Trilogia

Instância da Fala

No arranha-céu da visão descontinuada do mundo, antecipo a pausa cardíaca da dúvida perante o encalço do tigre. Me ergo diante de ti a ouvir o dissídio decretado de nosso amor. No deparo absoluto do ante-passo do fim da vida, me armo até os dentes. Olhando-te bem fundo e direto, me precipito sobre a superfície míope de teu olhos dispersos. Vou neles escorregando. E em um exercício malemolente de composição de versos, recarrego a bobina da película, que projeta na parede de manchas e rachaduras a queda de suas pálpebras alocadas baixas pela decisão sinistra e fúnebre do partir, do sumir absoluto. Mergulho em tuas lágrimas. Vejo tudo pelos teus olhos. Exprimo meus sentimentos, debruçada a decepção, em um solfejo retardado de uma valsa. Meu corpo absorve e rebate sua atitude com palavras de graça e quietude. Abro os braços, dou um giro suave soltando os cabelos, recolhendo tudo de mim. Vou-me pra sempre carregando comigo a sua alma medíocre.

Trilogia da despedida por Elisa Bartlett.

Instância do Grito

Desajuste inconsciente. O surto preciso e desgovernado do salto mediante o buraco do avesso do mundo formado instantâneo ao meu redor. Reação involuntária aos teus atos, tua desistência de nós, imagem deslocada da vida, o céu, o mar e o ar avessados a um imenso e colossal vazio negro, buraco. A expressão assustadora pela perda da visão colorida. Um único som vomitado que persegue o segundo anterior mas que se desloca descontrolado pro futuro em linha reta, definitiva e infinita. A tentativa absurda do desdobramento do ponto para a extremidade planificada do inicio. A última sílaba arrancada, dilacerada, do final da palavra assustada, posteriormente encrustada em teu próprio começo, tentativa frustrada da auto compreensão equivocada. Uma nota esganiçada vinda fundo do eixo da garganta rouca que se mata e consome caindo no fundo d'minha alma.

Trilogia da despedida por Elisa Bartlett.

Instância do Mito

Em nanquim tracei as nuances desprendidas do nosso amor. Junto à tinta eternizei meu encantamento, meu louvor. Desloquei a suavidade de teu toque insolente e insistente no meu corpo sonolento a procura do teu gozo matinal. Diante do declínio do meu lado abismal, do ver para jamais ver novamente, no exato momento do movimento impreciso do risco continuado de minhas mãos trêmulas, capturo sua alma no ato de tua despedida covarde. Faço-te estandarte dos meus sonhos, deposito tuas esperanças rudes no entremear noturno das corujas. Esvaeço o espancamento desse amor feito o sopro da fumaça do ultimo forte e ardido trago. Sou malevolente, sigo teus passos cambaleantes sempre compensados por tua alma de poeta, enfeitador de palavras, cascas brilhantes de teus sentimentos ocos. Martirizo teu reflexo na superfície de minha alma despedaçada. Ao final da obra, a dependuro na parede de tintas desgastadas e compositada pela imagem da moça virgem bem acabrunhada à tua imagem. Elucubro nirvana, massageio o ego do palanque das estrelas cadentes de minha alma. Sempre volto ali, deixo flores, vou me esvaziando desse amor. Um dia, nada mais restará.

Trilogia da despedida por Elisa Bartlett