Würde

No alto do precipício eu observava toda a vida que estava deixando para trás. Seria a coisa certa a fazer? Sentiriam minha falta? Eles realmente se importavam? Meu coração palpitava, não havia mais tempo. Chegara a hora de jogar de lá tudo o que eu era e recomeçar. Adeus.
—  Relatos de Eleanor.
E eu fiquei triste pela aquela jovem que se foi. Fiquei triste pela filha que perdeu uma mãe. Pelo marido que perdeu a esposa. Pela mulher que perdeu a irmã. Pela vizinha que perdeu com quem conversar aos finais de tarde. Fiquei triste por aquele garoto que não conseguia controlar suas lágrimas ao perder uma amiga. Fiquei triste pelo moço tão jovem que se foi há algum tempo. Fiquei triste pela mãe que perdeu o filho. Pelos meninos que brincavam de correr na rua que perderam o amigo. Fiquei triste por tanta coisa e só então percebi que nós somos tão mesquinhos que só damos importância à uma vida quando ela acaba. Percebi também que as pessoas não dão mais atenção umas as outras. Não param um pouco para conversar, saber como foi o dia, se a família está bem, como vão as crianças na escola, se a tia que estava doente melhorou, se a filha resolveu sair um pouco do quarto, se resolveram o problema da infiltração na parede da sala, se a garota já superou o fim do namoro, se a vida continua a mesma, quais são os planos para as férias, se enfim o irmão resolveu ser uma pessoa responsável, se o casal se acertou, se o cachorro parou de mancar e se ainda há esperanças de um mundo com pessoas melhores…
—  Relatos de Eleanor.
Eu sei que você não acreditava que haviam pessoas que se importavam, embora não demonstrassem o suficiente. Mas agora nada mais importa, só restaram memórias e o som da sua risada que com o tempo deixará de ser lembrada.
—  Relatos de Eleanor.