etapas. Tornar o pênis, uma arma de destruição em massa, em algo venerável, tornar a maior arma biológica existente em um princípio vital não foi simples. Tampouco é simples manter esta mentira.

Os primeiros registros deixados por seres humanos em cavernas e outros sítios arqueológicos retratam basicamente deusas e animais. Raramente encontram-se homens, donde se conclui que os primeiros ritos humanos eram baseados na adoração de animais-totem (animais com características positivas, como força, coragem) e deusas fêmeas, capazes de parir e amamentar. O avanço do poder masculino passou a incluir, neste ciclo, um deus macho desimportante, jovem porém descartável, ao passo que a Deusa era essencial, eterna e imutável. O consorte não chegava a ser uma divindade, era apenas um instrumento. Esse instrumento, porém, evolui para um Deus em pé de igualdade com a Deusa - em algumas regiões tal mudança culminará no politeísmo, com uma Deusa da Fertilidade e outra do Erotismo, uma para a reprodução, e outra voltada apenas para o deleite masculino. Por fim, em mais de uma região, passam a surgir entidades masculinas unitárias, que são elas mesmas o princípio da vida; e não raro, o princípio da vida, sêmen, é metaforizado como a palavra (veja, além do deus bíblico, as divindades Ogh e Tyr). Assim, o patriarcado se funda enquanto um sistema de exploração materialmente calcado no estupro, metaforizado como “doação de princípio vital”.

4) O pênis como princípio da sua vida

Quero frisar que sou uma ex-heterossexual. Quero frisar que, apesar de nunca ter usufruído, de maneira prazerosa, do pênis no meu corpo, eu já fui uma presa deste regime político, e boa parte do que falarei a seguir vem desta experimentação. Eu quero que você não me veja como alguém diferente de você, mas como alguém que está em uma outra posição, um outro momento da vida, uma outra condição.

Às vezes as coisas vão mal em nossas vidas. Acontece. Nós temos problemas no trabalho, nos estudos, nas artes que produzimos, nossos animais adoecem, nossas finanças se desequilibram, e às vezes tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Caso você esteja passando por isso agora, quero que saiba do seguinte: vai ficar tudo bem. O que estou tentando fazer aqui é prevenir você de entrar em uma situação desagradável, movida por um impulso que você nem bem sabe por que tem. Eu também não sabia. Mas é possível que você, ao se ver nessa posição, não pensei outra coisa senão que “você não vai conseguir passar por isso sozinha”.

Eu queria muito que você se concentrasse nessa palavra, e como ela assume um significado diferente quando falamos de heterossexualidade. Seres humanos são sociais; formamos grupos, e ter companhia faz parte de nossa saúde mental. Todavia, mesmo quando estamos cercadas de nossas amigas, parentes de quem gostamos e temos boas relações, colegas de trabalho em quem podemos confiar, a solidão persiste. É a sensação de que sua vida está suspensa, parada no tempo, de que sua existência está incompleta, ou pior, a sensação de que ela não começou ainda. Nada do que você faz parece fazer sentido, e por mais ricos que sejam seus diálogos com suas amigas, ainda lhe resta a sensação de que ninguém te entende. Não profundamente. Não de verdade

Você tenta estofar sua vida com sensações. Você come, ouve música, vai a uma exposição de arte ou se mata de trabalhar. Chega em casa, vê TV - essa é a pior parte. Seu espaço privado, seu espaço mais íntimo, parece estar vazio, seja esse espaço algo físico ou mental. Parece que nem mesmo você está lá. Enquanto não tem um homem do seu lado, parece que você não existe, nem para si própria. É como se ele validasse a sua existência. Pior. Você sente que, se houvesse um homem ao seu lado agora, imediatamente a vida seguiria um curso lógico, perfeito, harmonioso, controlado, em que a felicidade simplesmente jorraria por todas as fontes: o trabalho, a arte, a casa, sua vida financeira voltaria imediatamente para o lugar. 

Você sai e você acha que é hoje, é hoje com certeza. Você não vai pela música, pela comida, pela bebida, pela companhia das suas amigas. Você acha que  vai se sentir bem, preenchida, em paz e válida - em contraposição a uma existência um pouco nublada, desfocada - quando você O encontrar. Ele vai encher você de vida. Vocês vão se olhar, e já aí metas e planos serão traçados; nele você vê solução. Uma solução existencial. O problema? Você sente que você é o problema, tudo à sua volta, tudo que você fez está suspenso por um fio lógico bem fininho, quase inexistente, e que na ausência Dele, está prestes a se romper, a qualquer momento. E ele vai preencher você com o pênis dele.

