Opus

auto-retrato

que órbitas tristes as
tuas
semelhantes a duas cinzentas
luas
sussurra-te o passado
no ouvido:
- sou teu único amigo
como vão-se as folhas d'outono
leva-te o pensamento o
sono
nos lábios selou o cinismo
para te escapar
o abismo
resta
ficar a olhar pela fresta
o mundo passar
refletido no vidro
a silhueta d'um
futuro perdido
esvaiu-se no memento
do tempo.

comédia

viver é perder
ser é não ser
verdades não passam
de convenções
filósofos e suas “razões”
o que vale matutar?
pensar é cismar
amor é voto indireto
torpor predileto
da sociedade
estamos sonhando
ou talvez apenas
atuando
tudo nos é lícito
exceto saber
quem estamos a
entreter.   

Silêncio. Tapem o orador, trucidem o poeta, cortem as línguas, sejamos todos analfabetos por alguns instantes, rudes no verbo. Chega de lamurias, chega de paixões, chega de amores, chega. Não se façam mais ouvir lancináveis suspiros. Apenas…ouçam. Deixem suas besteiras sentimentais e agucem os tímpanos, pois é chegado o tempo de escutar. Falam tanto, tanto e tanto. Mas afinal, não nos fazem mal os excessos? Que querem tanto falar para tamanho tempo perder sem, no final, coisa alguma dizer? Peço que nesse mísero instante atenteis ao silêncio que, sem nada declamar, rege sublimemente o sistema solar.           

Eu, Sísifo