a caixa de pandora

eu tenho medo.
hoje, pela primeira vez, confessei pra mim mesma em voz alta o meu medo. e não é dos outros, é de mim.
eu tenho medo de mim.
eu tenho medo do que posso me tornar.
eu tenho medo até do que, em parte, já me tornei.
e é um medo como um fogueira em que o fogo começa pequeninho e vai crescendo, subindo, consumindo tudo em volta - destruindo talvez seja a palavra certa.
“mas você é tão boa”, me dizem.
mas eu não sei, retruco - só em pensamento.
até hoje eu encaro as fotografias de quando era criança sem entender bem quem é que está ali. logo me reconheço. me olho no espelho e vejo o traço que nunca mudou: os olhos.
o vazio dos olhos.
lá está ele. incansável. interminável. insone.
eu tenho medo desse buraco negro, medo de abrir a “caixa de pandora” e descobrir que só pássaros negros e mortos vivem ali.
“mas você é calma”, me dizem.
mas eu não sei, retruco de novo - só em pensamento, de novo.
eu tenho medo desse fantasma que fica à espreita só aguardando eu fraquejar pra colocar porta abaixo e me vencer de novo.
eu nunca fui boa em vencer.
eu tenho medo de descobrirem que eu não sou nada do que pensaram que eu fosse.
eu tenho medo desse gelo que cresce de dentro pra fora e não de fora pra dentro.
eu tenho medo de que os psicólogos cansem, de que os psiquiatras esgotem as receitas de remédios, de que as pessoas sangrem nos meus estilhaços sem controle.
eu tenho medo de o mundo desistir de mim antes de eu desistir dele.
“mas você passa tanto amor”, me dizem.

mas eu não sei.
eu não sei.

e eu nem retruco.

Vem cá, me descubra, abre essa minha caixa de pandora, minha arca da aliança, vasculhe bastante, com intensidade, investigue meus mundos indefinidos, meus mundos incongruentes, mundos descobertos ou ainda desconhecidos, procure meus gostos e dissabores, meus males e encantos, talvez você goste e encontre coisas que ainda não sei, e quem sabe, decida ficar.
—  Ronaldo Antunes

Choro que cai como brasa escorrendo, fogo de uma maldita erupção vulcânica, rasgando. Ódio, asco e todos os malditos sentimentos liberados da caixa de Pandora. Mas a caixa do meu ser nunca é esvaziada, o cheiro é pútrido como algo que é acumulado por muito tempo e só decidiu entrar em contato com o ar porque ou choro ou explodo de dentro pra fora e espalho mil pedacinhos de mim pelo mundo. Como é um choro por tristeza? O condicionamento é a água quente escorrendo dos olhos pois se o ódio domina cada parte do meu ser, de mim é só isso que surgirá. 

debohipocrisia

abriram a caixa de pandora: papelzinho colorido é paz indiscreta na ponta da língua
ali na Rep a gente construiu uma sociedade inteirinha de luz e amor
minhas calças coloridas ficam ótimas dentro do carro da mamãe Passeando por aí
“como é possível sentir raiva? não entendo quem não busca a paz..”
a paz interior é um privilégio de condominio
não é atoa que as religiões orientais mutantes e energias e espiritualismo atingem os donos de algo
os filhos dos donos de algo
a bolha da federal se constitui numa espécie de Sociedade Alternativa
as faculdades estaduais constituem numa utopia Papai Pagou
a maconha na biqueira é um pedaço de sangue e de dor e sem crise, relaxa
fumar continua bom
mas a grandeza inútil das nossas conversas sobre o universo
põe Ghandi numa estátua de pedra o Buda gordo sentado: prosperidade autoreferenciada
e no fim fica fácil chamar Malcom X de quebrador de vidraça
as vidraça tem mais alma que um pedaço de carne
o cérebro é um poço de ideias jogadas: profissionalismo, dinheiro, arranjar emprego
é mais fácil a gente acabar morrendo de dor e de desapego
mas é incrível o que essa gente passa todo dia O Estado De Sítio
essa molecada vive dentro dum mundo imenso de Bucolismo
“nosso cartaz apoiando o povo em luta na índia é o próximo passo da revolução”
esses dias ouvi de um professor que só anda de terno que o Exército Vermelho é coisa da imaginação
ele não viu a Verdade obstruída nas casas, a bomba relógio ocupando praças as crianças que olham no olho
o fim anda próximo demais do que parece o pino foi retirado
a Granada é de mão vai explodir por todos os lados
Tem mais Gente Viva nos trens e buzão do que no Laboratório De Estudos de Periferização,
A Realidade Ingrata é um palácio íngreme construído sob a sucata
é hora de tirar o lixo e lavar a roupa, o silêncio é mais forte que a sua boca
e o mundo vai permanecer como tá enquanto você, deboísta não se tocar
“No inferno os lugares mais quentes pertencem aqueles que permaneceram neutros em tempos de crise”
como eu não acredito em inferno, a praga é meu dedo em riste
A Coisa Vai Ferver, Parceiro
A coisa vai ferver no mundo inteiro;

Achados e Perdidos

“Vire a segunda à esquerda, na Esquina dos Desiludidos”. Foi o que me disseram; então o fiz.