A penetração, na heterossexualidade como regime político, tem para a mulher um papel anímico, como o sopro divino que transforma barro em gente. Pense em como isso é triste, terceirizar o sentido da sua vida e o conhecimento do seu próprio corpo para alguém que nem mesmo conhece você, não tem um corpo como o seu, provavelmente não sabe como sua sexualidade funciona e, muito possivelmente, não está interessada no seu bem-estar. Você, mulher brasileira, deve se lembrar daquela pesquisa recente, na qual quase metade dos homens entrevistados (43%) sentem nojo da sua vagina. Podemos chamar de “sexualidade” o desejo de um homem em penetrar, com o pênis dele, algo de que ele nem gosta? Somando isso ao fato de que apenas 30% das mulheres declaram sentir orgasmo vaginal (o que se deve, quase sempre, a estimulação indireta do clitóris), certamente essa sexualidade não gira em torno do prazer. E no entanto, não só as mulheres buscam prazer na penetração e na heterossexualidade, como buscam sentido existencial, prazer mental, tranquilidade psicológica.

O que vem a seguir? Eu já estive onde você está. Acordar ao lado dele enquanto se pergunta qual é o sentido de tudo isso. Terminar o ato sexual e perguntar-se, “onde está aquela fusão de almas que me prometeram?”. Onde está a calma, os olhos fixos, o carinho. Tirando a teatralidade heterossexual, tirando a representação que você faz quando está lá com ele… por baixo dos gemidos que você faz bem altos, para não ouvir a própria dor… por trás do lubrificante que você usa, porque ele não te estimulou o suficiente. A promessa heterossexual é isso: você é o problema, ele é a solução. Você é a ausência do pênis, e ele está aqui para acabar com sua doença, com seu sintoma. Você está aqui para somar, doar-se, tornar-se uma com Ele - reintegrar o solo divino de onde você, na condição de barro, se desprendeu. E frequentemente você ficará surpresa ao ver-se inteira ao lado dele. Você continuou sendo você. E mesmo quando ele passa longos dias ao seu lado, frequentemente ele está absorto em coisas que não envolvem você - futebol, video-game, política, RPG, qualquer coisa. Você se fundiu a ele e abriu mão de parte preciosa do seu mundo. Você não se tornou maior, nem mais completa. Foi bem ao contrário. E vagamente você tenta se lembrar de como era a vida antes, mas pra você, nunca houve um antes, nunca houve uma vida, e você tem dúvidas sinceras sobre quem é você quando ele não está por perto.

5) O amor romântico

O amor é universal. Todo ser humano é capaz de sentir empatia. Essa empatia, acredita-se, não pode ser conhecida, medida, não pode se tornar objeto de ciência ou conhecimento porque é, ao mesmo tempo, muito individual. Cada um sente de um jeito. Cada um é cada um. Supor que o amor é algo que possa ser questionado, estudado, que possa ser objeto de dúvida e atenção, que possa se situar em algum discurso além do poético é, hoje em dia, uma espécie de blasfêmia, que se torna ainda maior quando vinda de uma feminista.Todavia, ao longo da história do patriarcado, o amor já foi objeto de doutrinas religiosas, de filosofias, e mesmo de discursos científicos. Portanto, a reflexão que pretendo desenvolver aqui não é uma operação nova, embora ela tenha sido esquecida ou apagada. Esta é uma crítica filosófica ao amor romântico enquanto prática. E minha teoria é a de que o amor romântico enquanto uma prática é, para a mulher, a conversão de suas energias afetivas em trabalho doméstico, sexual, reprodutivo e afetivo para uso masculino.

O corpo humano precisa ser alimentado para sobreviver. Quebrando o alimento em moléculas, o corpo armazena energia no interior das células, para que esta energia seja solicitada quando necessária. O deslocamento, o trabalho, bem como a fala e o raciocínio, demandam essa energia que é extraída dos alimentos. O corpo, além disso, precisa regenerar-se para funcionar, o que demanda de 4 a 8 horas de sono por dia. O sono, por sua vez, demanda condições mínimas de salubridade para acontecer - e nem todos os seres humanos, no presente momento, possuem tais condições. Desde antes do capitalismo, itens básicos da sobrevivência humana - água, comida, moradia, saúde - foram transformados em mercadoria, geralmente acessada por meio da compra. A compra demanda dinheiro, e o dinheiro se obtém de duas formas: roubo (propriedade privada, expropriação do bem coletivo por uma classe que passa a controla-lo); trabalho. Portanto, o meio pelo qual a sobrevivência se dá, a saber, a aquisição de alimento para que este seja transformado em energia para o corpo, é uma tarefa econômica.

