ARTigo

Descrevendo (fisicamente) os seus personagens

Eu, particularmente, acho descrever uma das coisas mais difíceis quando estou escrevendo. Grande parte das pessoas que me conhece sabe que minhas histórias são sempre pequenas, e eu vivo no constante medo de não estar descrevendo o suficiente (enquanto grande parte das pessoas que eu conheço temem estar descrevendo demais, o que eu acho meio irônico, sério).

Descrever personagens, por si só, é muito difícil. Primeiro porque, geralmente, quando eu crio um personagem, eu tenho uma imagem na mente, e transformar essa imagem em palavras é quase sempre difícil. Segundo porque meu leitor não tem imagem alguma quando começa a ler a história.

E é isso que nós precisamos ter em mente (não somente na descrição dos personagens, mas em quase qualquer descrição que escrevemos), que o leitor não possui a mesma mente e que ele não faz ideia do que se passa além do que estamos narrando. Nós precisamos, como escritores, sermos capazes de descrever o suficiente para que eles consigam “preencher os buracos”, mas não descrever demais a ponto de tornar a leitura chata ou cansativa.

A primeira coisa a se fazer é, portanto, fugir dos infodumps. Não sabe o que é isso? Bem, infodump é quando você escreve um parágrafo muito grande que possui apenas exposição. Sem ação, sem pensamento, só exposição. Você fala, em muitas palavras (talvez mais do que o necessário), sobre como o seu mundo é ou qual é a roupa que o seu personagem está vestindo. Parece chato, não é mesmo? E geralmente é. Como qualquer recurso na escrita, pode ser feito com qualidade, mas isso é muito raro de acontecer, então evite-o. Mesmo.

Em vez disso, misture a descrição com outras partes da narrativa.

Descrevendo com a terceira pessoa:

Observe:

Lysander a encarou. Emma era uma menina muito baixa para a sua idade, com longos cabelos loiros que, na ocasião, estavam presos num rabo de cavalo malfeito, olhos verdes muito brilhantes e alegres, um rosto fino de traços leves e uma pele muito branca e sardenta. Estava vestindo uma roupa trouxa: uma blusa larga azul, de manga, e calças jeans apertadas, sem bolsos, além de um tênis vermelho desgastado e velho. Lysander se perguntou o que ela estava fazendo ali, no mesmo vagão que ele, e por que não tinha o mínimo senso de moda.

Chato de ler, não é mesmo? E no final das contas, você não se lembra de metade do que leu. Sem olhar de novo, sabe qual e a cor dos olhos dela? E da blusa? Você se lembra de que a calça jeans não possui bolsos, ou do fato de que ela tem sardas? Se você precisa ler mais de uma vez para saber qual é a aparência da personagem, então a descrição não está cumprindo o seu papel. Veja um outro exemplo:

Uma garota baixinha bateu na porta do vagão em que ele estava, e Lysander a encarou. Ela sorria, alegre, e talvez um pouco tímida, mas entrou sem pedir permissão. Porque usava roupas trouxas, Lysander supôs que esse devia ser seu status de sangue. Ela se jogou num dos bancos, sem cerimônia, e seu cabelo loiro — antes preso num rabo de cavalo malfeito — se soltou. A menina suspirou e prendeu o cabelo mais uma vez, logo antes de seus olhos, muito verdes, lançarem um olhar em sua direção.

— Meu nome é Emma — disse, e estendeu sua mão para ele, num típico cumprimento trouxa que fez com que ele tivesse certeza de que era, no mínimo, mestiça.

Muito melhor, certo? Eu te dou um pouco de contexto enquanto você vai conhecendo a Emma (e o Lysander), e vou pintando a cena em sua mente aos poucos, em vez de colocar a garota logo de uma vez. Você dificilmente vai se sentir tentado a pular as descrições, porque sabe que é possível que perca uma parte do que está acontecendo, também. Além disso, a narração é consideravelmente menos cansativa.

Outra coisa que acho importante apontar é que, uma vez que as roupas são completamente desnecessárias para o entendimento desse trecho específico, eu as retirei (quase) completamente. Não faz diferença se você sabe que são largas e azuis e vermelhas, desde que tenha em mente que são trouxas e não um robe do mundo bruxo.

Os detalhes mais específicos — o fato de ela ser sardenta, por exemplo — eu deixo para colocar depois. A Emma é uma personagem importante, que vai aparecer muitas vezes durante a história, então não há necessidade de colocar todos os detalhes da aparência dela agora.

