Aos nove, eu dormia às oito. Aos onze, eu tinha sono às dez. Aos doze passei a esperar que meus pais dormissem para poder acender um cigarro escondida no canto escuro da varanda da sala, torcendo para que ninguém visse enquanto minhas tragadas eram tão longas na ânsia de chegar ao fim que quando finalmente a chama se apagava sob o meu chinelo rosa, vez de quando azul e roxo, eu me direcionava a minha cama e dormia como se tivesse tomado um porre. Como se tivesse feito algo de realmente útil ou tão inútil quanto.
Com treze passei a beber. A nicotina substituída pela erva. Bob, o boneco de pano, tornou-se um pedaço frio de metal contra a minha pele, causando-me cicatrizes como se tudo aquilo fosse útil ou tão inútil quanto.
Com quinze tentei me matar, mas a morte foi apenas mais um fracasso que no fim me trouxe conclusões que talvez eu não tivesse chegado se não tivesse rasgado meu pulso ao meio.
Aos dezesseis pensei em mudar, com dezessete fracassei, mas não levo como uma derrota o fato de que metade do que planejei não ter dado realmente certo e que minha vida hoje tenha se tornado o que pode ser considerado uma vergonha a menina com nove anos que dormia às oito, devido a sua trajetória repleta de caminhos errados e becos escuros.
Nada em minha vida representa uma derrota, pois de tudo o que passei eu superei e de todas as situações ruins em que me meti eu fui capaz de sair.
Hoje, com meus poucos dezoito anos, posso dizer com clareza que a vergonha que se é esperada da menina que dormia às oito nunca chegou, pois essa mesma menina precisou se descobrir sozinha. Precisou caminhar sozinha. Precisou viver sozinha entre muitos erros e poucos acertos, mas que hoje formaram quem ela é. Quem eu sou.
Eu só tenho dezoito e por mais que tudo tenha me servido como aprendizado de vida, que minha maturidade tenha alcançado picos altos em meio a tanta infantilidade e despreparo eu ainda tenho medo.
Medos, preocupações, inseguranças.
Há algum tempo atrás o meu maior desafio envolvia manter meus amigos perto e meu relacionamento intacto até que eu fui capaz de perceber que muitos amigos não eram amigos e que os irmãos não eram irmãos e que meu namoro duraria quando eu parasse de tentar fazer com que ele durasse.
Há algum tempo atrás perder alguns era o fim da linha pra mim, mas hoje o fim da linha é muito mais longe e eu realmente não tenho mais tempo de manter gente arrogante e hipócrita por perto em uma tentativa de crer que o amor resiste a tudo em uma situação onde o amor de fato nem mesmo existe, mas não vamos entrar nesse mérito.
O que quero dizer é que há algum tempo atrás minhas ambições eram outras e o mundo terminava quando na verdade nem mesmo havia parado de girar e hoje tudo já mudou. As coisas já saíram do lugar.
Estou muito longe de quem eu era com oito, doze, treze anos, como estou muito longe do que fui há alguns meses, há alguns dias, há algumas horas.
Meus medos apenas crescem, minhas preocupações se multiplicam e minhas inseguranças tornam-se ainda mais desesperadoras.
Com dezoito eu não durmo mais às oito e sinto muito pelo o meu sono perdido com os problemas de hoje que com certeza serão tão insignificantes como os de há algum tempo atrás, mas tudo está bem assim.
Nada é uma derrota, tudo é um aprendizado e isso não tem nada a ver com auto ajuda.
É apenas a constatação de que a vida muda de hora em hora e que nada realmente é o fim do mundo.
O mundo ainda não acabou.
O mundo começa agora.
E quem descobriu isso?
Eu. Aquela que fui há algumas horas.