O amor é um trabalho sem fim, e feministas como Kate Millet e Shulamith Firestone tiveram grande preocupação em estudá-lo como um meio de dominar as mulheres. Nem sempre se amou como amamos, e os homens não amam como as mulheres. Sabe-se que, até meados do século XVIII, o casamento era considerado uma instituição econômica, bem como a família, e a formação de casais estava atrelada à troca de bens entre os homens, sendo as mulheres partes integrantes de suas posses. O amor como arrebatamento dos sentidos, violência do sentir, embotamento dos sentidos e da razão, surge na Idade Média, quando o conceito de paixão cristã - sofrimento necessário para depurar a alma humana, dor como pureza - se juntou aos ritos de amor cortês (mas vale lembrar, no amor cortês como postulado por André Capelão, apenas o homem sente, e a mulher é um item inerte que o homem adquire após a corte, isto é, a performance dita amorosa). Antes disso, o amor greco-romano era glorificado justamente por qualidades opostas: moderação, razão. É o romantismo burguês que introduz na vida da mulher o amor-paixão, e subitamente, como se isso fosse um estalo da natureza, ele se torna o centro gravitacional da existência feminina…

“O amor é o ópio das mulheres” - Kate Millet.

Assim como o fiel anula seu Eu para exaltar Deus, assim como certas religiões buscam o apagamento do Ego para a experimentação do êxtase, o estado de união com o Todo, com o Cosmos, o amor romântico, com seus inúmeros manuais, encoraja a mulher ao anulamento psíquico e material sob a promessa de fusão com seu Deus - quando não o homem, a própria ideia de amor. Assim como nas religiões, essa anulação passa não apenas pelo exercício mental de mentalizar a pessoa amada, concentrar nela todos os pensamentos, como concentrar nela as ações que estão na ordem do corpo. Nos relacionamentos heterossexuais, essa anulação vem na forma de perigo: abolir a camisinha é uma maneira comum que as mulheres encontram para provar seu amor. Tornar-se vulnerável a doenças e gravidez é prova de amor. E o amor não existe abstratamente dentro das pessoas; na qualidade de sentimento, que não pode ser verificado por instrumentos científicos e materiais, ele exige provas reiteradas, ele demanda uma performance amorosa ou apaixonada, que não tem fim.

Os bons partidos são escassos. Nove em cada dez homens traem suas namoradas. Mas você acredita estar com aquele que é fiel. O príncipe no meio dos ogros. Por meio da elevação espiritual de um amor verdadeiro, você se curou dos danos e feridas que o antigo amor te deixou. O amor é sua danação e sua redenção, e no fundo você nunca sabe quem é quem. E isso te deixa confusa e desesperada. Porque quando seu amor está com você - ele é perfeitamente carinhoso, dócil, e ele não seria capaz de te fazer mal. Mas às vezes ele sai e desliga o celular… às vezes ele se atrasa sem uma razão aparente… você fareja um perfume estranho - ou será sua mente pregando peças? Você fica ansiosa. Monitora as suas redes sociais, seu telefone, seu e-mail, à espera de um sinal de que, onde quer que ele esteja, ele também está obsessivamente pensando em você. Para que o romance não esfrie, você fica eternamente adicionando trilhos a essa montanha russa. Quando está feliz, adiciona trilhos subindo, cada vez mais alto; e depois faz trilhos de descida, brigas que não acabam nunca. Esse exercício de elaboração gasta horas da sua vida. Você fica angustiada…

Então liga para a sua melhor amiga. Feminista ou não. Não lhe ocorre que o pai da sua melhor amiga morreu recentemente. Que ela esteja em meio a uma importante entrevista de trabalho. Que seja alta madrugada, e ela esteja dormindo, e precise acordar cedo amanhã. Você marca de encontrá-la - mas quando foi a última vez que vocês se encontraram para se divertir, beber, tomar sorvete, ver filme, jogar video-game? Você se lembra de um dia remoto, lá no passado, quando você e sua melhor amiga tinham uma amizade que era um fim em si mesmo, e não um centro de manutenção do seu relacionamento? Você se lembra, aliás, quando nove entre dez conversas NÃO eram sobre o seu namorado? Sobre o seu amor? Sobre seu amante? Sobre a foda maravilhosa do sábado? Mesmo que isso tenha sido na sua infância, você lembra quando namorar parecia chato, e que brincar era uma grande urgência? Você lembra quando era melhor falar horas e horas sobre seu livro, quadrinho, game preferido? O que mudou…?

Esse é o paradoxo do amor feminino. Sua Realização consiste na anulação do Eu. Você estará mais repleta quanto mais vazia estiver, e seu conteúdo estiver preenchido de Amor - essa energia mística, pulsante. Através da extinção das Vontades, fundir-se-á com Ele, até que seus dois Eus coincidam perfeitamente, até que você e Ele sejam Um. O fim de todo o sofrimento virá na forma de uma calma infinita, pois uma vez em comunhão com o Todo, você experimentará o sentido verdadeiro da palavra Eternidade. O mundo vai ser uma cama domingueira de lençóis brancos. E viveram felizes para sempre.