Descrevendo em primeira pessoa:

Descrever em primeira pessoa é muito, muito, muito mais difícil que descrever em terceira pessoa, porque na primeira você fica preso às impressões do seu personagem e aos detalhes que ele repararia. Sobre os exemplos acima, por exemplo, Lysander dificilmente repararia no fato de que Emma é uma garota sorridente. Em vez disso, provavelmente passaria a impressão de que é irritante e não sabe o seu lugar. Não veria as sardas, não veria a cor das roupas (mas, sim, repararia que são trouxas), e dificilmente olharia para a cor dos olhos dela.

Na verdade, evitaria de todas as maneiras ficar olhando para ela, e isso faria com que os leitores não tivessem uma visão mais específica dela até muito mais tarde na trama, quando ele essencialmente começa a reparar nela.

Para descrever outros personagens em primeira pessoa, primeiro você precisa saber como o personagem que está narrando age perto delas, que tipo de coisas ele repara e, basicamente, como a sua mente funciona. Só então as descrições que ele faz vão soar como alguma coisa que ele diria, e não uma tentativa do autor de fazer com que o leitor tenha uma ideia da aparência de alguém.

Enquanto um Lysander-narrador faria descrições sucintas e, de certa forma, frias, baseadas nas características da pessoa que poderiam trazer alguma vantagem para ele, Emma-narradora tenderia para uma descrição mais calorosa, reparando em detalhes aleatórios e tentando ser simpática até mesmo em pensamentos. Observe:

O vagão estava tranquilo. Em menos de dez minutos eu entrara, arrumara minhas coisas no compartimento de bagagem e tirara um livro da bolsa. Era sobre poções, avançado para o meu nível escolar, mas então eram todas as minhas leituras. Eu estava sozinho e não sabia a qual entidade agradecer por isso, mas xinguei mentalmente todas elas quando um barulho interrompeu minha leitura.

Levantei os olhos do livro apenas para me dar de cara com um pequeno furacão loiro, que se jogou de qualquer maneira no assento de frente para mim e me fez ter certeza de que a minha viagem não seria tranquila como eu planejara de início. Soltei um suspiro irritado, e a menina — nascida trouxa ou mestiça, no mínimo, devido às roupas que vestia — estendeu a mão.

— Meu nome é Emma. — Não respondi, não valia a pena, só voltei meus olhos para o livro e torci para que a garota entendesse que aquilo significava que eu não estava aberto para conversa.

Quando conhecemos alguém, raramente reparamos nos detalhes da aparência. Quando descrevemos o personagem conhecendo outro, precisamos seguir as mesmos regras. Usar termos gerais — cor dos cabelos, principalmente, altura e peso se não forem usuais, cor dos olhos, talvez — e focar em que detalhes da aparência são fora do comum. Uma tatuagem, uma cicatriz, o tipo de coisa que o seu olho automaticamente enxerga.

Mas e quando o meu personagem já conhece o outro? O que eu faço?

Ora, mas essa é uma excelente pergunta! Nós raramente reparamos em detalhes da aparência de pessoas com as quais já temos um relacionamento, a não ser em casos isolados especiais (quando vamos sair com elas, quando elas vão para um evento, quando fazem alguma coisa diferente com a aparência, quando olhamos alguma foto com atenção), dessa forma, normalmente, numa história, não se descreve em detalhes as pessoas já conhecidas.

Se você viveu a vida inteira com a sua mãe, não tem motivos para reparar que o cabelo dela é ruivo num dia aleatório, certo? A não ser que ela pinte o cabelo ou faça alguma outra coisa com ele. Dessa forma, se você está narrando seu personagem descendo das escadas com pressa para ir para a escola, ele dificilmente vai comentar o fato de que os olhos dela são castanhos cor de chocolate ou que seu rosto estava particularmente bonito naquele dia. Observe:

Emma passou pelo salão comunal correndo, os livros do dia contra o peito, o cabelo despenteado e um desespero genuíno por estar atrasada. Por isso, não cumprimentou nenhum dos seus colegas de casa — nem mesmo seu melhor amigo, Matt, que gritou seu nome de algum lugar lá dentro, e diante da falta de resposta, foi atrás dela.

