Carta aos amigos e colegas de escola
Hoje, aguardando o resultado desta importante eleição, gostaria de compartilhar minha visão de como chegamos ao "clima tenso" que muitas vezes irrompeu entre nós, nossos familiares ou grupos de amigos.
Vou evitar a armadilha que, confesso, eu mesmo cai algumas vezes, de achar que quantidade de citações ou postagens mostraria a qualidade do argumento, que fatos pontuais poderiam ser generalizados.
Vou voltar para o meu sempre eficiente modus operandi tradicional. Quando preciso tomar decisões importantes procuro me afastar do calor dos debates, me distanciar para ter uma ampla visão do quadro macro e situá-lo no tempo, cronologicamente. E sempre que me refiro a tempo considero o longo prazo, tanto para o futuro quanto para o passado. Assim, consigo neutralizar o calor do momento e evitar que conclusões e respostas sejam influenciadas pelos fatores emocionais predominantes.
Há muito tempo, frequento o sistema educacional brasileiro, primeiro como aluno, do ensino fundamental ao doutorado e, desde 1988, frequento o meio acadêmico como professor, não só na Fundação Getulio Vargas como em várias outras instituições em todo o Brasil inclusive a USP onde fiz meu doutorado e ministrei disciplinas na FIA. E, por isso, creio ter uma boa visão do que aconteceu e está acontecendo com o sistema educacional brasileiro.
Vamos voltar a 1970, quando entramos na Poli, exatos seis anos após o início do regime militar instalado para conter o avanço do comunismo (ou o que queira chamar) no país. Nossas namoradas da época, algumas são esposas hoje, também entraram na USP na mesma época e, assim, conversando com elas e frequentando, não só almoçando nas outras faculdades, tínhamos uma boa visão do que acontecia na USP.
Há mais de 50 anos, a Poli era uma ilha de direita cercado por um mar vermelho na USP.
Em 1964, com o apoio maciço da população, os militares haviam conseguido conter o avanço territorial do comunismo, mas assim como os americanos no Vietnã, também demoraram muito para entender que ideologia não se combate no campo físico e perceber que a guerra já estava bem avançada em outro campo, a Educação.
Segundo o projeto para tomada do poder, o sistema educacional seria a espinha dorsal para a implantação do socialismo na América Latina..
Sim, o sistema educacional brasileiro começou a ser aparelhado em meados dos anos 50! Portanto, já se passaram sete décadas.
Hoje, esse sistema educacional praticamente “irremovível e imutável”, já formou várias milhões de alunos e milhares de professores que se tornaram professores de outros professores e assim assegurando a sua perpetuidade.
As escolas são responsáveis por um processo chamado de ensino-aprendizagem. Quando o governo Dilma anunciou o slogan “Pátria educadora” tornando explícito o que até então era tácito, que
as escolas haviam deixado de ensinar para a passar a educar assumindo o papel de instituições que consideravam “falidas” como família ou religião.
E nas ementas de disciplinas que deveriam ser ensinadas foram introduzidos temas para educar os alunos desde sua infância repetindo até que se tornassem dogmas. Se esse método, aplicado por décadas, reduziu ou anulou a importância de valores tradicionais como laços familiares e religiões, por outro lado, fez com que uma parcela significativa da população brasileira se tornasse analfabeta funcional, isto é, que sabe ler e escrever, mas não consegue compreender textos simples sobre a sua própria profissão.
Este resultado é comprovado por números: 40% do ingressantes em algumas faculdades da cidade de São Paulo são analfabetos funcionais.
E, assim, foi sendo criada a massa de manobra necessária para a perpetuação do sistema de poder político que havia sido rejeitado pelo povo em 1964. Criou-se um sem número de pessoas que acredita em qualquer manchete ou notícia alinhada com o doutrinamento recebido sem conhecer ou se aprofundar no assunto, que evita ser confrontada com qualquer fato que desafie os dogmas introduzidos na escola, que decide pela emoção não pela razão e que chama quem se opuser de “gado”.