Porém, mesmo que você acredite nisso (apesar de saber que essa ideia foi inventada, tem data e hora marcada…). Sua alma está no seu corpo. Sua alma é invisível, intangível, e não verificável. Seu Êxtase não é o que vai segurar seu relacionamento - e você sabe disso. Então, como concretizar esse amor? Através das suas atitudes materiais. E como as mulheres fazem isso? Trabalhando. Cuidando do ser amado. Preocupando-se com suas funções vitais. Privilegiando suas vontades gastronômicas, sexuais. Passando e lavando suas roupas e suas louças, cozinhando para ele, penteando-o, vestindo-o, agradando-o de mil formas. Tornando-se “bonita” - ou seja, praticando auto-mutilação, fantasiando-se com roupas complicadas, que os homens da indústria da moda inventaram para dar umas boas risadas do nosso sofrimento. Esperando ansiosa que ele volte do trabalho, da reunião, da faculdade. Você se senta, olha as horas, repassa canais de televisão, fingindo para si mesma que está matando o tempo quando, pelo contrário, você sente a dureza de um segundo após o outro, como se o movimento dos ponteiros estivesse dando tapas na sua cara. E embora essa angústia seja insuportável, você passa através dela, você se empenha em senti-la, porque o seu sofrimento é o que edifica o seu amor, e você quer ser a melhor das amantes, porque você não saberia mais como seria sua vida, como seria você mesma, se esse amor não estivesse mais com você…

E no fim, o que vai te restar é a angústia, a insatisfação e a desolação de que nada disso é possível. Você e seu amor ainda serão pessoas distintas, com vidas distintas… a diferença é que, quando não estiverem juntos, seu Eu vai estar perdido em autoflagelação, medo de ser traída, planos infinitos para apimentar a relação, a tarefa inglória e impossível de tentar antever e se adiantar às contades do seu Amor, para satisfazer os possíveis desejos desviantes dele… ser uma Nova Mulher a cada dia, para que seu amor não tenha que olhar para o mundo na busca de um novo amor.

Agora se lembre de que seu corpo, a sede da sua alma (caso você acredite ter uma), demanda descanso, comida e abrigo para sobreviver. Descanso, comida e abrigo geram energia para suas células. Essa energia preciosa, que vem de fontes materiais obtidas através do trabalho, está sendo gasta em uma tarefa inglória e impossível. Pense nas noites sem dormir ao lado do seu amor. Nos planos. No tempo que você levou pensando tudo isso. Lembra daquela dor de estômago que você sentiu quando sofreu - dor material. Lembre-se de ter chorado até os olhos incharem - foi material. Lembra daquela vez em que você fez sexo mesmo sem querer muito, porque parecia importante na manutenção do seu relacionamento. Daquele ritual de beleza que você não curtia (pintar unhas, alisar o cabelo, fazer dieta, roupas que você não acha bonitas ou confortáveis), ou que eram um afronta às suas convicções políticas. Tudo isso foi feito a você, no seu corpo, através da energia que você obteve dos alimentos que comprou. Tudo isso foi, sim, e é econômico.

6) Precisamos conversar

Para minha sorte, trabalho em um ambiente majoritariamente feminino. O único homem deste ambiente, o patrão, aparece uma vez por semana, somente. Isso propicia um ambiente agradável em que, teoricamente, somos livres para falarmos o que quisermos, inclusive mal de homens, sejam patrões, maridos, irmãos, pais. 

Mas isso raramente acontece.

Estávamos reunidas um dia desses quando o assunto “sexo” surgiu. Decidi observar, enquanto minhas amigas se gabavam de todas as proezas heterossexuais que eram capazes de fazer na cama. Uma delas chegou a se vangloriar, dizendo ser “a puta do marido”. Todas elas declaravam ter orgasmos satisfatórios com a penetração, e disseram não precisar de qualquer estimulação em outra zona erógena. Observei que éramos onze e comecei a fazer cálculos mentais. Tenho aqui, diante de mim, dez mulheres dizendo que são capazes de ter um orgasmo vaginal. Ou eu estava diante de um grupo privilegiado, que faz parte daqueles 30% de mulheres que dizem ter essa sensação, ou então 7 daquelas mulheres estavam mentindo. E a pergunta que nós, mulheres, devemos nos fazer, é o que leva outras mulheres a mentir sobre esse assunto, enquanto se engaja em uma sexualidade completamente sem graça (prazer físico) e sem sentido (prazer psicológico).

