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Dexter,
Eu sei. Já passou do tempo de eu passar a borracha por cima de você e esquecer seu nome e todas as coisas relacionadas ao seu ser. Prometi fazer isso umas centenas de vezes, e acabo sempre voltando atrás nas minhas promessas. Não é minha culpa, juro. É totalmente sua. Não posso fazer nada se você decide ressurgir das cinzas apenas para confundir minha cabeça feminina e naturalmente confusa. Se você fosse mais claro e direto, se não ficasse com essas babaquices irritantemente infantis que você faz com o intuito de me tirar do sério, eu já teria esquecido. Provavelmente nem lembraria seu cheiro de baunilha e a forma como sua cabeça se encaixou no meu travesseiro com fronha de ursinho. Provavelmente, já teria encontrado outro nome para endereçar cartas e gritar silenciosamente. E já teria jogado fora essa fronha estúpida.
Mas você fica reaparecendo, Dexter. Que porra! Você larga uma piadinha mal contada e eu acho graça, porque você fica bonitinho com esse sorrisinho de canto de quem se acha o rei do universo e eu ainda acho isso fofo. E depois some com essas suas costas retas e musculosas andando em direção ao ponto mais longe de mim existente e eu ainda acho isso a coisa mais triste do mundo. Sei que já deveria estar acostumada, considerando que não é a primeira e certamente não será a última vez que você faz isso, porém, parte de mim ainda não consegue acreditar que, esse tempo todo, fui apenas eu. Quer dizer… Você estava lá também, D. E eu sei que ouviu minhas gargalhadas tolas de quem simplesmente está feliz com a vida, porque ouvi as suas. Você ria como uma criança e sei que há muito tempo não o fazia e também sei que não mais o faz. A gente se conheceu cedo, mas você já não era uma criança. Algo na vida fez com que você crescesse rápido demais e eu acho que você nunca amou nada, Dex. Isso é apavorante. Todo mundo precisa ter algo a que se apoiar quando a coisa fica difícil, e você sempre achou melhor não depender de outra pessoa. Ninguém deveria viver dessa maneira, Dexter. Isso te destruiu.
De qualquer jeito, por algum motivo muito idiota e completamente além do que a noção humana por explicar, você acabou se transformando na minha âncora. Não consigo explicar o que isso significa, mas vi num programa de televisão – um desses que você odeia e acha que só gente com tendência homossexual ou de tia com mil gatos assiste – e achei que combinava. Basicamente, quer dizer que você sempre foi a única coisa me mantendo em terra firme. Quando mais nova, eu tinha essa mania de ficar voando sem asas, acreditando que nunca poderia cair de cara no chão. E há uns anos atrás (durante aquela época terrível sobre a qual você me faz o favor de não comentar), meu grande problema era me manter na superfície sem me afogar com as águas que insistiam em cobrir meu corpo. Era difícil encontrar pessoas que compreendessem o quão cega eu estava para tudo de bom que existia – a maioria preferia ficar muda ou balançar a cabeça, negando qualquer que uma coisa dessas pudesse acontecer com uma garota tão bonitinha e de uma família tão boa. Ninguém jamais havia conseguido encarar meus olhos depois de ver tudo aquilo, Dex. Ninguém soube e continuou aqui. Ninguém além de você. Talvez por ser pior do que fui ou por ter passado por águas ainda mais escuras, você soube o que há de mais terrível em mim e continuou a me encarar como se eu fosse a flor mais linda de um jardim enorme. Mas sempre fui espinho, D. Minhas pétalas eram você.
Você percebeu? Mudei desde a última vez que nos vimos. Sei que você deve ter reparado que sou apenas um cactus esperando pela próxima vítima. Tenho bebido muito mais do que consigo controlar. Tenho deitado na cama apenas depois do sol raiar. Tenho dito palavras chulas, daquele tipo que sempre reclamei por você falar demais. Queria que existisse alguém para revirar os olhos toda vez que xingo ou exclamo alguma grosseria, entretanto, ninguém se importa comigo o suficiente para me mandar parar. Viu? Eu brigava porque me importava. Me importo. Sempre quis seu bem acima de tudo nesse mundo, D. E tudo que eu mais desejo, nesse momento, é ter sua voz gritando comigo porque eu estou fazendo tudo errado. Sei que estou. Eu andava tão bem e agora estou tão mal. Minhas decaídas sempre são horríveis e você, mais do que qualquer outra pessoa, sabe disso. Não me contento em apenas tropeçar. Minhas quedas são do céu ao chão em queda livre, D. E eu havia prometido a mim mesma que jamais cairia novamente na tentação. Jurei por você. Por mim. Por todas as coisas pequenas que já me fizeram bem.
