Entre Guitarras e contra-baixos
Já se passaram longos 9 meses, a banda se desfez, Rafa me liga ás vezes pra ter certeza que ainda estou viva, na verdade não! Não se assustem, meu corpo continua intacto, o que morreu foi minha alma.
Cecília não fala mais comigo, desde então não sei mais nada sobre ela, mas pelo que Rafa falou, ela foi pro exterior, lá pros montes de Veneza pra concluir seu curso de medicina e montou um pequeno bar indie em uma pequena propriedade de lá. Bem, Gustavo, nunca mais o vi, nem Rafa sabe onde ele está, não há vestígios ou rastros do que ocorreu com ele desde então, ainda sinto o cheiro dele, ainda sinto seu toque no meu corpo, ainda lembro do corpo quente dele no meu, ainda escuto dentro da minha mente a voz dele cantando pra mim, ainda não consegui o esquecer, eu não consigo esquecer, e sinto que tudo isso foi culpa minha, sinto não, tenho certeza que a culpa foi minha, e todos os dias quando acordo a culpa corrompe meu ser.
No momento estou trabalhando numa floricultura, sempre tive um amor por flores, me sinto melhor sentindo o cheiro delas, observando sua evolução, isso me deixa longe de toda culpa e dor que ainda sinto, me ajuda de alguma forma, me cura.
Sei que machuquei Gustavo, sei que fui uma medíocre egoísta, sei que não pensei na banda, com toda a razão todos devem ficar contra mim, até vocês que estão lendo podem pensar assim, o problema é que foi um dia ruim, e levem isso pra vida de vocês de alguma forma, não se precipitem com as palavras, podem acabar com a vida de vocês, ainda mais, com seu futuro.
Certo dia desses saí mais cedo do trabalho, não estava me sentindo muito bem, então resolvi ir descansar pra ver se melhorava, já era tarde da noite, dia chuvoso, conseguia observar o relevo das gotas refletidas na luz do poste, dias assim lembram o estado do meu corpo, um estado de certa melancolia e tristeza. De longe avistei um menino que me lembrava o Gustavo, mesmo cabelo, mesma altura, pensando que era um delírio da minha cabeça, resolvi deixar pra lá, mas percebi me aproximando que era ele, e naquele instante meu coração acelerou tão rápido, mas tão rápido, que senti as pernas fraquejarem, cabeça ficando tonta, então sentei na calçada com a chuva cobrindo meu corpo e lá fiquei por alguns minutos.
Consegui escutar os passos dele se aproximando, então uma forte vontade de chorar invade meu consciente, as lágrimas saem como a chuva que lá estava presente, ele senta do meu lado, olho para Gustavo e todas as lembranças que tivemos passa como um filme na minha cabeça, em segundos sinto os braços dele em mim, o frio da chuva não habita mais meu corpo naquele instante, apenas sinto o calor dos seus braços e isso é a coisa mais gratificante que já tinha me acontecido desde então.
Ficamos uns 15 minutos intactos abraçados na chuva, até que a primeira palavra que sai da sua boca é “Saudades desse teu abraço”, retribuo com um sorriso e apenas peço desculpas no máximo quatro vezes, quando fui tentar explicar o porque tinha feito o que fiz Gustavo me olha, diz “Eu sei” e me beija, seu beijo foi capaz de curar tudo o que me afligia, todo o mal que me rodeava saiu em nanossegundos e cada intensidade do seu beijo era como se toda a culpa e dor saísse na mesma intensidade, naquele momento pude perceber que estava tudo bem entre nós novamente.