agudos

AS CURVAS E OS CORVOS

Vou contar-lhes um fato que me ocorreu. Moro numa pequenina cidade do interior paulista. É uma dessas cidadezinhas que precisamos viajar até a outra mais próxima para sentir o gosto doce da liberdade e fugir dos olhares tortos de nossos vizinhos idiotas.

Eu havia retornado de uma exaustiva jornada de trabalho. Sou gerente de uma pequena loja de materiais de construção, naquele dia recebi mais reclamações de clientes do que em qualquer outro dia do ano anterior, ora os funcionários não os atendiam com a “simpatia suficiente”, pois era uma segunda-feira; e cá entre nós, não somos obrigados a abrir um largo sorriso a um completo estranho nesse fatídico dia; ou os materiais apresentavam algum defeito.

Minha cabeça latejava, o grito agudo de meus filhos ao me darem boas-vindas trincava-me o crânio. Nem mesmo o beijo quente de minha amada foi capaz de me livrar de toda aquela exaustão; mas tenho de admitir, o cheiro do jantar estava maravilhoso, isso reconfortou-me de certa forma.

- Fumarei um cigarro e me juntarei a vocês em seguida. – disse eu a ela. Ela retribuiu com um sorriso insatisfeito.

Afastei-me da cozinha e fui até a varanda do apartamento em que moro.

Daqui é possível observar a longa avenida. Naquele momento o transito estava normal. Ao longe eu ouvi o motor velho de algum caminhão, deduzi que fossem os coletores de lixo.

O céu tornava-se escuro, as pessoas corriam para refugiar-se em seus lares, as sombras tomavam as ruas e eu observava o anoitecer.

Ascendi o cigarro e dei um trago. Os carros passavam. Eram rostos e mais rostos se dissolvendo nas trevas. Outro trago e agora meus pensamentos esvaiam-se, minha mente se aquietava, o som tornou-se abafado por um instante, mas algo me sugou de volta à realidade.

Vi na rua uma gangue de cães anarquistas, eram cinco ao todo. Paravam a cada lixeira que surgia no caminho, rasgavam os sacos e espalhavam o conteúdo na calçada.

O fluxo de carros estava baixando. Terminei o cigarro e fui jantar com minha família.

Enquanto caminhava até a mesa, ouvi um grito zangado seguido do som de uma garrafa de vidro se estilhaçando no chão, em seguida latidos rebeldes foram se afastando cidade afora.

Sentei-me à mesa. Era possível ouvir o noticiário na televisão, mandei desligar; notícias de mortes e assaltos não eram apropriadas para aquela ocasião. Meu filho tomou o controle nas mãos e mudou de canal, agora passava um desenho bobo.

- Comam! – disse minha esposa com voz firme – Vocês não irão assistir televisão enquanto não comerem. – Ela apanhou o controle e desligou o aparelho.

- E ai? O que fizeram na escola? – perguntei aos meus garotos.

- Aprendi matemática… – disse meu filho mais novo, de oito anos.

- Eca! – interrompeu o outro mais velho, de dez anos. - Matemática é chato!

- Mas você precisa dela! – aconselhou minha querida esposa.

O jantar havia me confortado de certa forma, mas o peso e o cansaço ainda torturavam-me.

- Vamos para a cama crianças! Amanhã vocês tem aula. – disse eu em voz alta.

Minha mulher empilhou os pratos e os lavou.

Enquanto isso eu acompanhava com um sutil sorriso no rosto aquele desenho bobo que meus filhos adoravam. Apesar do cansaço eu não sentia vontade alguma de adormecer. Meus olhos estavam empapuçados e vermelhos. Em meio a pensamentos caóticos e obscuros, dois braços quentes envolveram-se em meu pescoço, a pele macia, cheirosa… Minha esposa desejando ser amada.

Ela dizia coisas para mim, mas de fato eu não estava em um dos meus melhores dias. Seu sorriso me instigava, minha vontade era esquecer tudo e entregar corpo e espirito… Não, não… meu corpo não suportaria, eu não seria capaz de proporcionar tal prazer a ela.

- Desculpe amor, estou cansado. – disse, esperando sua total compreensão.

- Tudo bem… Me divertirei sozinha. – disse ela excitada, mas visivelmente frustrada.

Ouvi seus leves passos de anjo se afastarem e a porta do quarto se fechar.

Olhei para a televisão e vi que nada me entretinha. Passei por todos os canais mas nada chamava-me a atenção.

Olhei para o relógio e ele já marcava quase meia noite.

Eu necessitava dormir; mas antes, é claro, como bom fumante que sou, decidi acender outro cigarro.


Caminhei até a varanda. A noite estava gelada, não havia nenhum carro na rua, o farol solitário se alternava entre verde, amarelo e vermelho.

Puxei o cigarro do maço, suguei-o. Dei uma longa tragada, segurei a fumaça em meu pulmão e em seguida soprei-a na direção do vento.

No momento em que soprei a fumaça vi irromper de uma parte escura da calçada uma misteriosa mulher, as pernas a mostra e a longa calda do vestido preto misturava-se as sombras. Ela se ocultava por debaixo de um guarda-chuva negro - nenhuma gota de chuva naquele momento, de certa forma aquilo me intrigou.

A mulher atravessava a faixa antes mesmo do farol bloquear o fluxo. Ela parou à frente de um carro - não vi e nem ouvi o veículo aproximar-se, porém ignorei este fato. Era um sofisticado carro prateado, daqueles espaçosos que precisamos vender nossos próprios órgãos para arrecadar o dinheiro da metade do valor necessário para compra-los.

O motorista olhava fixamente para a moça, era uma homem elegante, deduzi que tinha uns trinta e poucos anos. De repente a porta do carro se abriu e o homem foi surgindo ao lado. Os sapatos lustrados, a calça de tecido fino e o terno de camurça preto.