Chegamos então ao “mito da mulher mal comida”. Este mito é a combinação dos mito do orgasmo vaginal, mito do pênis como princípio da vida e do mito do amor romântico. O homem é o macho da espécie humano, que retira sua força física, simbólica, espiritual e política do pênis. O pênis é inerentemente bom, autossuficiente, dotado de sentido em si mesmo. Ele é agradável por definição. Desejável em sua essência. Quando invocado como arma de guerra, o pênis é assustador para o inimigo. O pênis é ofensivo e amedrontador. Ele é o bom e o mau, o ying e o yang, ele é o Cosmos, vindos, dele, tanto a vida quanto a morte. Logo, o pênis, por si só, é a garantia de satisfação existencial da fêmea humana, a mulher, que por sua vez tem a vagina - definida pelos mitos patriarcais como ausência de pênis. Ela é a ausência existencial mais completa pois, se o pênis é a vida E a morte, o início E o fim, a vagina é a ausência total e completa de tudo. Filosoficamente, fisicamente. Psicologicamente, retomando Freud, o ato sexual é o reencontro com a parte perdida que a mulher julga já ter pertencido a ela. É a única e imperdível oportunidade de cessar sua doença, seu sintoma.  A mulher mal-comida, portanto, é aquela enferma, louca, incompleta, incapaz de comungar com a satisfação existencial que o pênis, e somente o pênis, é capaz de prover.

O mito da mulher mal comida surge na virada do século XIX para o século XX, paralelo aos movimentos feministas que então reivindicavam o voto, o divórcio e o direito à propriedade privada. Do ponto de vista da lei, a mulher estava prestes a se igualar ao homem. O casamento, principal meio de emancipação em relação aos pais, estava em vias de se tornar um ritual completamente desnecessário à sobrevivência feminina. As mulheres mais pobres, aquelas para quem o casamento não era parte da gerência das posses da família, estava diante de um horizonte de completa emancipação. Alguma coisa muito poderosa tinha de ser colocada em vigor para que continuassem a se casar e colocar mais seres humanos no mundo. E o mito da mulher mal comida, ou da mulher histérica, foi o que garantiu a perpetuação do casamento.

Hoje vivemos em um mundo após a reforma manicomial. Porém, naquela época, ser uma mulher histérica, ou mal comida, implicava um risco de vida verdadeiro. A família, a polícia, o marido, em suma, qualquer pessoa podia condenar uma mulher mal comida a uma vida miserável no hospício, onde ela seria tratada com choques, jejuns, refeições forçadas, estupros “curativos” e, em casos extremos, lobotomia, remoção do útero e remoção do clitóris. Os “sanatórios” eram um risco material para as mulheres, especialmente as mais pobres, as trabalhadoras, as negras e - é claro - as lésbicas. 

A ameaça da internação compulsória por histeria certamente diminuiu; mas seu lugar foi tomado por uma verdadeira propaganda política, ininterrupta e interminável, mantida pelos meios de comunicação. Revistas, jornais, cinema e literatura bombardeiam as mulheres com uma campanha viral em favor da heterossexualidade e da liberdade através do sexo. Quando o movimento feminista, em meados do século XX, mais uma vez ameaçou o poder patriarcal, colocando seus mitos em risco, o imaginário da mulher mal comida foi colocado em ação, agora sob um novo slogan: felicidade é sexo. A liberdade pode ser efetivamente medida e compreendida pela performance da mulher na cama, performance arquitetada pelo olhar masculino. Em suma, nós nos vemos pelos olhos dos homens e, na heterossexualidade como regime político, somos orientadas a buscar prazer segundo o que os homens nos dizem sobre nossos corpos, nossas vaginas. 

E por último, mas não menos importante, o método de controle milenar da violência sexual, ou estupro, continua em vigor. Uma mulher morando sozinha, ou morando com outras mulheres (o que, do ponto de vista patriarcal, é rigorosamente a mesma coisa), está exposta. Vulnerável. É preciso o braço forte de um homem para acolher e proteger. Em suma, as mulheres heterossexualizadas pagam com sexo a proteção por não serem estupradas por homens desconhecidos. Mas, levando em consideração que essa sexualidade serve ao prazer masculino, isso não seria uma espécie de prostituição institucional?

