Latuff

“Charge incomoda”, diz brasileiro que retratou Primavera Árabe
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Por Ana Ávila

Algumas das imagens que mais rodaram o mundo durante a revolução que derrubou o presidente egípcio, Hosni Mubarak, e continuam nas ruas do Cairo criticando as arbitrariedades cometidas pela Junta Militar, são de alguém que está deste lado do Atlântico. O cartunista carioca Carlos Latuff, 42 anos, é o autor dos desenhos que retratam não só o destituído líder egípcio, mas a efervescência na Síria, Iêmen Bahrein e outros países da Primavera Árabe.
Menos conhecido no Brasil, Latuff diz que já foi ameaçado de morte por um site ligado ao partido Likud, do premiê israelense Benjamin Netanyahu. Além disso, teve o nome relacionado a polêmicas internacionais, como as charges do profeta Maomé, publicadas em 2005 por um jornal dinamarquês. Nos desenhos assinados pelo cartunista sueco Lars Vilks, o profeta é retratado como um cachorro, por exemplo. Em 2006, Latuff criou charges sobre o Holocausto para um concurso da Casa da Caricatura do Irã que são uma resposta às caricaturas de Vilks.
Hoje, a caminho dos 30 mil seguidores no Twitter, o brasileiro é constantemente contatado por ativistas ao redor do mundo para ilustrar suas mazelas. Foi assim no caso do Egito - quando o primeiro contato aconteceu via Twitter, dois dias antes do início das manifestações que culminaram com a queda de Mubarak - e continua sendo com os demais ativistas que pedem seu apoio. Sua defesa da causa palestina frente aos israelenses o colocou na vitrine, mas, hoje, Latuff é um homem que dá cara a diferentes causas.

Terra - Como começou seu envolvimento com as manifestações no Egito?
Carlos Latuff - Dois dias antes das manifestações do dia 25 de janeiro, eu fui contatado por ativistas egípcios através do Twitter. Esses ativistas já conheciam o meu trabalho a favor da Palestina e solicitaram que eu fizesse charges em solidariedade aos protestos que estavam sendo planejados. Eu fiz cinco desenhos e enviei pra eles através do Twitter. Esses desenhos foram utilizados, e chegaram imagens de agências de notícias em que os manifestantes exibiam as charges nos protestos nas ruas. A partir daquele momento, eu percebi que as charges estavam sendo úteis aos manifestantes egípcios e continuei produzindo charges e enviando via Twitter até a queda do Mubarak, em fevereiro.
Terra - E hoje, você continua desenhando sobre a crise egípcia?
Latuff - De fevereiro pra cá ouve um hiato e eu fui acionado mais uma vez em junho, também por ativistas, pra que eu fizesse charges expondo a atual situação do Egito, que está sendo governado por uma Junta Militar. As denúncias são de que essa Junta Militar tem cometido uma série de arbitrariedades, prisões de trabalhadores, prisões de manifestantes, censura, agressões físicas, agressões a familiares de mártires (jovens que foram mortos nos protestos de janeiro), tribunais militares para civis.
Terra - Você fez charges para outros países da Primavera Árabe?
Latuff - Eu fiz praticamente pra todos. Eu fiz pra Argélia, Líbia, Síria, Bahrein, Iêmen.
Terra - Como foi o contato com esses ativistas?
Latuff - Na maioria deles, foram contatos dos ativistas através do Twitter.
Terra - Para você, o Twitter é uma importante ferramenta de trabalho?
Latuff - Eu costumo dizer que o Twitter, assim como a internet, é aquilo que você faz dele. Você pode ter uma Ferrari nova em folha. Você que decide se essa Ferrari vai ser utilizada pra chegar do ponto A até o ponto B no menor tempo possível, ou se você vai utilizá-la como um varal pra pendurar roupa na sua garagem. Tem gente que tem conta no Twitter pra dizer ‘hoje eu acordei e tive uma coceira no pé’ e tira uma foto do pé e bota no Twitipic. Depende só de você como utilizar o Twitter.
Terra - Como começou o trabalho como cartunista?
Latuff - Inicialmente, em 1990, eu comecei a trabalhar pra imprensa sindical de esquerda. Até então, eu não tinha um envolvimento ideológico com aquilo que eu desenhava, era uma relação profissional. Com o passar do tempo, eu fui me identificando com os pontos de vista. E, em 1996 pra 97, com um dos meus primeiros acessos à internet, eu comecei a vislumbrar a possibilidade de utilizar a internet como plataforma pra divulgação das charges. Depois de ter assistido a um documentário sobre o movimento zapatista, eu comecei a fazer desenhos tendo como intenção produzir um banco de imagens, de maneira informal, que pudesse ser utilizado não só pelos zapatistas, como também por grupos de solidariedade aos zapatistas.
Terra - Uma das suas charges que mais repercutiram internacionalmente foi uma resposta às famosas caricaturas do profeta Maomé. Como foi isso?
Latuff - Esse desenho que eu fiz foi para um concurso de charges sobre o Holocausto promovido pela Casa da Caricatura do Irã em resposta ao concurso de charges feito por um jornal dinamarquês sobre Maomé. Essa charge que eu fiz ganhou segundo lugar e teve essa repercussão. Sendo que as charges de Maomé tiveram mais divulgação por parte da mídia europeia do que as charges do concurso do Holocausto. Por uma razão bem simples: o Holocausto é propriedade da comunidade judaica e são eles que decidem o que pode e o que não pode ser dito e mostrado sobre esse assunto. Então, fizeram pressão - porque os grupos de pressão pró-Israel da Europa são muito influentes, são muito fortes - e, devido a essa pressão, essas charges não foram divulgadas na Europa da mesma maneira que as charges ridicularizando o profeta Maomé.
Terra - Você já enfrentou problemas no Brasil em função das charges?
Latuff - A grande maioria dos problemas que eu tive com charge no Brasil foi relacionada à violência policial. Três vezes eu fui parar em delegacias por conta de charges, grafites contra a corrupção policial. E tive também, em 2009, um outdoor censurado que tratava da temática da violência policial. É um tabu no Brasil tratar sobre esse assunto.
Terra - E fora do Brasil?
Latuff - Por causa da Palestina. Eu já recebi ameaças de morte de um site ligado ao partido Likud. Vez ou outra recebo ameaças de morte por e-mail. Vários blogs pró-Israel me acusando de ser antissemita, racista, campanhas de difamação na Wikipédia. Eu acho que quem mais se incomoda com charge é o Estado de Israel, o que é muito estranho porque Israel se apresenta como um Estado democrático e se incomoda tanto com charges, com liberdade de expressão. É curioso isso. Mas a charge incomoda muita gente.

fonte: palestina livre