ISSO É UMA PORRADA DE GENTE

Yet Another Followtrack — The Bottom of the Deep Blue Sea

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               Só mais um dia comum em Rapture. A luz do Sol balançava, fraca, lá na superfície do mar. Era prazeroso apreciar aquilo. Melhor ainda do que apreciar a arquitetura de Rapture, feita pelos irmãos Wales. Ora, havia recebido avisos de que, em sua querida cidade, haviam infiltrado-se alguns revolucionistas. Comunistas, socialistas, malditos parasitas! Não tinha nada mais que Ryan odiava do que esse povo altruísta. Antes que pudesse se estressar com tudo isso, ordenou a Sullivan que se virasse com a investigação e saiu do escritório para caminhar ao lado de Bill McDonagh, que logo teve de se separar de seu chefe e ir para casa — afinal, tinha uma família para cuidar. A caminhada solitária, porém, rendeu-lhe um encontro com uma face nova na vizinhança. Ryan sorriu, e em um caloroso ato de recepção, abriu os braços.

               "Seja bem-vindo(a) a Rapture!

Dois corações

É só quando a gente se encontra que se acende essa estrela no umbigo. É poesia a nossa vida dentro do quarto, João. É poesia dentro do corpo, José. Como se só agora a gente pudesse dispor as palavras em verso, saca? Como se a gente andando na rua, com cara de fome, carteira de identidade, procurando emprego, tudo isso mata um pouco a nossa luz de estrela, entende? Não é como se a gente pusesse no armário uma roupa bonita que a gente nem pode usar porque tem medo? É justamente assim, meu querido. A nossa vida só permite o prático, o objetivo, a cor na cor, o preto no branco, esse monte de acordo, essa porrada de notícia vindo não sei de onde, escândalo no governo eu não sei em quem eu votei na eleição passada, eu não sei o nome da atriz que morreu, eu não sei quanto ganha a Xuxa. A gente dentro dessa gaiola. José. Dentro de uma gaiola do tamanho do mundo: mas não importa aonde a gente vá, é tudo grande. Mesmo que seja grande, é uma gaiola. Lá fora, o vazio dos planetas, tudo que a gente não conseguiu alcançar aqui, cê acha que astronauta é melhor que a gente? A gente tá sozinho no meio da multidão. Mas aqui nesse quarto, João, aqui quando a gente se encontra, parece que o tempo para… Não. É o contrário, José. Aqui parece que o tempo voa. Aqui parece que o tempo é. Lá fora eu não sei viver o tempo que não procuro. Eu só tenho ânsia, saca? Eu queria vomitar tanto, mas aí eu vejo que tô no meio do trem indo pro trabalho, eu só posso engolir a vida. Engolir a luz, só posso ter essa luz aqui no centro do umbigo, por baixo da roupa, cê sabe o quanto ia chamar de atenção se alguém visse essa minha estrela luzindo no corpo. Tatuagem da alma, cara. Ia dar merda, ia dar TV, jornal, iam querer me vender. Eu fico com tanto medo, eu não quero virar cara na moeda. De noite a gente se veste de nós mesmos, de noite a gente aproveita, na escuridão dos olhos a gente se camufla, a gente se encontra nesse quarto, gatos pardos, a gente sobrevive. É só eu chegar a estrela acende, o verão no corpo inteiro. Parece até que a gente só vive pra não morrer, a gente morre um pouco, mas aqui do teu lado, Zé, até vale a pena ir morrendo devagar. Como o gosto da fruta que se perde na língua. Eu quero mais. João, lá fora o mundo pesa. Cê sabe que um dia a gente vai ter que encarar a vida. A gente vai ter que encarar a vida? Ou a gente vai ficar aqui pra sempre, vivendo no escuro, comendo a fruta no breu, apenas adivinhando sua forma. A gente só adivinha a vida, aqui dentro a gente se completa quanto mais se falta, lá fora a gente se falta. Fico procurando minha metade, tô de saco cheio de esperar. Mas eu preciso de tempo. O tempo não vai parar pra gente sentar e pensar: o tempo tá indo por entre os dedos. Mas… Mas nada, João. Pra você é fácil falar, Zé, você tem a vida ganha. Todo mundo sabe de você. Não vou forçar nada, João… mas o tempo, o tempo é cru. O tempo cruel. Até quando a existência vai ser esse fardo no lombo, essa chicotada na carne, esse gosto de sangue na gengiva. Será que a gente precisa se apagar toda vez que sair de casa, a gente vai ter que não dar as mãos, a gente vai ter que ver o dia nascer sempre longe um do outro? A vida tem que ser mais que esse quarto. Às vezes a vida nem esse quarto é, José. Pra algumas pessoas a vida é só sala: segurando vela, guardando o hálito fresco de hortelã pra ninguém. Mas João… Eu sei tudo de cor, Zé. Eu sei. Mas agora eu não posso. Agora eu tô atrasado. Quem sabe amanhã? A gente vai sempre ficar pra amanhã? Um dia amanhã vai ser hoje. E se o hoje não for nunca? A gente tem que correr o risco. A gente tem é que correr o risco de ser feliz. Agora. Agora não dá. Quando, João? Quando der, Zé. Não faz essa cara. Vem, me dá um beijo, que o tempo me chama. Depois de amanhã no mesmo lugar, na mesma hora? Depois de amanhã eu não posso que eu vou ter que… Sei, João, então a gente se fala. A gente se fala. Pois é. Então tá. Antes que o próximo dia viesse a estrela se apagou no umbigo. Quando acenderia? José pensava pra si mesmo jogando a fumaça do cigarro ao ar que se dissipava feito os sonhos que sonhou pra dois. Às vezes não basta só sonhar. Às vezes sonhar é a única vida que existe. Todos nós estamos com o coração trocado, só o ser amado pode devolver o que os deuses separaram, a diferença é que nem todos fazem questão de procurar.

- Caio Augusto Leite