Foi

Escrevia e apagava, escrevia e apagava, escrevia e apag… Era assim que ela passou algumas horas. Não sentia nada, na verdade ela não sabia como estava, não estava triste, nem alegra, nem ansiosa, agoniada, com raiva, nem nada que ela pudesse identificar, apenas se sentia vazia, não esperava nada, ela estava num momento “tanto faz”. Como ela poderia chamar aquilo? Acordaria e iria dormir um dia, ou dois, três, a semana inteira, e continuaria assim? Achava que não, mas nesse momento, não se importava!
—  Os Segredos de Charllote.
Estou pronta, quer dizer acho que estou. Já arrumei minhas malas, coloquei tudo o que achei que seria necessário. Cadê você? Já saiu de casa? Será que já está pertinho de mim? Estou ficando aflita, você não me fala nada. Mas, estou pronta pra fugir contigo. Vem, meu querido estou a sua espera. Já comecei a roer todas as unhas, estou ansiosa. Vem, já não aguento mais ficar um dia sequer longe de ti. Vem, por que não vejo a hora de dormir todos os dias do teu lado, vem, mas vem logo, por que senão eu desisto, cê sabe melhor que ninguém o quanto eu sou medrosa e não sei de onde surgiu essa coragem. Joga logo uma pedrinha na minha janela, para que eu possa saber que já é chegado o momento da tal loucura. Não vamos pensar em ninguém, não vamos pensar no futuro, devemos pensar apenas em nós, apenas no agora. Não suporto mais toda essa distância, eu te quero aqui bem perto e eu quero agora.
—  E então querido, vamos fugir?
Ambrosia

Gasto minhas horas mortas internamente, chutando alto os desejos que não quero ter.
Independência antes da influência, ambas difíceis de lidar.
Vitalidade solar posta em mãos noturnas,
Mornas, gastas, tortas.
Energia esparramada no espaço lúdico pecaminoso,
Que resiste à exposição.
Vida estática, anti-rebelião.

Quando nos beijamos, foi tempestade e redenção, uma entrega que até então eu desconhecia. Foi como se eu estivesse parado ali, bem quietinho, rendido, o coração tamborilando contra as costelas, o pulso disparado, os joelhos bambos, os dedos dos pés retesados, os ouvidos zunindo… o corpo inteiramente tomado de paz e felicidade.
—  Quando ela se foi.