Não pude ouvir o que discutiam, estava longe demais. Apenas ouvia o soprar do vento e o miar dos gatos que saiam de dentro dos becos sujos ali próximos.

Surgira de repente outro carro atrás, este buzinava incessantemente, e eu observava tudo, oculto no mais alto nível, como o expectador de honra daquele evento inesperado.

Dei outro trago no cigarro, este fez-me tossir. Um pouco da fumaça do cigarro também invadira meus olhos e provocou-me uma irritação. Meus dois olhos ardiam como se vinagre estivesse sendo derramado sobre eles. De repente um som fez-me ficar imóvel. Um disparo. Um disparo de arma de fogo.

Eu vi… vi um corpo ensanguentado! Se encontrava estirado no chão ao lado de um carro velho e enferrujado, O brilho da lua refletia no sangue. A morte encontrava-se parada ali, em seu mais profundo silencio.

O dono do carro prateado empunhava um revolver ainda quente - vi um traço fino de fumaça sair do cano da arma e dissipar-se no ar. A mulher ainda permanecia ali, parada, como se nada tivesse acontecido.

O homem então se virou para a misteriosa mulher, murmurou algo e entrou no carro.

Com o farol fechado ele acelerou, andou por alguns metros e então houve outro disparo. O carro desgovernado continuou andando até bater em um muro; dezenas de gatos saltaram horrorizados das sombras e se postaram no teto do veículo em um ato de rebeldia e indignação!

Assustado, peguei o celular do bolso e disquei o número da polícia, olhei para o corpo no chão, depois para a lua - solitária no céu -, depois mergulhei meu olhar em direção ao carro batido no muro, e então lembrei-me…

A mulher!

- Disque denúncia. Qual é a ocorrência?

Eu não conseguia dizer nada. Procurava a mulher por toda a parte, mas ela havia sumido.

- Senhor? – disse o policial.

De repente uma revoada de corvos irrompeu à minha frente. Assustei-me e dei um salto para trás. Observava tudo com perplexidade.

- Me desculpe… Eu… eu acho que houve um assassinato aqui.

Então, deixem-me explicar exatamente o nível de relação que eu e Rafael possuímos — Lembrando, é claro, que isso é algo super provisório. Nosso relacionamento está em fase de construção, se é que me entendem. Porém, isso não vem ao caso.

A questão é que ele simplesmente não sabe da minha existência. Rafa não tem ideia de quem eu sou, e tampouco possui conhecimento da minha paixão por-enquanto-unilateral e do planejamento detalhado de nosso casamento que fiz há dois anos atrás. E talvez isso possa soar um pouco trágico, mas sei que as coisas vão mudar. Sim, elas vão.

Sendo sincera, a única vez que troquei uma palavra com ele foi no 1° ano, quando esbarramos acidentalmente no corredor e murmurei um pedido de desculpas quase no automático. É claro que quando percebi em quem trombei, fui forçada a comprimir um grito agudo e extremamente desesperado que queria escapar da minha boca. Realmente cogitei nunca mais lavar a pequena área em meu ombro que entrou em contato com o seu.

Mas eu acabei desistindo da ideia e tomei banho, é claro. Dois dias depois. […]

—  (In)compatíveis, Amélia.
6

(..) O vulto oscilava em volta da bruxa-humana, deixando os restos de seu corpo nebuloso pelo ar da noite álgida. Por mais veloz que fosse, Karsay seguia cada movimentar seu, o escudo ampliando-se como uma onda de luz. Um cântico emergiu, ecoando entre as árvores de troncos ásperos e folhas escuras, era diferente de tudo que já ouvira, calmo e agudo, como se controlasse o ar ao redor de si. Suas esferas acompanharam a melodia, deparando-se com uma figura, também, de beleza extravagante. 

Era uma mulher de pele caramelo, a lua iluminava atrás dela, deixando seus cabelos longos e azulados cintilarem por cima de seus seios. Ela arremessou a lança que hora era metálica outrora adquirira um tom dourado, com adornos em cerúleo vívido e uma pedra água-marinha. A ponta afiada de sua arma invadiu a escuridão do vulto, criando uma ferida em seu peito que crescia aos poucos, transformando todo o corpo do ser sombroso em apenas gelo e em seguida, o desmaterializando. A mulher de olhos finos e puxados, quase escondidos por uma franja, a fitou com curiosidade. Karsay sentiu suas bochechas se queimarem quando deu-se conta da nudez da outra, rapidamente, virou o rosto e se martirizou por conta de sua lerdeza costumeira.

 – Hm… Obrigada – disse ela, com o rosto ruborizado por conta da vergonha.

 A mulher permaneceu em silêncio, seu cabelo liso ondulou pelo ar quando agachou-se velozmente para apanhar sua lança. Bastou tocar em sua hasta, que logo o objeto se transformou em um colar de pedra azul-esverdeada e  com cordas prateadas.

(…)

Narian, a lenda dos mares albagrinos, conhecida como a mulher que levava os homens a perdição. Ela seduzia-os junto de suas irmãs, ou criações como gostavam de dizer, e os levava para o seu Reino Submerso, saciando seus desejos e se eles passassem pelo teste do mar, tornavam-se guerreiros tritões, cuidando da parte mais distante do oceano, próximo ao Reino Vampiro. Não apenas isso, ela era Guardiã dos Mares, cuidava e protegia todos os seres marítimos. Mas não salvara a bruxa apenas por bondade, havia um preço,  sempre há um preço a se pagar. (…)

youtube

Ponerse a ver un documental de la BBC y parecer que estás viendo un documental del canal Historia.

La temática es, así ‘hablarían’ los Neandertales