E agora vem o ponto principal de toda essa carta: todas minhas promessas se baseavam no fato de que você era a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida. Eu me apoiei em você, lembra? Contava com o seu apoio quando o chão começasse a tremer. Nunca fui crente em nenhum tipo de religião, mas te considerava meu ponto de segurança. Minha saída de emergência. Toda vez que precisei gritar, corri para os teus braços. E agora voltei a sentar quietinha no meu canto, contando o alfabeto até a dor passar. Ninguém me escuta. Você estava certo: o mundo é um lugar tenebroso para se viver. Milhares de pessoas vagando e nenhuma delas realmente se importa com o que acontece com as outras milhões ao seu redor. É uma vida solitária e triste, D. E, por isso, eu quis acreditar que você seria aquele que me faria bem. Que deixaria o céu eternamente azul. Gostava daquela sensação de estômago se remexendo e mãos tremendo que sempre senti quando você estava por perto. Você fez do meu mundo um lugar mais feliz. E, assim, esqueci que você também era a única pessoa que poderia me destruir.
Eu deveria ter percebido, D. Ninguém nunca amou você. Isso sempre foi muito claro para mim. Mas, ainda assim, me deixei crer que só meu amor e minha companhia bastariam para curar toda a tragédia que foi o resto da sua vida. Eu deveria saber. Alguém como você não é capaz de nada além de destruição. Você nunca me viu como uma igual – eu sempre fui apenas mais uma alma fraca que você planejava seduzir e aniquilar. Sua crueldade não teve fim, Dexter. Você me conhecia como ninguém e usou isso para quebrar todos meus ossos. Você sabe como sempre fui tratada – nunca houve alguém que me olhasse e enxergasse minha essência. Tudo que sempre recebi foram olhadas rápidas demais. Ninguém nunca viu minha essência, até você chegar. Eu nunca havia sido tratada com gentileza, D, e você me tocou como se eu fosse a coisa mais pura e bela que já tivesse posto os pés nesse mundo. Eu sempre fui a bonitinha com óculos esquisito e um gosto estranho pelo imaginário. Você é tudo que minha imaginação jamais se atreveu a pedir. Dexter, você sempre soube. Você sabia que eu era frágil demais e usou isso contra mim. Minhas armaduras estavam baixas. Meu coração estava aberto. Pensei que estivesse apaixonada, mas seu beijo me fez perder o ar. Não sei mais respirar, D. Meu Deus. Você acabou com toda a vida dentro de mim.
Não me resta mais nada, Dexter. Só algumas palavras entaladas na garganta, presas pela minha incapacidade de falar. Você arrancou minha voz com seu toque. Meu último som foi seu nome. Agora eu sou apenas um robô que vive para escrever coisas terríveis sobre a humanidade, espalhando a desesperança e a tristeza pelo universo. Você me criou para ser assim – uma versão sua de cabelos longos e lábios grossos. Mas não é isso que quero, Dex… Apesar da crueldade sem tamanho que você fez comigo, eu carrego no peito uma fé incansável nos seres humanos. De alguma forma, ainda acredito que existam pessoas boas e perdidas, assim como eu. É bem verdade que eu vivo assustada, correndo da minha sombra, com medo de que ela também enfie um punhal nas minhas costas enquanto diz que meus olhos são os mais bonitos que já viu. Mas agora aprendi uma lição, Dexter: nem todo mundo vai me machucar como você.
Sei que você pensa que nunca teve carinho, Dex, mas eu amei você. Ainda amo. Garotas de cabelo bagunçado e sorrisos de canto são burras a esse ponto. Eu amo o que me destrói. Não posso deixar que o mundo queime você.
Não consigo te abandonar.
De todos os jeitos, minha mente acaba voltando para você.
Você me deixa doente, Dexter.
Cada sopro é uma agonia.
Acabei de escrever uma mensagem para você. Apaguei e reescrevi de novo. Sei que não vou enviar, mas gosto de pensar que, em alguma dimensão esquisita, você sabe exatamente o que estou pensando – assim como você sempre soube. São apenas três palavrinhas.
Como você pôde?
Com amor,
Eu.
—  Ana F.