Precisamos conversar. Romper o silêncio, o medo à loucura e o medo à solidão, onde, por “solidão”, se entenda “falta de pênis”. Se você estiver onde eu estava alguns anos atrás, você estará agora se perguntando o que há de errado com seu corpo, com sua mente, com seu coração. Se você estiver onde eu estava alguns anos atrás, está se perguntando se sexo é isso mesmo, essa coisa cansativa, complicada, entediante, confusa, estabanada e meio suja, que os homens fazem conosco, enquanto a gente espera ele acabar. Se você estiver onde eu estava alguns anos atrás, você está se perguntando: se este sexo é, na melhor das hipóteses, medíocre, por que minha vida parece vazia de sentido quando não tem alguém me penetrando? Por que me sinto validada, existente, completa, quando ele me deseja, se nem mesmo consigo aproveitar fisicamente a sensação do contato sexual com ele?

Precisamos conversar com honestidade, e a primeira medida é ser sincera com você mesma. Vai ser difícil, mas tente tirar da sua vida, agora mesmo, o jargão “eu não faço por ele, eu faço por mim mesma”. Você não alisa o cabelo para si mesma. Você não faz as unhas para si mesma. Você não se depila para si mesma. Pense no pânico que você sente, por exemplo, ao ficar nua quando não se depilou, ou sair com ele quando está chovendo (alisadas entenderão). Pense na fome que sente quando faz regime, e para você mesma assuma: eu não faço nada disso por mim. Será doloroso a princípio, mas ouse olhar-se no espelho e reconhecer que este não é o seu corpo, por mais que você esteja dentro dele. Você se tem visto pelos olhos de um Outro que te quer lisa e depilada, de um outro que te quer magra, de um outro que te quer… outra. Esse outro, no fundo no fundo, não te quer. 

Precisamos conversar com honestidade sobre as nossas infecções urinárias e candidíases de repetição. Precisamos conversar sobre o fato de que 80% das mulheres brasileiras heterossexuais declara abrir mão da camisinha com seus parceiros, enquanto 90% desses mesmos parceiros se declara infiel. Precisamos conversar sobre as mulheres que, dia sim, dia não, morrem com abortos clandestinos no Brasil. Precisamos pensar com muito cuidado: por que é tão importante para os homens a oportunidade de ejacular em nossas vaginas? Nós sabemos que a história da “camisinha apertada” é mentira. Precisamos falar nas mulheres brasileiras, 15%, que declaram sentir dor no momento da penetração. Precisamos falar sobre os casamentos infantis que estão acontecendo no nosso país, agora: o que um homem de 30 busca ao se relacionar com uma garotinha de apenas 12? 

O tempo não curou os machucados. O tempo não apagou as lembranças. O tempo não colou as promessas quebradas. O tempo não amenizou a tua partida. O tempo não te trouxe de volta. O tempo parou pra mim. O tempo ainda me mantém ancorada com toda essa dor. Mas o tempo passou pra você.
—  Os sentimentos de Catarina.
Já se acabaram suas desculpas, olha pra você, seu coração já chegou no limite. Desiste dele menina, e vá ser feliz. Não vai ser um sinal de desamor, vai ser um dos maiores sinais de amor, amor próprio. Se ame, se sinta, se apegue em você. Faça com que o mundo gire em torno de você porque você merece muito além disso. Você merece ter um porto seguro e não há porto seguro melhor do que estar ancorada em si mesma.
—  Eleitamodelo & skyisreallyblue,
Balela

Esse negócio de regionalismo, provincianismo ou nacionalidade é uma balela. O cara pode ser brasileiro e escrever como inglês. Morar em Manaus e escrever com a ficção ancorada em São Paulo ou vice-versa. O lirismo não tem aldeia ou logradouro. A literatura é uma puta nômade. Escritor brasileiro, português, amazonense, paraibano, americano e o cacete a quatro não passa de rótulos. Escritor de verdade não tem cidade fixa ou carimbo de cidade na identidade. Tudo pode ser reinventado no campo da imaginação e da linguagem.

Diego Moraes 

Henrique,

há algum tempo não consigo mais escrever e me esvaziar completamente, não consigo sentir-me livre de tudo que me assombra. é como não suportar meios termos e sentir que vai ser pra sempre um. eu sou meu maior mistério. invisível e indecifrável. você sabe mais do que qualquer outro, que eu sempre soube exatamente como passar despercebida. abafando os gritos que vinham de dentro, me afogando num mar de versos guardados. todo mundo se encontrando, se encaixando, avistando um cais. e eu não consigo nem me ouvir no meio de tantas vozes ou me manter ancorada no meu próprio corpo. em algumas noites, ser esse copo vazio e eternamente transbordando, é em demasia cansativo e doído. logo agora que me sinto quase que permanentemente curada de sentimentos que me mantiveram refém por tanto tempo. ainda sinto-me presa demais a tudo que eu não consegui dizer e ficou aqui emaranhado entre os meus silêncios. quando escurece e a quietude da noite me adentra pelas frestas, sinto como se eu tivesse nascido pra me equilibrar nesse trapézio sozinha. e tremo. tremo e choro porque a noite me diz que estou a milhas de distância de mim. do momento em que finalmente vou me encontrar e aprender a lidar com tamanha instabilidade emocional. talvez meu coração ainda seja pequeno demais pra amar. ou o tempo que me fragmentou em partes que estou predestinada a nunca mais encontrar. mas talvez você possa me ensinar a amar esses meus passos desgovernados, sempre em direção a lugar nenhum. talvez você segure a minha mão e me ensine como ser uma canção mais doce, menos melancólica. você diz que minha voz é bonita, mas talvez eu não cante nas nossas noites juntos, por medo de você se sentir aprisionado na minha solidão que grita entre as notas e acordes. 