Caminhei pela calçada; as ruas vazias, lotadas com o ar frio da noite. Virei a esquina com as mãos nos bolsos. Enfim, entrei nos achados e perdidos. Olhando baixo, perguntei à senhora curva e enrugada que estava atrás do balcão:

– Com licença. Um dia desses estava caminhando pela rua e acabei perdendo as minhas esperanças. Elas estão aqui?

– Meu querido  – ela disse sorrindo atrás dos minúsculos óculos –, aqui guardamos apenas o que se pode fazer alguém feliz.

A senhora deve ter percebido a confusão que tomou meu rosto, pois saiu de trás do balcão e parou a alguns centímetros de mim. Colocou seus dedos em meu queixo.

– Se a Esperança fosse algo que trouxesse felicidade, meu querido, ela não estaria na Caixa de Pandora.

Falar é fácil, difícil é ouvir. Somente quem se sente aprisionado sabe que a vitalidade se despedaça igual uma peça de porcelana. A solidão, a futilidade, o fracasso, o anonimato, é tão, tão grande que chega a ser insuportável. Vivemos numa caixa de vidro mental e física. Um sistema com permissões, normas e aceitação que molda tudo aquilo que não é dito e que caso se rebele, se torna apenas outra estatística num mundo que não irá parar para consertar o seu coração. Ao ler estas linhas, qual o tamanho da sua jaula? Cinquenta metros, cinquenta quilômetros, alguns centímetros? A limitação da sua mente? É isso? Uma caixa de Pandora que liberta de tudo, medos, tristeza, guerras, desprezo, menos a capacidade de ouvir. Cuidado com isso, ainda faltam alguns itens para saírem da imaginação. O que acontece quando você abre essa caixa e a esperança não está mais lá? Oras meu caro, a resposta é simples, a vida termina e não existe uma passagem de volta. É uma longa viagem num campo minado onde você caminha tentando sobreviver, ou melhor, apenas existir. Pontes deveriam ser uma bela travessia para admirar a paisagem, não um cemitério. Imagino a quantidade de pessoas que se sentem atordoadas, vazias, levando porradas da vida diariamente e aguentando para prosseguir até a luz do fim do túnel, uma luz que na verdade está apagada há muito tempo por falta de manutenção: aquele cuidado com o tesouro mais precioso que alguém poderia possuir.
—  Emerson Mollin
Prólogo



Não se deve julgar um livro pela capa e nem uma pessoa por sua aparência. Essa é uma frase muito usual, mas pouco praticada. Todos podem pensar que eu sou uma mulher burra, alienada, sem cérebro e quantos mais adjetivos qualificativos ruins quiserem por, mas eu estou longe de ser assim. Eu sou vaidosa, me sinto bem estando bonita e arrancando olhares, mas isso não significa que eu não posso equilibrar beleza com inteligência. Não é porque eu gosto de ser livre e viver tudo que a vida me oferece, que sou uma pessoa que não pensa no amanhã, pois eu penso e reflito muito e justamente por isso eu tenho à certeza que algo está muito errado, eu só apenas ainda não descobri o que está acontecendo.


Fui até a varanda daquele rebuscado quarto de hotel, um dos hotéis mais luxuosos de São Paulo, na verdade, do Brasil, hotel onde apenas se hospedava a casta da sociedade, pessoas infinitamente ricas e influentes, e cá estava eu, em um excelente quarto do mesmo, sentada no chão frio da varanda, olhando o céu negro da noite e fumando um cigarro, minha cabeça girava a mil, eu não sabia o que pensar, ultimamente tudo era estranho e parecia um quebra cabeça, eu apenas tentava a todo custo montar as peças. O motivo de toda minha inquietação era meu marido.