— Emma! — A garota se virou. Matt não vestia o uniforme escolar nem parecia preocupado pelo fato de que já eram quase oito horas. — Emma, hoje é sábado, o que você está fazendo?

No caso acima, o único comentário sobre a aparência de Matt é o fato de que ele não usava o uniforme nem parecia preocupado. Não é importante mencionar que ele é loiro, mais alto que ela, possui um sorriso tão grande quanto o seu e um brilho misterioso no olhar. O fato de ele não usar o uniforme é a única coisa que foge do comum e, portanto, que precisa ser mencionada. Claro, se for extremamente necessário, é possível fazê-lo passar a mão pelo cabelo loiro ou dar um sorrisinho e colocar alguma descrição indireta, mas isso depende muito do que se quer passar. Se for a primeira vez que ele aparece na história, é interessante, se não for, é muito provável que os leitores já saibam disso.

Se você precisa descrever a aparência de um personagem que o seu protagonista já conhece de maneira mais detalhada, o ideal é colocá-lo em uma situação onde a aparência está em evidência. Um evento, uma pergunta — “como estou?”, “você me acha bonita?” —, um comentário, enfim, algo do tipo.

Okay, mas e se eu quiser descrever o meu protagonista?

Uma amiga minha me disse uma vez que você só pode cometer o erro de usar o espelho para descrever seu protagonista uma única vez durante sua trajetória literária. Eu não sei onde ela leu isso, mas eu sei que é verdade. A primeira coisa que eu vou dizer aqui é, portanto, não use o espelho para descrever seu protagonista. Pronto. Dito. Usar o espelho é uma técnica muito amadora e a maioria dos escritores mais experientes a evita. Usar o espelho é muito, muito, malvisto.

Além disso, usar o espelho invariavelmente acaba em infodump.

Em vez disso, você pode (como sempre) colocar as descrições indiretas — mexeu no cabelo castanho, passou a mão pela barriga protuberante, etc —, jogá-lo numa situação em que sua aparência fica em evidência — não conseguir alcançar uma prateleira (personagem baixo), bater a cabeça ou ter que se abaixar ao passar por uma porta (personagem alto), etc. E colocar esses detalhes em evidência é uma ótima maneira de detalhar essa característica mais a fundo, por exemplo — ou mesmo fazer com que alguém faça um comentário — “nossa, mas você é alto, hein?”, “amo a cor do cabelo dela, sempre quis ter cabelo ruivo”, etc.

Lembre-se que, em primeira pessoa, quando um personagem “se descreve”, o leitor tem a impressão de que ele é narcisista e egocêntrico — principalmente se ele falar bem das próprias características. Em terceira pessoa, se for a terceira pessoa restrita, principalmente, isso também acontece.


É isso! Espero que seja útil para vocês! Ainda têm alguma dúvida, discordam de alguma coisa, têm algo a acrescentar? Fique à vontade para aparecer na ask e mandar um oi. 

(Giulia)

Girl Power: a importância do empoderamento feminino nas webs, fanfics e afins.

Livros tem um poder imensurável.

Sabe aquele livro que te mudou? Que fez com que ocorresse alguma revolução dentro de ti. Aquele cujo enredo te fez ver e viver a vida sob uma nova perspectiva. Sabe?

“Palavras, eu penso, são criaturas muito imprevisíveis.

Nenhuma arma, nenhuma espada, nenhum exército nem rei um dia será mais poderoso que uma frase. As espadas podem cortar e matar, mas as palavras vão golpear e ficar, enterrando-se em nossos ossos para virarem corpos mortos que carregamos para o futuro, sempre cavando e sem conseguir arrancar seus esqueletos de nossa carne.”

— Tahereh Mafi, no livro “Incendeia-me”

Diante de tal poder, é importante tirar uma boa lição de tudo que lemos, não é mesmo? Não importa se as palavras são difíceis, se o enredo é complexo ou simples, nem se o final for aquele que a gente torceu o livro todo.

Portanto, ao escrever um conto, uma fanfic ou um livro, é importante ter em mente que aquilo que você escreve tem total influência nos seus amados leitores.

