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Às vezes sinto que amo como quem mastiga apressadamente um prato de comida. Perdoe as metáforas — meus temidos excessos — , mas parece que nada conseguiria expressar o que é essa fome de amar se não a própria busca por alimento. Me vejo erguendo os talheres repetidas vezes, não suaves como as outras moças delicadas que respeitam o próprio tempo. A minha urgência é de querer consumir todos os grãos para além do que eu posso digerir. Como se meu estômago pequeno e frágil gritasse por misericórdia, vai com calma, você acabou de receber o alimento, por quê ingeri-lo tão rapidamente? Mas as minhas funções auditivas estão atentas a crocância, explosão, impacto dos dentes com a parte dura que eu trituro, encaixo e devolvo aos meus lábios. Não há nada rígido demais que eu não possa quebrar. 

O amor me desce feroz. 

E eu aceito. 

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Gostaria que a gente não se falasse mais

Gostaria que a gente se falasse de vez em quando

Gostaria que a gente se falasse na mesma língua

Pois só assim justificaria as nossas lacunas de incompreensão

E a sensação de que nada foi dito

Gostaria então que a gente se falasse sobre isso

Para que eu pudesse usar todas as metáforas que se vão pelo ralo da pia

Como essa

Só gostaria que a gente se falasse sem a presença dos nossos amigos

E do terapeuta caro que contratamos após nossa última briga

Agora nossas discussões entram no orçamento

E na minha cabeça ninho-de-grandes-neuroses

Eu só gostaria que a gente falasse tudo o que vem à mente

das obscenidades aos medos mais latentes

das vezes que eu senti ódio

e você pena

das vontades irreversíveis empurradas para debaixo do tapete

das possibilidades de outras vidas para além desta que estamos vivendo

estamos?

Gostaria que a gente falasse até que a garganta secasse e só me sobrasse engolir o meu próprio vazio

sereno e mudo

Gostaria que a gente falasse até não precisar falar nunca mais.