Em Outubro de 2002, assim que Lula foi eleito pela primeira vez presidente do Brasil, como especialista em Strategic Foresight (eficiente método para a construção de cenários futuros) fui consultado por colegas da GV sobre o que iria acontecer com a subida o Partido dos Trabalhadores ao poder.
Minha resposta rápida e direta surpreendeu alguns colegas mais imediatistas:
“Aguardem dez a quinze anos e vejam o estrago que será feito nesse país”.
Infelizmente, acertei na mosca.
Treze anos depois, após inúmeros escândalos como o do Mensalão e do Petrolão, o impeachment de uma presidente inepta foi inevitável, pois o país vivia a maior crise econômica de sua história.
Mesmo assim, o resiliente sistema educacional aparelhado continuou a se expandir expulsando qualquer um que pense ou tente algo diferente da cartilha ou não entre no “esquema”. isso vale tanto para ministros ou para um simples funcionário.
Mas, se todos os rankings internacionais de educação em qualquer nível, ensino básico, médio ou superior mostram que o desempenho do Brasil é sofrível e é cada vez pior, mesmo aqueles ideologicamente alinhados com esses métodos já não deveriam ter percebido que não funcionou?
Um momento! O sistema educacional não funcionou para quem, cara pálida?
Se, para a nação o sistema educacional foi um desastre, para os que pretendem "tomar o poder, que é diferente de vencer eleições", o Ministério da Educação e Cultura, com raras exceções que validam a regra, tem feito um trabalho exemplar.
Sempre tendo como objetivo aumentar a massa de manobra, conseguiu universalizar do acesso ao ensino fundamental sem nada melhorar a péssima qualidade do ensino fundamental e aumentou consideravelmente o número de formados pelo ensino superior que, pela baixa qualidade dos egressos, resultou no descrédito das várias profissões, inclusive a nossa engenharia, levando à inadimplência milhões de estudantes que caíram no “171” do Fies e Prouni e não supriu a falta de profissionais de qualidade no mercado.
Mas, a massa de manobra continuou aumentando e ainda feliz por, mesmo que não tenha melhorado a sua empregabilidade ou salário, "pela primeira vez temos um membro da família com curso superior".
Qual o futuro de uma nação, em plena Era do Conhecimento, sem Educação de qualidade?
E aqui faço um mea culpa.
Seja por ingenuidade, incompetência, preguiça, descuido, falta de atenção ou consciência, de amor, por outras prioridades, compromissos ou problemas,
Nós, pais e avós, permitimos que nossos crianças e jovens fossem paulatinamente cooptados durante a vida escolar
por um grupo que covardemente se aproveitou da ingenuidade e da confiança cega que nossas crianças têm em seus tutores para doutriná-las tornando-os surdos aos conselhos de seus pais.
O resultado da eleição vai sair logo mais e os dois cenários futuros não são estimulantes.
Caso Bolsonaro seja eleito, ainda teremos um longo e árduo trabalho pela frente para começar a mudar o sistema educacional. Se cada um de nós começar a dar mais atenção aos seus filhos e netos, diariamente perguntando o que o professor ensinou naquele dia e avaliar se estão de acordo com o valores da família e, caso haja discrepância, levar o assunto para a coordenação da escola, já será um excelente começo.
Mas, também é preciso saber que muitas pessoas, até algumas gerações, já estão séria e definitivamente "deformadas cognitivamente" e dificilmente irão readquirir o livre arbítrio cognitivo. Uma pena, mas é uma realidade que deve ser aceita para evitar esforços infrutíferos.
Caso Lula seja o vencedor no pleito de hoje não me peçam para, como em Outubro de 2002, dizer o que vai acontecer. Vocês não vão gostar de saber a resposta e eu não gostaria de acertar mais uma vez.
Um grande abraço a todos!
Do colega Miguel Sacramento