5 anel

Normalidade é uma das palavras mais estranhas que conheço, define-se como “socialmente aceitável” ou “aquilo que é usual”, amar é aceitável, certo? Então porque julgamos o amor que não entendemos, como é que algo normal pode não ser aceite? É amor se eu amar meu cão, meu gato, minha mãe, minha primeira chupeta, é amor durante aqueles 120 min de filme, é! Amor declarado que supera todos os ódios que possam existir em mim. É tudo amor, desde a forma como te beijo ao mau jeito que tenho de “elogiar” minha irmã, é tudo amor, desde as lágrimas que choro por “amigos” às que choro por mim mesma. E continua sendo amor aquilo que sinto por aquela professora com um nome engraçado, aquilo que sinto pelo animal que já morreu tem 5 anos, pelo anel que perdi quando era criança. Não é normal? Agora todo o amor tem que ser forçosamente fraternal ou sexual? E o amor à música? A batida calma e violenta, às vozes roucas que me arrepiam? E pergunto-me onde se encaixa o amor próprio no meio de tudo isso que vocês não consideram amor de verdade. Amor de verdade tenho pelo ursinho que recebi tem 2 anos, pelos 30 cadernos onde escrevo meus diálogos interiores. A normalidade em si não é normal. “Ah, é um amor diferente.” Não é! Eu morria pela minha irmã, morria pelos meus cadernos, pelo meu ursinho inanimado! Morria, uma parte de mim ia e deixava saudade, e todos nós sabemos que se deixa saudade é porque foi amor… de verdade.
—  Cristina Lemos