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Redundância

@oppsortunity

Seria fácil esquecer se as folhas não fossem tocadas pelo vento; se o céu não brincasse com as cores ao decorrer do dia; se os carros não fossem parte da terrível orquestra da cidade; se a água não fosse rumo ao mar. Seria fácil esquecer se o futuro não fosse chão escorregadio; se as noites não me lembrassem o amanhã; se a sua falta não fosse um ácido corroendo as manhãs.
Mas tem algo na noite, a sensação que se arrasta até as manhãs. Essa falta que pontua a sua procura, essa agonia que alerta que você não vai voltar.
Eu quero me afogar nessa dor porque é tudo o que me restou de você. Grito, silenciosa, faço minhas vísceras quererem escapulir. Choro, silenciosa, faço as lembranças navegarem dentro de mim.
Se não fosse pela angústia que contorce a alma, suas dúvidas não seriam acompanhadas pelo medo. E o medo te lembra que há incômodo. E o incômodo te lembra que há culpa. E a culpa te lembra que não sou boa pra você.
Se não fosse pela angústia que contorce a alma, as lágrimas não seriam dolorosas. E a dor me lembra que há falta. E a falta me lembra que há futuro. E o futuro me lembra que não há você.
Tento parar o tempo quando o sopro da felicidade pode me alcançar
Não há nada a ser feito, a brisa não faz o relógio parar
Contento em observar o vento se transformar em redemoinho
Mais adiante percebo que já se transformou em furacão
Muito sou nos que atravessam o meu caminho
Muito sou dos que sopram no meu coração
Sarah de A. Andrade
Se eu pudesse, me tornaria uma molécula de oxigênio. Eu sentiria o mundo com suas infinitas possibilidades, sem sentir o peso do que me limita. Eu me doaria para a vida, deixaria que ela me transformasse em outra coisa qualquer. Seria parte de um espetáculo, como quando o sol se põe e o som da vida já não é o mesmo. Tornam-se quentes as cores, muda-se o respirar dos bichos. Tudo que me inquieta se misturaria com o ar. Cada parte de mim seria invisível e eu poderia, enfim, descansar.
Se eu pudesse, me tornaria uma molécula de oxigênio. Eu sentiria o mundo sem a possibilidade de te perder. Eu me doaria para a vida, deixaria que ela me deixasse dançar entre o feixe de luz que invade meu quarto. Seria parte do espetáculo que se apresenta quando vejo você surgir. Tornam-se quentes as cores, muda-se o meu respirar. Tudo que me inquieta se perderia no caminho do seu olhar. Mas cada parte de mim é visível e eu posso te amar.
Uma luz ousa apagar as fotografias fixadas no meu mural. Tão pouco consigo visualizar seu rosto se não fosse pelo contorno que eu mesma tracei. Enquanto isso, o tempo persiste em rabiscar a nossa relação. A luz de um futuro incerto ofusca nossos sentimentos, se não fosse pelas memórias que gravei. Meu amor, eu te desenhei no meu coração.

Sarah de A. Andrade
Uma gota d'água cai no rio e, ao seu redor, forma-se esse círculo, onda lenta - o meu amor. Espero que essa água toque os meus pés para, enfim, sair do chão. Mesmo na demora, contente observo esse haver implícito na ponte do não. E tarde lamento ao me afastar, descanso sobre pedaços de mim. Muito serei quando o rio me alcançar - o meu fim.
Sarah de A. Andrade
2²= -x
Você sempre soube quando eu olhava para o céu e pensava em dividir o nosso mundo. Nosso amor foi uma equação fácil e eu resgatei fórmulas incorretas porque só acredito que posso alcançar resultados errados. Eu sei que você tentou resolver o que eu deixei em branco. Eu não acredito em mim.
Não simplifiquei os momentos em que você me encarava e eu, internamente, gritava pra você não me amar tanto porque eu sempre amei me diminuindo. Como era estranho me sentir inteira com você! Agora, todos nossos sentimentos fracionados com o tempo. Eu sei que você não acredita mais em mim.

Sarah de A. Andrade

O coração relógio
Despejo meu descontentamento com o tempo na falta de apreciação dos meus vínculos. Quando o céu oculta o sol e vislumbra a lua, a falta torna-se mais clara e o tempo uma luz cegante. Nada é tão nítido quanto a mísera esperança que paira entre os intervalos do relógio. Nada interfere nos meus olhos abertos para somente o passado. Nada afeta meu coração instabilizado pelo seu silêncio e nada o devolve as batidas paralisadas por ele. Todavia, o meu mundo sempre se ergue à noite com o seu rosto cravado na minha imaginação. O tempo não consegue te extrair dos meus sonhos e, mesmo com meus olhos fechados, ainda permaneço no seu desprezo. Assim, com o nascer do sol, o tempo reafirma sua ausência e eu posso despejar sua indiferença em tudo que me fazia moderadamente feliz.

