“Diferenciar-se só é possível desfazendo-se, eu disse. E quando perguntado sobre o que consistia a distinção e a personalização rematei dizendo que sou um sujeito que se construiu às avessas, deformando lugares-comuns, fórmulas existenciais agradáveis, ideários de ordem metafísica — toda a cosmogonia a que fui submetido desde pequeno e que tentou me moldar e me talhar a personalidade como faz com boa parte do mundo. É isso, então: um sujeito que se desfez fazendo a si próprio; um sujeito que se fez desfazendo acordos coletivos tácitos e aprioridades, não um sujeito que se desfez fazendo de si aquilo que os outros estipularam, não um sujeito que se fez desfazendo-se a si mesmo e só vivendo por adesão completamente calado, passivo, ingênuo. Vivi sempre do outro lado, inconformado com as tramoias da maioria. Um Thoreau mais novo com pouco talento literário-filosófico, vivendo na natureza de mim mesmo, guiando-me por minhas próprias intuições. A maior delas foi sempre essa: fuja das multidões. Elas estão quase sempre erradas. Muitos dos meus problemas derivam dessa impossibilidade de aderir ao pacto coletivo que todo mundo adere pra não despencar e bater a testa no abismo. Compreende, meu velho? E não tem a ver com antisociabilidade ou qualquer merda assim, não. É outra coisa. É outra parada. O negócio é mais fundo.”
— Edson Junior.