(essa é a verdade: tenho medo de ser pra sempre uma música triste demais pra qualquer um querer ouvir até o fim.)

Não dá pra encontrar o amor da sua vida em um barzinho ou em baladas, muito menos na fila da padaria em um sábado de manhã. Mas da pra encontrar de joelhos dobrados, coração entregue, confiança ancorada. Da pra encontrar quando você começar a acreditar que Deus é capaz de fazer tudo por você. Viva os projetos de Jesus, e contemplará a realidade do que são sonhos de verdade. Se Ele cuida de toda a natureza, cuidará de Ti também.
—  Jaqueline Umberto
Eu te dou mais uma chance. Vai, grita tudo aquilo o que você sempre quis dizer, espalha pro mundo todo que eu não fui suficiente pra você. Estou te dando mais uma oportunidade de esfregar na minha cara pela última vez o porquê da gente não ter dado certo. Fala que eu não soube te dar valor, mas fala também de todas as vezes que eu disse que te amava e você sumia como quem tivesse medo de ser amado. Vai, desata todos os nós da sua garganta, eu deixo. Mas lembre-se que será a última vez que vai direcionar alguma palavra à minha pessoa. Porque depois disso, quem quer sumir sou eu, quem vai desaparecer sou eu. Só que eu não vou voltar como nas outras vezes, se eu for, eu vou de vez. Estou cansada de ser só criticada, cobrada, humilhada. Está na hora de eu tomar vergonha na cara e desistir dessa história maluca da gente. Mas pode falar, eu quero que você fale. Que você diga tudo que você quer dizer, tudo que está prendido ai dentro pra que não haja nenhuma reticência nessa história que já era pra ter um ponto final há muito tempo. Joga tudo na minha cara, eu deixo. Mas fala direito. Fala das vezes que eu cuidei de você, que eu te protegi, que eu deixei tudo e todos por causa de você e você nunca deu valor. Fala das vezes que eu corri atrás de você que nem uma idiota e você me desprezou. Fala das vezes que eu fiz de tudo por você, até fingir ser alguém que eu não era por sua causa. Tudo isso por você, pra te fazer feliz, te satisfazer. Cansei! Basta! Fui burra e ingênua demais, fui cega por causa do amor. Mas tudo tem o seu limite e eu passei do meu há muito tempo. Está na hora de eu ser feliz, eu mereço isso. Então, joga todas essas coisas na minha cara, fala tudo o que você tem pra falar. Vamos por um ponto final nessa história de vez. Não era pra ser e só agora percebo isso. Vamos, grite, não era isso que você sempre quis, mostrar pro mundo todos os meus defeitos, o quão antiquada eu sempre fui ao teu lado. Está com medo de mostrar a todos, sente vergonha de dizer que um dia foi feliz comigo? Pois bem, se não gritares eu grito. Eu digo que não mereci ser tratada do jeito que você me tratou por tanto tempo, não mereci ser pano de chão pras tuas besteiras todas, não mereci tudo que tu me fez, só que às vezes o amor é assim, estranho, faz a gente fazer besteiras, gostar de quem não merece a gente, e não, você não me merece, nem um pingo de mim, do que eu fiz, do que eu planejei, do quanto eu te amei. Então, já não me importo se tu gritares o quanto estou sendo pomposa em dar um basta pra tudo isso, pra tudo que sempre foi um nada da tua parte; vamos grite, mas desculpa se eu não ouvir tuas palavras, elas já viraram ruídos distantes dentro de mim. E foi você que deu um ponto final a tudo isso.
—  Raquel + Amanda + Paula = Ancoradas
As verdadeiras tempestades acontecem aqui dentro. Eu sou piloto do pequeno e frágil barco que é meu coração. Grandes ondas me põem medo, como enfrentá-las sozinha nesse imenso mar que é a vida? Com o tempo ganho coragem e confio o meu barquinho ao mar. As ondas que me afligem se achegam para tentar afogar a minha coragem e levar a minha fé com as águas. Mas não desisto, o meu barco apesar de frágil, é forte. As tempestades ficam cada vez mais violentas e as ondas aumentam como num piscar de olhos. O barquinho balança toda vez que é atingido. A tempestade está prestes a acabar, a última onda chega, aquele momento parece nunca ter fim. Quando tento vencer a mais devastadora onda em seu alto mar as minhas forças se