Por um bom tempo, isso me feriu. Não adianta negar.
O silêncio muitas vezes machuca porque ele nada mais é que um lembrete.
De que, muitas vezes, o que temos a dizer pode não ser importante.
Não para os outros.É quase um atestado de inutilidade da nossa existência.
Pelo menos, era assim que minha mente desenhava esse cenário.
Eu sempre fui bom em me camuflar no meio da multidão.
Sempre aquele que jamais rebate ou retruca.
Um grande ouvinte.
Bons conselhos.
Algumas risadas.
Mas nada muito mais do que isso.
Eu nunca tive uma história a contar.
Minha presença era fugaz.
Como uma sombra.
Minha existência jamais me pareceu um fato relevante.
Era como se fosse uma vírgula perdida no meio de um capitulo.
Por isso, me retrai em um novo universo.
Andei pelas vielas inabitadas.
Fugi do sol.
Me recolhi em mim.
Aos poucos, as palavras ficaram mais escassas.
No final, não restava muito mais do que o eco dos pensamentos
intrusivos que eu carregava.
Na mente e no peito.
Senti as dores naquele eterno vaivém.
Como ondas se forçando em um quebra-mar.
A dor da existência. Aquela que vem da incerteza.
De jamais ser visto ou compreendido. De achar que esses conceitos
não se aplicariam a mim.
Tive minha fase de autopiedade, que não durou muito.
Nunca gostei de me rotular como vitima.
No fundo eu sabia que aquele era o resultado de escolhas.
Talvez, no máximo, eu tivesse alguma predisposição a ausência dos sons.
E também da presença.
De qualquer forma, o resultado seria o mesmo.
Eu ainda estaria aqui, hoje.
E ainda estaria sozinho.
Ainda estaria ouvindo o som do silêncio se perpetuando no espaço e no tempo.
Enquanto eu me pergunto se a vida é tão somente isso.
Essa eterna espera de que dias melhores virão.
Seja como for, sei que esse é meu lugar.
Estou em casa quando o silêncio se instala.
Porque esse é o resumo da minha vida: nunca esquecido porém, jamais lembrado.
TEXTO E IMAGEM : Joao Padilha


