Como vamos sobreviver aos próximos quatro anos?
Estamos no quarto dia de governo e já deu pra sentir que a coisa não vai ser fácil - mas a gente já sabia disso. Então agora é hora de pensar em estratégia. Querendo ou não, a gente vai ter que passar por isso - e é nosso dever sobreviver da melhor maneira possível.
Pra isso, eu acho importante a gente conversar sobre as estratégias do governo de propaganda e condução de narrativa. Todo governo tem uma, bora ver como lidar com a desse. Respira fundo que isso vai ser longo.
Desde o período das eleições, tem que ter ficado claro pra todo mundo que se tem uma coisa em que essas pessoas são muito boas, essa coisa é lidar com redes sociais. “Ai mas olha esses memes que toscos” “putz mas o design dos ministérios tá péssimo” sim, tudo uma bagaceira mesmo pra quem tem um treinamento estético, mas gente:::: é estratégia. Ou ceis acham mesmo que não dava pro planalto ter os melhores designers que quisessem? assim como as fotos do dito cujo lavando roupa no tanque e comendo pão com leite condensado sem nem uma toalinha de mesa, a aparente ‘simplicidade’ e esse aspecto mais raiz, menos estético, mais medíocre, tem uma mensagem em si - e tem um objetivo propagandista. Que também é o mesmo objetivo do nosso presidente - e de outros presidentes - ao preferirem se comunicar oficialmente através do twitter do que indo a redes de comunicação tradicional. Ele não só controla a narrativa, como passa uma ideia de aproximação com a população sem intermédios burocráticos - ele é um outsider, afinal de contas, não? ele está lá pra “mudar isso daí”, não era isso? nada mais estratégico do que passar visualmente a informação da mudança - e da mudança pra algo… menos elitista. Que, pra nós, aqui militância da internet, soa como cafonice e vira meme. Newsflash, ou bora dizer em português pra já ir atuando, tapa na cara do dia: é isso que eles querem. Que vire meme mesmo. Bora explicar porquê.
Lá fora, nos EUA, Rússia, a galera tá chamando esse processo de firehosing [significa algo como mangueira de incêndio, no sentido de despejar muita água ao mesmo tempo]. Aqui a estratégia tem suas próprias características, mas ainda segue um padrão e ainda tem os mesmo objetivos, então dá pra estudar os casos de lá pra entender o processo, caso queiram, aqui um bom vídeo em inglês sobre esses casos. Mas bora detalhar em português. A primeira fase é uma criação de um grande número de polêmicas. Nos EUA, tudo gira em torno de mentiras óbvias (tipo, “pessoas votaram ilegalmente em dois estados”), aqui não necessariamente - a polêmica pela polêmica funciona, como “meninos usam rosa, meninas usam azul” (era isso? rs), mas também tem uma quantidade grande de mentiras, vide a mamadeira de piroca, doutrinação comunista, queiroz vendedor de carros, etcs. “AH, então é tipo uma cortina de fumaça?” sim, mas não também. Sim, porque uma ideia mais primitiva é de criar distração, mas não do jeito que a gente geralmente tá acostumado - não é pauta bomba do congresso, como a gente costumava ver. Não é UM assunto de desvio - são múltiplos, são dezenas de polêmicas em um espaço curto de tempo que torna impossível a cobertura e discussão de tudo. É só pensar em quantas a gente já teve até agora, e só fazem 4 dias que o governo começou. Isso tem uma série de objetivos, para além de tornar o foco impossível.
Primeiro, mais obviamente, se espera até certo ponto vencer pelo cansaço. Com tanta coisa acontecendo, é fácil querer desistir de acompanhar. Segundo - cria-se um primeiro nível de divisão - e aqui a coisa começa a ficar interessante: se objetiva criar divisões entre a oposição - abram o twitter. A esquerda já tá brigando de novo porque metade das pessoas está discutindo um assunto X e a outra metade está gritando que aquilo não é importante, pois deveríamos estar discutindo Y. Logo, aparece mais alguma polêmica pra criar outro racha em Z. Isso faz com que não somente a própria oposição não consiga unidade e crie antipatias entre si - um momento perigoso pra isso, bem perigoso ficarmos tendo ainda mais brigas sobre quem é mais vítima ou mais importante - mas também faz com que fique mais difícil pra qualquer pessoa que não esteja REALMENTE apoiando o governo e tenha alguma curiosidade na oposição de se aproximar de nós. Além do que, as briguinhas e o modo como nós compramos qualquer provocação, mesmo que ínfima, nos torna… memes. E é difícil querer se associar a isso, vindo de fora, o que nos leva a…
Terceiro: cria-se um segundo nível de divisão, entre a oposição militância e a população que talvez não tenha tanta convicção assim no presidente (mas o apoia), a partir de…orgulho. A partir do momento em que algumas dessas polêmicas se dão em torno de coisas relativamente populares - como a fala da ministra sobre meninos, ou design do planalto, ou as fotos “do povo” do presidente - e a esquerda começa a fazer memes e piadas a torto e a direito desses assuntos, o resultado é, rufem os tambores: antipatia por parte de uma grande parte da população. Se já é difícil por conta das divisões que alguém de fora se aproxime, fica ainda pior quando as pessoas ainda se veem ridicularizadas ou antipatizadas dentro do movimento. Em outro ponto, a linguagem que a gente costuma usar pra debater também não ajuda. Então, quando se lança uma polêmica de nível menor, se espera que ela vire meme nas nossas mãos, exatamente porque isso afasta mais ainda outras pessoas. Ah, e a coisa de ficar ridicularizando os arrependidos? Isso também. Inclusive, já existem ‘bots arrependidos’ também - pra quê? por quê os robôs seriam colocados nessa posição, eles os tais grandes defensores de tais ideologias? pois é, pra virar meme na nossa mão e criar o sentimento de antipatia por outra parte. A ratoeira foi montada, e infelizmente tá todo mundo caindo.