Sarah de A. Andrade

O relógio

Meses com o relógio quebrado, parado no tempo, suplicando que regresse ao meu corpo perene. Estrelas caíram dos seus olhos distantes, mas fixos no nosso amor inundado. Estrelas pairam sobre esse manto negro que me envolve sem objetivo de me secar. Resgato essa fantasia enquanto vibram os feixes de uma lembrança fragmentada. Nada posso além de imaginar o sol sobrepondo sua pele e a sombras brincando com seus traços em algum lugar inanimado criado por mim. Mal posso ver a hora da sua chegada, o relógio está quebrado, por isso sinto tudo ao redor me consumir. Torno, assim, o tempo. Deixo-me esvair entre o vicioso desejo de te sentir.

Sarah de A. Andrade

Ainda

Angústias ditas para o silêncio, no escuro se perdem, colidindo com o vazio do que nunca está por vir. Ainda choro pela mesma dor. Você ainda me observa com o mesmo temor? Palavras que nunca pronunciei estão impregnadas no céu da minha boca, manchando todas inutilidades que tanto ouso falar. Ainda choro pela mesma dor. Você ainda me observa com o mesmo temor? Perguntas rastejam em círculos, entontecem lembranças que já não cabem mais em mim, misturando com sonhos que não deveriam existir. Por que ainda choro pela mesma dor? Você ainda me observa com o mesmo temor.

Sarah de A. Andrade

O sopro e gota

Luz que irrita meus olhos, enfurece meu coração

Apressa sobre todos meus destroços, tardia na escuridão

Sopro a vida enquanto me levo por esse furacão…

Luz que inebria meus olhos, acalenta meu coração

Regressa sobre todos meus ossos, tardia na confusão

Goteja a vida enquanto nado sob essa imensidão…

Sarah de A. Andrade

Tropeço no fim

Eu quero saber seguir sem sentir a necessidade de retornar ou, ao menos, ficar sem precisar te esperar. Tanto tempo entre o que nos restou, essas frases desconexas, palavras descartadas, tropeço no fim. Eu quero saber mudar sem ter que te esquecer ou, quem sabe, te encontrar sem precisar me perder. Tanta falta entre o que nos sobrou, essa porta entreaberta, agonia escancarada, tropeço no fim.

Sarah de A. Andrade

É sob a luz do luar que sua sombra me envolve de questionamentos que nunca serão respondidos. Estou à deriva de suas ponderações. Ao amanhecer, poucas coisas me restam além dos desejos que nunca serão compreendidos. Estou à deriva das nossas ações. Ao passar dos dias, muito penso nos sentimentos que nunca serão correspondidos. Estou à deriva das minhas emoções.

Sarah de A. Andrade

Corpo e Luz
Meu corpo aberto, exposto ao seu sopro frio
Envelhece aos poucos, lentamente se desfaz
A chama acesa do seu amor oblíquo
Incendeia meu pensamento, sempre te refaz

Meu corpo abstrato, exposto ao seu sopro frio
Flutua entre as estrelas, procurando seu semblante
A faísca do seu amor insípido
Não ilumina mais meu destino distante

Retornarei ao meu corpo, casualmente limitado
Desejando que seu brilho seja para sempre apagado

Sarah de A. Andrade

O ciclo
Inevitável ciclo dos erros por onde andam meus pensamentos. Repentina névoa que se instala em meus olhos marejados. Frias águas pelas quais navego. Instantes me foram dados nesse súbito desejo que desprezo. Inevitável olhar frio nos passados instantes de desejo. Meus erros instalados não sujam as repentinas águas que saem dos meus olhos. Esses pensamentos presos nos momentos que foram retirados: um regresso para o que não tolero.

Sarah de A. Andrade

Eu gosto de ser quem eu sou mas gosto da ideia de mudança. Se eu mudar, vou deixar de ser quem eu sou? Quem eu vou me tornar? Uma versão melhor de mim, mantendo a esperança.

Sarah de A. Andrade

A hora da estrela
Eu quero desaparecer, deixar de ser quem eu sou até eu me tornar o vazio onde esquecerei de tudo que passou. Quero ser um pouco menos de mim e mais do que não sou. Quero desmanchar entre as estrelas. Não quero ser a matéria nem mesmo essa ideia de medo que me prende na Terra. Quero ser a estrela cujo a luz já apagou.

Sarah de A. Andrade

Praia

Pude sentir o vento me tocar antes que a areia entrasse nos meus olhos. Agora posso esquecer que mergulhei com outros corpos?

Meus pés nos cacos de vidro enterrados pela criança que ainda mora no meu passado híbrido. Você ainda pode ver o meu reflexo na água do mar?

Tenho visto gaivotas voarem ao redor do meu cais, me distanciando de tudo que sinto paixão. É tarde demais para uma fuga de barco até o seu coração?

Sarah de A. Andrade