esvaem, o meu barco já não suporta a tormenta e então sinto-me afundar nas águas daquele mar que um dia eu confiei… Ainda consciente, algo me trás esperança! Lembro-me de que mesmo fraco, sou forte - Deus - eis a minha esperança. E então, mais uma vez encaro o imenso mar, e percebo que já não é mais tão grande se comparado com a grandeza do meu Deus. De repente percebo que não estava sozinha durante toda a tempestade, vejo que alguém não me deixou desistir totalmente. O mar bravio se acalma, as fortes ondas cessam, minha fé ressurge e o meu barco volta ao mar da vida. Chego então à terra firme, meu barquinho está ancorado. Agora Deus é quem pilota esse pequeno barco, e eu, sou apenas uma tripulante.
—  Ancorada - T. Serpa
Estou me apaixonando por você. Entre tanta gente, eu escolhi você pra me apaixonar. Logo você. Que não se apega a ninguém. Que não se importa com nada, só você mesmo. Logo você que pode voar pra longe de mim a qualquer momento. Logo você… Agora estou presa a essa rede de ilusões, a essa corda bamba em que qualquer momento eu posso cair e quebrar a cara (e o coração). Estou presa a você e esse meu amor que nos une. Talvez não seja tão ruim se apaixonar por você. Talvez não seja um bicho papão de sete cabeças. Até agora você não me deu nenhum motivo pra chorar, pra sofrer. Mas é que eu tenho medo, muito medo de como vou ficar depois que essa ilusão acabar, que o seu gostar virar pó e você não ter mais nenhum motivo pra ficar comigo e então partir. Ir voando pra longe de mim feito passarinho. Porque eu não sei se vou aguentar entende? Sinto muito, mas estou dependente de você. Você é meu vicio, é uma droga que eu nunca quero parar de tomar. Eu disse que com você as coisas são diferentes. Eu te avisei pra não entrar dentro desse barco porque com você as coisas são mais intensas, mas você não me ouviu. Porque, alias, pra você não vai acontecer nada. Você vai embora quando quiser, vai me esquecer quando quiser e eu não posso fazer nada pra mudar isso. Mas eu… Eu vou sofrer, vou chorar, vou morrer de saudades. Saudades de quando a gente ficava juntos. Saudades dos beijos lentos e intensos, dos olhares que diziam tudo, dos abraços fortes com medo de perder um ao outro. Como eu tinha medo de me entregar do jeito que já me entreguei pra ti, só eu sei o quanto eu me contive, o quanto eu lutei contra isso, contra essa maldita atração, que com o passar do tempo está se transformando em algo mais puro, mais lindo, mas parecido com amor. Você nunca foi de uma garota só, mas está sendo só meu. Eu sempre fui de fazer juras esternas, mas por incrível que pareça estou me resguardando. Pois é, parece que estamos mudando, um com o outro, juntos nesse barco de coisas intensas, agora só torcer para que não afunde. Eu estou me fechando, tenho medo de falar certas coisas e a sua reação seja diferente, tenho medo que não seja recíproco e tenho medo de te perder. Eu sei que você é o tipo de garoto que se perde uma, ah, não tem problema não! Semana que vem já tem outra e sabe, eu costumava ser assim mas você me mudou, fez com que eu me sentisse diferente. Você sabe que eu não quero isso acabe, não quero ver suas mãos longe das minhas, não quero que um dia eu não possa mais sentir seu abraço porque ultimamente a única coisa que me deixa segura, é ele. Eu vou fazer de tudo pra te ter, vou fazer de tudo para que isso seja eterno enquanto estivermos juntos. Sim, você é encrenca, uma encrenca das boas. Mas, quem disse que eu não gosto de me embolar nesse nó sem fim? Nós dois sabemos o que estamos fazendo. Nós estamos fazendo uma coisa errada. Você é um tipo furacão ambulante embalado nesse seu jeito marrento e grosso. O problema é que você não é qualquer pessoa. Ninguém nunca foi capaz de tirar meu clichê de mim. E você, logo você, conseguiu. O que você sabe sobre essas coisas? Nada, nadinha. Você não sabe lidar, e me pede pra ter paciência. E se eu perder tudo isso? Você procurou me estragar de todos os modos só para eu combinar um pouco com você… Tem tudo pra dar certo, mas é que a gente só sabe fazer dar errado.