Eu conheci Adrien a quase três anos, ele era um homem bonito, de porte e que sabia como tratar uma mulher, dizem que lordes são inglês, porém o meu era francês e para completar, por um ótimo descuido do destino, poucos meses depois que nós conhecemos eu engravidei e nasceu meu pequeno Max que ainda é um bebê de um ano e meio. Adrien era um homem sério em oposição a mim, eu sou uma garota que ganhava a vida tocando em casas noturnas e fazendo Striptise na internet, com o corpo tatuado, cabelo descolorido e um senso de liberdade descomunal, já Adrien é um empresário, que passa horas do seu dia focado em trabalhar e fazer lucros, com noventa porcento do seu guarda-roupa formado de roupa social e terno e gravata. Ao menos era assim que ele era quando eu o conheci e até três meses atrás, porque hoje ele é apenas um homem completamente diferente.

Nos conhecemos em Las Vegas, aonde nos moramos, ou talvez apenas aonde nos morávamos, pois hoje eu já não tenho mais certeza de nada. Adrien é francês e eu sou brasileira, mas ambos não tínhamos vontade de sair dos Estados Unidos, apenas rodávamos nossos países para encontrar nossas famílias e logo regressávamos a nossa casa, mas novamente repito, era assim, hoje mais não.

Viemos para o Brasil fará três meses amanhã, a visita iria durar uma semana, tínhamos tudo programado, porém por algum motivo alheio a minha vontade e a minha ciência, até hoje não voltamos.  Adrien nunca podia se ausentar mais do que uma semana da empresa, pois segundo ele mesmo, quando ele não ia, nada lá funcionava, porém fazia três meses que ele nem em sombra passava pela empresa, porém ainda assim ele tinha dinheiro suficiente para manter um luxuoso hotel, um luxuoso carro alugado, comprar roupas caras e tudo mais que quisesse, aquilo era estranho demais. Da onde estava saindo esse dinheiro todo? Por que não querer voltar para os Estados Unidos? Entre outras, essas eram as principais perguntar que rondavam minha mente e me desinquietava.

Faz exato uma semana que perguntei Adrien sobre isso, sobre os reais motivos que o fazia querer permanecer no Brasil, o país onde ele mal sabia falar a língua corretamente, perguntei como ele ainda tinha dinheiro se nem mais com seu sócio o via falando, minhas dúvidas foi a chave para abrir a caixa de Pandora, Adrien ficou descontrolado, por um segundo pensei que ele me bateria, porém ele não foi tão longe, depois disso nossa relação apenas está funcionando na base da ironia da parte de ambos, raiva da dele e desconfiança da minha. Mas o mais estranho de tudo, é que mesmo assim, mesmo com o clima ruim, Adrien nem em sonho pensa em voltar para a América do Norte. Definitivamente algo estava muito errado e eu iria descobrir o que era, ou não me chamaria mais Clara Aguilar.

deveria ter um 'pseudo' antes disso tudo.

bêbados atuando poesia na noite de lua minguante. inventando princesas e dragões. e gastando a ultima gota de humanidade que resta na alma dilacerada pelo sol do meio dia. enquanto a seca racha o chão dos sonhos, no outro lado o frio congela a chama dos olhos. tudo isso é sobre falta de esperança. ainda continua presa na caixa de pandora. mas não temos coragem para abri-la. não temos coragem de usar o machado e arrancar o mal pela raiz. somos medrosos. e receamos que, por trás de tudo isso, não sobre nada. tijolo por tijolo. lágrima sobre lágrima. apavoramos com a ideia do vazio, mas insistimos em colocá-los na nossa prosa. 

querem nos devorar, baby. os canibais de alma. a centelha prateada que ilumina seus olhos, querem te tomar. o riso seco na boca da criança querem apagar.  

a escuridão vai dominar o mundo, fiquem avisados. eu sei. as coisas progridem pra trás. e acabam de começar uma nova emenda: não pode ter mais de dois sonhos por pessoa. haverá uma superlotação. 

e porque não nos matam logo? acabam com esse sadô-masô de uma vez. uma orgia de chicotes de fel mais uma rapidinha depois do almoço. como viveremos, baby? se o estoque de feijão acabou semana passada. e a terra já dá tudo que planta. 

a terra parou, só a gente não percebeu. 

[...]

Sou bicho da natureza enquanto participar da cadeia alimentar
sou infinito em mim mesmo
enquanto souber disso
sou pele e ácaro
que cobrem uma caixa de pandora com toda incerteza do mundo
sou parede construida na areia do mar
que não tem certeza se cai hoje
amanhã
ou nunca
sou tempo e espaço do meu próprio universo paralelo
porque não sou um ponto
sou três

Higor
Eu precisava transbordar

Há quanto tempo não paro para escrever… sinto que me fechei.

Fechei o coração, de onde os versos fluem e talvez por isso calei, na alma todo sentimento, me sinto como alguém que comeu demais.