Keep reading

Leia!
Olhe os livros como se fossem garrafas de cachaça, e transforme-se em um bêbado incorrigível. Ler faz bem para a alma, para a mente e para o corpo. A leitura, meu caro amigo, lhe trará conhecimento, ajudando você a criar uma opinião própria.
Dedique algum tempo de seu dia para ler. Leia o que quiser! Leia artigos, leia jornais, leia revistas, leia livros… Mas leia!
—  Bruno Estevam
Escrever sobre você é tão complexo que eu prefiro escrever um artigo científico de 50 páginas sobre como a luz solar afeta a humanidade. Mas deveria ser assim? Como pode ser difícil colocar em palavras o sentimento que transborda?
—  Mariana
Bíblia não é livro pra ser lido, é livro pra ser estudado, meditado e obedecido.

Ler não é estudar, não são sinônimos perfeitos. Nós lemos uma revista, um artigo, um jornal, e não estamos necessariamente estudando ao estarmos lendo. Estudar é questionar, descobrir, aprender, absorver conhecimento. Portanto vamos ESTUDAR a Bíblia, e NÃO apenas LER.

Eu não consigo Te definir; mesmo com um conjunto de verbos, artigos, adjetivos e seja lá mais o que o português me dê para tentar expressar tudo que sinto, nunca cabe. Você não cabe em nada disso. Você é maior, mais intenso e mais forte do que tudo que eu consiga imaginar. Você é absolutamente tudo, por mais que eu, na minha ingenuidade e ignorância humana não seja capaz de nem ao menos supôr a grandeza disso; eu sei Deus, Você é tudo.
—  azul
Prazer, sou a agonia de querer corresponder todas as expectativas lançadas sobre mim; sou a incerteza do ser ou não ser conjugada com confusão de querer ser ou não querer, na verdade. Pode me chamar de medo: de errar, de tropeçar, de cair e no fim de não conseguir me firmar em pé mais uma vez; sou a angústia e a ansiedade dos planos que fiz e podem estar indo por água abaixo, mesmo sem eu ter movido um músculo para pô-los na ativa. Sou aquela vontade de voltar para casa, porém ainda não sei para onde voltar. Queria ser o propósito, a causa, a razão e a certeza de alguém voltar para casa, ai quem sabe eu teria uma identidade, saberia o que quero, e já teria uma marca de saída. Quem sabe eu teria que ser esse alguém para mim mesma.
—  Paula Zawatski
Sua prima sempre será melhor que você, sua vizinha sempre será a mais esforçada, a filha da melhor amiga da sua mãe sempre será a mais mocinha e mais educada que você. Ela senta que nem moça e não fala palavrão, olha só pra você, senta com os meninos e assiste futebol. E olha só para suas unhas, já pensou em pintar de renda ou fazer uma francesinha? É bem mais coisa de menina, de menina não, de mulher, porque você já uma adulta. Essas gírias todas, todo dia é uma nova, muda esse vocabulário, para onde vai tudo o que você ler? E o que você quer ser, hein? Uma adolescente rebelde a vida toda? A vida é mais que isso, mais que terminar o ensino médio e escrever textinhos por aí, e cuidado com essa língua, nem tudo pede opinião, nem tudo pede um parágrafo, muito menos um artigo. Aceite e será bem sucedida. Revirando os olhos? Onde acha que esses olhinhos revirados vão te levar? Para um bom trabalho? Para uma grande carreira? Um bom marido? Pois eu te falo pra onde, para lugar nenhum. É, é pra lá que você vai.
—  Como está sendo seu dia?
Falta-lhe algo, claro que falta! Falta acreditar que com um pedaço de papel você pode construir e reconstruir suas memórias, que o vento suado pelo fôlego da noite trará a esperança de um suave dia, um novo dia, a qual será possível respirar luz. Que a raiva, existe, sempre existiu e sempre existirá, mas enquanto você aprender a valorizar os amores que você tem e os amores que você sente, esta raiva será apenas um obstáculo simples e prático. Falta-lhe algo, com certeza falta!!! Acreditar mais em você, acreditar mais nos sentimentos puros e na inocência que a vida traz, ninguém e nada pode matar seus sonhos e a vontade de acreditar que algumas coisas são possíveis. Falta acreditar mais em você, principalmente em você, pois você acredita na mentira, acredita na injustiça, acredita na inveja, na falsidade, mas esquece que só pode ser FRACO aquele que já foi FORTE, só pode ter MEDO, aquele já teve coragem e só pode CHORAR aquele que já sorriu. Se você se acha Forte, Corajosa e Sorridente, deve entender e aceitar, que não lhe falta algo e sim falta "você".