a caixa de pandora

eu tenho medo.
hoje, pela primeira vez, confessei pra mim mesma em voz alta o meu medo. e não é dos outros, é de mim.
eu tenho medo de mim.
eu tenho medo do que posso me tornar.
eu tenho medo até do que, em parte, já me tornei.
e é um medo como um fogueira em que o fogo começa pequeninho e vai crescendo, subindo, consumindo tudo em volta - destruindo talvez seja a palavra certa.
“mas você é tão boa”, me dizem.
mas eu não sei, retruco - só em pensamento.
até hoje eu encaro as fotografias de quando era criança sem entender bem quem é que está ali. logo me reconheço. me olho no espelho e vejo o traço que nunca mudou: os olhos.
o vazio dos olhos.
lá está ele. incansável. interminável. insone.
eu tenho medo desse buraco negro, medo de abrir a “caixa de pandora” e descobrir que só pássaros negros e mortos vivem ali.
“mas você é calma”, me dizem.
mas eu não sei, retruco de novo - só em pensamento, de novo.
eu tenho medo desse fantasma que fica à espreita só aguardando eu fraquejar pra colocar porta abaixo e me vencer de novo.
eu nunca fui boa em vencer.
eu tenho medo de descobrirem que eu não sou nada do que pensaram que eu fosse.
eu tenho medo desse gelo que cresce de dentro pra fora e não de fora pra dentro.
eu tenho medo de que os psicólogos cansem, de que os psiquiatras esgotem as receitas de remédios, de que as pessoas sangrem nos meus estilhaços sem controle.
eu tenho medo de o mundo desistir de mim antes de eu desistir dele.
“mas você passa tanto amor”, me dizem.

mas eu não sei.
eu não sei.

e eu nem retruco.

debohipocrisia

abriram a caixa de pandora: papelzinho colorido é paz indiscreta na ponta da língua
ali na Rep a gente construiu uma sociedade inteirinha de luz e amor
minhas calças coloridas ficam ótimas dentro do carro da mamãe Passeando por aí
“como é possível sentir raiva? não entendo quem não busca a paz..”
a paz interior é um privilégio de condominio
não é atoa que as religiões orientais mutantes e energias e espiritualismo atingem os donos de algo
os filhos dos donos de algo
a bolha da federal se constitui numa espécie de Sociedade Alternativa
as faculdades estaduais constituem numa utopia Papai Pagou
a maconha na biqueira é um pedaço de sangue e de dor e sem crise, relaxa
fumar continua bom
mas a grandeza inútil das nossas conversas sobre o universo
põe Ghandi numa estátua de pedra o Buda gordo sentado: prosperidade autoreferenciada
e no fim fica fácil chamar Malcom X de quebrador de vidraça
as vidraça tem mais alma que um pedaço de carne
o cérebro é um poço de ideias jogadas: profissionalismo, dinheiro, arranjar emprego
é mais fácil a gente acabar morrendo de dor e de desapego
mas é incrível o que essa gente passa todo dia O Estado De Sítio
essa molecada vive dentro dum mundo imenso de Bucolismo
“nosso cartaz apoiando o povo em luta na índia é o próximo passo da revolução”
esses dias ouvi de um professor que só anda de terno que o Exército Vermelho é coisa da imaginação
ele não viu a Verdade obstruída nas casas, a bomba relógio ocupando praças as crianças que olham no olho
o fim anda próximo demais do que parece o pino foi retirado
a Granada é de mão vai explodir por todos os lados
Tem mais Gente Viva nos trens e buzão do que no Laboratório De Estudos de Periferização,
A Realidade Ingrata é um palácio íngreme construído sob a sucata
é hora de tirar o lixo e lavar a roupa, o silêncio é mais forte que a sua boca
e o mundo vai permanecer como tá enquanto você, deboísta não se tocar
“No inferno os lugares mais quentes pertencem aqueles que permaneceram neutros em tempos de crise”
como eu não acredito em inferno, a praga é meu dedo em riste
A Coisa Vai Ferver, Parceiro
A coisa vai ferver no mundo inteiro;

Achados e Perdidos

“Vire a segunda à esquerda, na Esquina dos Desiludidos”. Foi o que me disseram; então o fiz.

Caminhei pela calçada; as ruas vazias, lotadas com o ar frio da noite. Virei a esquina com as mãos nos bolsos. Enfim, entrei nos achados e perdidos. Olhando baixo, perguntei à senhora curva e enrugada que estava atrás do balcão:

– Com licença. Um dia desses estava caminhando pela rua e acabei perdendo as minhas esperanças. Elas estão aqui?

– Meu querido  – ela disse sorrindo atrás dos minúsculos óculos –, aqui guardamos apenas o que se pode fazer alguém feliz.

A senhora deve ter percebido a confusão que tomou meu rosto, pois saiu de trás do balcão e parou a alguns centímetros de mim. Colocou seus dedos em meu queixo.

– Se a Esperança fosse algo que trouxesse felicidade, meu querido, ela não estaria na Caixa de Pandora.

Falar é fácil, difícil é ouvir. Somente quem se sente aprisionado sabe que a vitalidade se despedaça igual uma peça de porcelana. A solidão, a futilidade, o fracasso, o anonimato, é tão, tão grande que chega a ser insuportável. Vivemos numa caixa de vidro mental e física. Um sistema com permissões, normas e aceitação que molda tudo aquilo que não é dito e que caso se rebele, se torna apenas outra estatística num mundo que não irá parar para consertar o seu coração. Ao ler estas linhas, qual o tamanho da sua jaula? Cinquenta metros, cinquenta quilômetros, alguns centímetros? A limitação da sua mente? É isso? Uma caixa de Pandora que liberta de tudo, medos, tristeza, guerras, desprezo, menos a capacidade de ouvir. Cuidado com isso, ainda faltam alguns itens para saírem da imaginação. O que acontece quando você abre essa caixa e a esperança não está mais lá? Oras meu caro, a resposta é simples, a vida termina e não existe uma passagem de volta. É uma longa viagem num campo minado onde você caminha tentando sobreviver, ou melhor, apenas existir. Pontes deveriam ser uma bela travessia para admirar a paisagem, não um cemitério. Imagino a quantidade de pessoas que se sentem atordoadas, vazias, levando porradas da vida diariamente e aguentando para prosseguir até a luz do fim do túnel, uma luz que na verdade está apagada há muito tempo por falta de manutenção: aquele cuidado com o tesouro mais precioso que alguém poderia possuir.
—  Emerson Mollin