Comi muito sentimento, palavra por palavra, lágrima, por lágrima, esqueci os sonhos, num baú chamado peito, colecionei fotos, sms, momentos, beijos e abraços.

E talvez eu tenha medo sim de me abrir de novo, como as flores do ipês da avenida sinto que floresci, mas minhas flores estão no chão, caídas apos meu polem ser levado, levado pra longe pelo vento e espero q essa flor floresça, que enfeite o jardim de alguém.

Eu preciso que me diga que essas flores não vão morrer, que me diga que não serei a unica a regar. Por que eu tenho medo, meu bem, tenho medo de amar, tenho medo dessa caixa de pandora que são meus sentimentos.

Traga essa chave, me abra, regue meu jardim.

Natasha Maximiano

AL MEU PARE · A MI PADRE · FOR MY FATHER (1939-2014)

Ja mai més res serà igual. Ho sabia, ho sé, ho sabem tots. La mort és aquesta amiga indesitjable que ens visita puntualment quan ens arriba l’hora. Ens apareix i ens agafa de la mà i ens porta, per un camí sense retorn, cap a paratges sembrats de silencis pesants com roques de marbre, mentre els que quedem al món intentem omplir les absències amb la raó, enganyant-nos amb pensaments falsaments reconfortants que mai no seran capaços d’omplir el profund esvoranc que portarem al cor la resta de la nostra existència.

La vida, ara, encara serà més dura. També ja ho sabia, que seria així. Tot serà una mica més difícil i hauré de treure coratge —un coratge inexistent, tanmateix— de les parts més remotes de les cèl·lules de l’organisme fent servir alquímies secretes, inefables, gairebé impossibles.

Més que mai em sent un rodamón a qui els saltejadors han assaltat en un camí perdut enmig del no-res i que han deixat nu dins una natura inhòspita. Em miro i em veig amb les mans desertes, buides; em miro i em veig que tot el meu interior s’ha convertir en una caverna obscura plena d’ecos de fosca. Però també veig, dins la profunda tristesa, una part de llum càlida, plena d’agraïment, que m’han mostrat, que m’han demostrat, tots els que vertaderament m’estimen, i a la qual m’he aferrat i m’ha permès mantenir el cap fora de les fosques aigües. També, ara, em veig a mi d’una altra manera, com si sortís del cos físic em pogués analitzar amb més detall i conèixer com sóc vertaderament… i ara, més que mai, sé que sóc així com sóc perquè per les venes em corre la mateixa sang que a tu t’omplia el cos i sé que sóc així com sóc perquè tu em vares modelar de la mateixa manera que el terrissaire fa néixer una eina d’un pilot de fang sense forma.

He heretat molt de tu. Potser tots els de casa ho hem fet: les ganes intensíssimes de fer coses, moltes de coses, de no aturar-nos davant les adversitats; de saber acceptar —i superar— les derrotes, les nombroses derrotes; d’intentar viure sempre amb la vista posada en el futur, amb prudència sí, perquè sabem que mai les coses són tal fàcils com suposem, però també amb il·lusió i esperança; hem après a intentar fer servir el seny —un seny antic, que ja corria per les venes dels avis— basat en la senzilla lògica de la supervivència sense passar per damunt els que ens rodegen. Hem après a ajudar els demés, però mai abandonar-nos. Hem après a demanar perdó, una i mil vegades si era necessari, quan el nostre geni —terrible com una caixa de Pandora, es destapava i ho malmenava tot com una pandèmia—. Hem après a ser una mica franctiradors de la vida, a fer-nos advocats de l’impossible, i anar al nostre propi so intentant compensar el gran desequilibri entre la grandiloqüència que tant ens agrada amb el viure i el deixar viure. Hem après a no fer-nos por de fer el més espantós dels ridículs, d’oferir-nos per tirar endavant allò que ningú volia fer. I fracassar. I fracassar. I alguna vegada triomfar i llavors sentir-nos una part útil de l’engranatge de l’univers. Hem après a estimar les persones, i a intentar ser agraïts sempre… I hem après, sobretot, llibertat. Una llibertat practicada amb l’exemple: mai no ens obligares a res, mai no ens condicionares. Ens deixaves fer, sempre ens has deixat pensar per nosaltres mateixos.

En un dels teus darrers moments, quan et tenia la cara, el cos entre les mans i pel cap ja m’ha passat l’inevitable, he tingut la impressió que la resta de la meva vida em quedaria al cervell la imatge dolorosa, tràgica. I ho ha estat, dolorós, ho ha estat, tràgic. Però juro pels déus que per a mi ja és la imatge més dolça, més plena d’amor, que fins ara mai no han vist els meus ulls.

Gràcies, pare.

Foto: circa 1950