Segunda fase da estratégia: desmentir as polêmicas. “Pera, quê?” pois é. Lembram quando B-Filho-número-3 jogava na roda alguma grande polêmica e aí papai vinha dizer que não era bem assim? “vamo fazer a pena de morte!” versus “não vamos não, calma”? Não deu 1 dia pra Ministra estar na televisão dando explicações - ainda que inconsistentes - sobre sua polêmica e assegurando que não iam fazer nada contra grandes direitos adquiridos por minorias. Mas quando essas coisas são desmentidas, elas já foram propagandas pela grande mídia - elas já passaram em todos os jornais, elas já foram debatidas a fundo em toda a internet, e já viraram memes na mão da esquerda e a esquerda já virou meme-por-estar-fazendo-meme na mão da direita. O efeito disso funciona da seguinte maneira: o eleitor bolsonarista ligou a televisão aquele dia e viu a mídia discutindo uma polêmica sobre o seu governo. Foi pra internet, e se viu ridicularizado por causa da tal polêmica. Algumas horas depois, vai ver seu presidente - ou alguém próximo - lhe assegurar que nada daquilo é exatamente assim. Talvez até lhe digam que a mídia e a oposição mentem. Porque olha ali, o cara em si tá dizendo o oposto! Putz. Realmente, não dá pra confiar em qualquer polêmica que passe nos jornais hoje em dia. - Onde essas pessoas vão procurar informação? Não vai ser mais nos jornais (e aqui podemos entrar nos MESES da discussão de fake news, que serviram pra isso também) - e não vai ser no jornalismo de internet de oposição, jamais, pelo que vimos na fase 1 - agora, esse eleitor ainda por cima tem raiva desse grupo. A informação que resta, e que vai ser escolhida com gosto, vai ser nas redes oficiais do presidente. E nas redes que ele recomendar.
O problema central disso: essa estratégia coloca em cheque a própria noção de realidade em várias frentes. Na primeira fase, a oposição é obrigada a questionar suas próprias noções do que é real, do que existe - e não tem nada mais cansativo do que ser obrigado de novo e de novo a ter que provar algo que parece ser uma verdade óbvia (tipo “não existe kit gay!”), o que coloca em debate nacional a própria realidade do país. Na segunda fase, a própria base de apoio começa a questionar a noção de realidade que tem e no que pode ou não pode confiar, sendo induzida a confiar apenas em uma fonte central e duvidar das demais. O objetivo central do firehosing, no fim, é criar uma realidade que gire em torno do presidente. Ele constrói a narrativa que quiser - ele questiona o que nós temos como verdade e quebra as noções do que parecia sólido até então de forma tão frequente que, em algum momento, boa parte da população já não tem mais referencial.
A oposição se divide e, enquanto questiona as próprias noções de verdade e relevância, afasta a outra parte da população que, ao se sentir mal representada, quando não insultada, vai se ver cada vez mais convicta de que só pode confiar naquele que elegeu, e de que os motivos que talvez a tenham levado ao voto são justificados. Está feito o estrago: um fã clube pessoal do presidente, uma oposição dividida e distraída, e talvez alguns poucos centristas bastante confusos que não conseguirão também se apegar a nada.
“Fodeu, né. Como que a gente lida com isso?” eis a questão. Primeiramente, seria ideal se o jornalismo brasileiro pudesse segurar a barra de não cobrir polêmicas excessivamente, bloqueando um pouco a fase 2. Vai ser difícil, então vamos pros lados mais práticos. Nós temos que parar de tentar lutar por polêmica pequena, nós temos que parar de perder tempo debatendo entre NÓS o que é mais importante (difícil tarefa considerando a esquerda brasileira, eu sei), nós temos que parar de cair no conto de fazer meme ridicularizando eleitores do outro lado. Eu sei, é difícil pra caralho, a gente VIVE pra fazer meme, mas se é pra fazer, faz e manda no seu grupo de amigos do zap. Deixa lá. Faz a piada entre vocês. Não joga essa merda pra viralizar no twitter. Atualmente, é desserviço. Tá vendo uma parte da esquerda discutindo algo que você não julga importante? ao invés de fazer meme dizendo “olha lá essa parte RÍDICULA da esquerda” vai lá criar post sobre o que É importante. A gente não pode mais ser destrutivo agora. A parada é construir. E, acima de tudo, a gente tem que estar atento. A gente tem que ficar ligado. Não dá pra ficar pensando que é tudo trapalhada e fonte de meme e esquecer que política é estratégia. 95% das vezes, se alguma coisa ridícula aconteceu, tem alguém que vai se beneficiar disso em algum momento. A gente tem que se manter informado e se manter atualizado das estratégias de lá. É a única forma de conter o estrago.
Por último mas não menos importante, é importante notar: eles sabem o que estão fazendo. E são bons nisso. Então, todo cuidado com a nossa própria segurança também é pouco. Aqui eu fiz um masterpost sobre segurança digital, e quero acrescentar mais esse site aqui, agora em português como fonte de informação. Em breve eu acho que vai ser hora da gente começar a pensar em estratégias de segurança pra possíveis manifestações etcs, mas esse post já tá grande o suficiente. Espero que tenha ficado claro, mas qualquer coisa o inbox tá aberto pra maiores dúvidas ^